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28 outubro 2014

Novela Império: mulher em jaula e obrigada a parir? Chega né!




Cresci com a cartilha feminista do patriarcado, que me garantia a  ''falsa'' liberdade. Como eu podia votar e estudar, então o feminismo não era mais necessário, não passava de um movimento dos anos setenta que já tinha sido superado.

Foi só quando rasguei essa cartilha que percebi o tamanho do estrago. Comecei  vendo a situação de outras mulheres ao redor do mundo, ainda presas à loucura machista, mas com o tempo tudo ali foi se aproximando da minha realidade e vi que o machismo era como uma substância tóxica que contaminou um mar inteiro. Mesmo que em cada costa existam milhões de mulheres tentando  ''recuperar'' a água, são bilhões de litros contaminados que ainda circulam no planeta.

Esse foi um dos motivos pelos quais resolvi estudar rádio e televisão, a pouca presença feminina nos meios e quando ela existe não passa de enfeite, bonecas gigantes repetindo o discurso ensaiado do machismo.

Quando tenho tempo gosto de ficar mandando cartas as emissoras e alguns programas, não sei se recebem ou não, nunca me informaram,  eu reclamo de tudo que vejo de errado, a Globo tem uma central de atendimento que funciona muito bem. Já mandei tantas cartas reclamando de diálogos de novela que uma vez alguém respondeu, dizendo que a maioria dos autores são pessoas de idade, já escreviam novelas de sucesso antes de eu nascer e por isso os traços machistas são tão comuns, são anos carregando a tinta na história misógina, não dá pra mudar assim do nada.

Apesar de entender e saber que hoje os principais autores da Globo passam da casa dos setenta anos, mesmo assim ainda me incomodo com o que escuto, não acredito em censura, mas em um filtro, deveria existir uma mulher lá dentro que falasse que algumas frases perderam o sentido no século XXI ou são muito ofensivas.

Já teve gente que me mandou assistir novela sem ''reparar'' tanto, mas eu olho mesmo, presto atenção em tudo e como fui uma criança de assistir muita televisão sei que a gente absorve mais do que pensa.

E algumas vezes me aborreço muito, como ontem, assistindo a novela Império, da Rede Globo.

Um personagem, Lucas, é o retrato clássico do menino rico brasileiro, filho de coronel, não estuda, não trabalha, vive pelas ruas aprontando, ao lado de uma grande amiga, a Du, que também não faz nada da vida. Ele não gosta dela, mas a moça é apaixonada e confirmando aquela teoria de que homem não perde oportunidade de sexo, acabaram tendo relações um dia que ele estava chateado por ter levado um fora da menina que gostava e ela estava triste por ver ele apaixonado por outra. Ele foi para cima sabendo que a moça era apaixonada e adoraria transar, talvez pensando em conquistar de vez o rapaz, mas ela acabou grávida.

E no capítulo de ontem ela foi comunicar isso a ele e sua família, mas já chegou decidida dizendo que não ia  ter o filho. O pai do rapaz, o Comendador, pergunta a moça o que ela quer e a resposta é a mesma, não quer o filho porque quando nasceu sua mãe já tinha três filhos e não queria mais um, escapou, então ela cresceu sendo tratada como lixo e não quer ter um filho sentindo a mesma coisa. O Comendador pergunta ao seu filho, Lucas, o que ele quer e o rapaz diz que é louco para ser pai, quer a criança. Dito isso o Comendador fecha a conversa  ''essa criança é meu neto e ele vai nascer, deixa essa moça (a mãe) pra lá''.

O que? Como assim ''deixa essa moça pra lá?'', não vale nada a opinião da mulher? Não. Por acaso ela é vaca de fazenda e o proprietário da vaca é automaticamente dono do bezerro? É.

E para piorar o Comendador continua  ''você vai ter esse filho nem que eu tenha que te colocar em uma jaula''.
Misericórdia divina! Pode um diálogo desses em uma novela assistida por sessenta milhões de pessoas? Pode!

