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24 outubro 2014

O último segundo





Durante uma época da minha vida conheci muitos ativistas que lutavam sem parar pelos animais. Como eu nunca tive uma grande intimidade com toda a lama que o ser humano carrega entendia bem porque eles largavam suas vidas, amores e subiam em barcos para defender animais. Antes de ter compaixão pelos animais é necessário ter perdido a fé na humanidade para se isolar e se dedicar de corpo e alma aos animais.

Em um jantar encontrei com uma moça ativista muito simpática, tinha largado sua vida de médica, era infectologista, para viajar pelo mundo limpando pinguins. Ela ia em barcos que corriam o planeta detrás de desastres que envolviam petróleo e ficava limpando os pinguins sujos, que conseguiam salvar. Mas o número de pinguins que conseguiam sobreviver à intoxicação do petróleo e a ter seu corpo coberto pelo produto era muito pequeno, mesmo assim ela não desistia.
Eram viagens por todo o planeta, tentando salvar pinguins, leões marinhos  
as espécies que encontrassem. Ela me contou sobre os desastres  ''secretos'', derramamentos de petróleo que os governos escondem e a luta dos ativistas para denunciar.

Contei a ela uma das maiores dúvidas que tinha na época, eu era a favor de salvar animais, não importa o preço disso, mas às vezes me perguntava se não estávamos  prolongando o seu sofrimento, como no caso de um urso Invictus, muito famoso  no México, porque virou símbolo de uma longa luta contra os circos. Foi maltratado durante anos, teve sua mandíbula arrancada para não morder os adestradores e seus dedos amputados. Os ativistas venceram a guerra e conseguiram tirar o urso do circo, foi levado a outro lugar para receber tratamento, mas não resistiu e morreu. Quando vi as fotos dele sendo resgatado me perguntei se não era melhor sacrificar e não arrastar mais ainda o sofrimento dele. Pensei na minha ignorância que se o animal estava muito maltratado e poderia ter uma longa e dolorosa recuperação, talvez seria melhor sacrificar porque assim pelo menos ele estaria nas mãos de Deus, longe do ser humano.

Um dos gatos da minha prima dava umas voltas pela vizinhança, um rapaz se irritou, colocou o gato no motor do carro e ligou. O animal não morreu, mas ficou queimado e não sei como se arrastou até a casa da minha prima. Ela o levou para o veterinário e me ligou, quando vi o estado do animal fui a primeira a pedir que o sacrificassem, o coitadinho não tinha nem pele, só parecia ter os olhos. Fiquei chocada, horrorizada e pensando na dor que ele iria enfrentar caso minha insana prima bancasse o tratamento. Mas minha prima era maluca pelo gato e quis tratar. Não sei o que foi feito, mas em menos de seis meses parecia outro animal, ele se recuperou totalmente, nunca mais cresceram os pelos, mas de resto voltou a vida. Era lindo ver ele subindo e descendo, parecia agradecido, nesse momento pensei que tinha sido uma coisa de Deus que minha prima tivesse ignorado meu conselho.

Contei isso para a ativista, que me dividia nessa questão, não suporto ver um animal sofrendo e acho melhor sacrificar, mas ao mesmo tempo penso que todas as vidas devem ser salvas. E ela me disse uma coisa que não esqueço e me fez ver o outro lado da questão que tanto me atormentava. Logo ela começou a contar seus motivos:

-Sou contra sacrificar, só se o animal estiver com muita dor, caso contrário acredito que temos que lutar até o fim.

Concordei com isso, mas lembrando do caso do  gato, só de escutar 
o animal meu coração se partia em mil pedaços. E ela me disse:


-A gente sofre mesmo. Mas sabe o que acontece? Eles se machucam porque nós entramos no seu caminho, interrompemos suas vidas, por isso cada vez que limpo um pinguim penso na obrigação que tenho com eles. E não vou te mentir,  passo horas lavando eles e são poucos que sobrevivem, mas não penso nos que vão, mas nos que ficam. Pode parecer loucura, mas olho direto nos olhos deles e quero que tenham essa imagem presente, alguém cruzou a vida deles, mas também tem quem tenta salvar. É isso que eu quero, salvar eles, mas que saibam que não somos todos iguais, não somos todos esses monstros que os torturam e os matam. Se forem embora do planeta quero que fiquem sabendo que alguém lutou por eles e pelo seu direito de existir, não quero que levem daqui apenas a lembrança sinistra das conseqüências de dividir um mundo com os seres humanos. Eu limpo eles, me desculpo, converso, tento explicar. Só quero isso, se tiverem que fechar seus olhinhos que tenham paz no coração, que saibam que o mundo não é feito apenas de carrascos, mas de pessoas que acreditam no respeito a eles. Não sei para onde vão, mas espero que carreguem essa divisão, que possam dizer que conheceram os dois lados do ser humano, o que tortura e o que tenta salvar. Às vezes parece que estou limpando eles e tentam segurar na minha mão com suas asas e penso que entendem tudo o que estou fazendo. Você pode imaginar o horror que deve ser morrer na indiferença, sem ninguém tentando salvar? A morte deles pelo petróleo é lenta e dolorosa você imagina isso sem ninguém tentando socorrer? Eu sei que poucos sobrevivem e os que conseguem ainda enfrentam um grande calvário, eles voltam ao mar, mas é questão de semanas para que outro derramamento de petróleo pegue eles no caminho. Gostaria de ter dizer que a porcentagem dos que salvamos é alta e por isso vale a pena, mas não é verdade, salvamos poucos, centenas morrem e outros ficam doentes pelo resto da vida. E  trabalho como ativista não só pelos que posso salvar, mas por todos que vão embora. Quero que saibam que não estão sozinhos nem desamparados, se vai ser seu último minuto aqui que levem essa certeza, existe amor e respeito por eles. Vale a pena lutar por cada um, porque é a única maneira que temos de dizer a todos eles que o mundo não é só dor, também existe alguém que pode estender a mão para ajudar, nem que seja no último segundo.

Iara De Dupont

5 comentários:

Anônimo disse...

Não sou uma pessoa materialista. Não penso em juntar dinheiro, acumular coisas, ter uma vida de luxo, pelo contrário, preciso do meu trabalho para viver. Não sei qu sentimentoe leva pessoas a rodarem o mundo salvando animais. Eles merecem nossa atenção, alguém tem de ajudar, alguém tem de se apiedar, mas daí a deixar o trabalho e viver por aí salvando animais não há a menor possibilidade!!! As pessoas que fazem isso devem ter um apoio muito grande da familia, um dinheiro por tras, uma herança a receber, porque a idade chega para todos e no futuro, os animais não poderão fazer nada por ela...Para eu poder ajudar os animais mundo afora, tenho de primeiro ter uma estabilidade na minha vida.

Poeta da Colina disse...

"Por amor as causas perdidas...". Nem que seja nosso último segundo

Anônimo disse...

Conheci pelo YT um grupo de resgate de animais de rua com altos índices de sucesso. Nem todos sobreviviam pra ser adotados, verdade. Faz parte. Mas todos os animais resgatados eram cuidados, tinham ao seu redor pessoas que lhes davam comida, água, carinho, remédios pra aliviar a dor... dava pra ver que eles ficavam contentes. Como o próprio dono do canal disse, eles partiam cercados de afeto e cuidado. E creio sinceramente que isso é melhor do que morrer sozinho, abandonado, sentindo dor, no frio e com fome. Então, que a doutora e seus colegas estão fazendo sim algo pelos animais, mesmo pelos que não sobrevivem.

Suzana Neves disse...

Já tive muitos gatos e cachorros mas nunca tive dinheiro só amor mesmo ia vi tantos morrendo principalmente de Parvirose acho que o nome é esse que perdida vontade de criar animais

Também não aguento sofrimento

Patricia disse...

puxa,que lindo exemplo de bandeira de luta essa ativista nos ensina,Iara!

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