É de uma irresponsabilidade assustadora, parecia novela do Oriente Médio, onde a decisão da mulher não vale nada. Fiquei pensando como seria a reação da sociedade caso a idéia do Comendador fosse outra, e se ele não quisesse o neto? Ia dizer  ''você vai abortar nem que eu tenha que te arrastar a um açougue''. O público e os líderes religiosos estariam hoje na porta da Globo com a polícia.

Isso eu vi com uma moça que engravidou e a família tradicional dele não quis nem saber. Convidaram a moça para jantar, colocaram alguma coisa na comida ou bebida e ela acordou em uma clínica e o aborto já tinha sido feito. 

Ah, mas isso é meio forte de colocar em novela! Então vão direto ao discurso fundamentalista, de salvar a família. E não discuto o aborto, meu ponto é o respeito a mulher e as suas decisões, mulher não é brinquedo, nem objeto, homem nenhum tem que decidir nada por ela.

Me parece impossível entender nos dias de hoje o porquê de tanta perseguição as mulheres. Sou a favor de uma política que se inicie na educação, grande parte das moças que engravida desconhece métodos anticoncepcionais e muitas outras não têm acesso a eles. É fácil se perguntar porque não usaram pelo menos camisinha, mas eu moro no centro de uma cidade gigante, existe perto da minha casa um posto de saúde e posso ir lá pegar preservativos e ninguém me conhece, mas e quem mora em uma cidade pequena e perdida, onde essas coisas nem chegam, vai  fazer o que? Caminhar até a farmácia da cidade (caso exista) e pedir ao dono uns preservativos e assim ficar  ''falada'' na cidade inteira de mil habitantes?

O problema é maior do que parece, é uma crise na saúde pública e na parte social. No caso da moça da novela seu personagem é rico, urbano e sabia o que estava fazendo, engravidou de besta mesmo.

Mesmo assim a decisão é da mulher, o casal pode chegar a um acordo, mas ninguém pode obrigar a mulher a ter o filho caso ela não queira, muito menos meter ela em uma  ''jaula''. E pode parecer brincadeira, mas até em centros urbanos mulheres são prisioneiras do seu marido, a quem duvide sempre aconselho passar uma agradável tarde na delegacia da mulher para perceber a dimensão do problema, existem muitas denúncias de cárcere privado.

Entendo que a Globo seja branca, elitista, conservadora e defenda os valores da religião católica, mas deveria ser proibido colocar frases em novelas que submetam as mulheres e  as anule. Que um personagem diga  ''deixa a moça pra lá'' como se ela não existisse é terrível e  é uma setença que todas nós mulheres carregamos em alguns casos de gravidez, ora, o governo já nos ''deixou pra lá'', a sociedade também nos ''deixou para lá''. São todas tratadas como carne em açougue, no momento que não servem mais para o patriarcado são ''deixadas pra lá''.

Parece fofice o que o Comendador fez, apoiar o filho e torcer pela chegada do neto, mas no fundo é apenas violentar a mulher, passando por cima de suas decisões.  É o patriarcado ainda berrando que quem manda são eles, mulheres não valem  nada e caso elas queriam contrariar o sistema para isso existem as jaulas. E ainda vi nas redes sociais gente se derretendo, dizendo que o Comendador agiu como ''homem'', colocando ordem na casa e defendendo a vida do neto! Ah, mas que se foda a vida e decisões da mãe! É mulher!

Já me disseram para deixar de ''pegar no pé'' do que é dito em novelas, mas minha medida é minha vida, eu tive acesso a educação e cresci em um ambiente ligado a cultura, mesmo assim tudo ficou confuso demais, levei anos para separar o lixo que recebia de todos os lados, as mensagens contraditórias em relação aos direitos da mulher. Imagino então milhões de meninas pelo Brasil, sem acesso a nenhum tipo de informação, nem um bom ensino, à mercê da vida e assistindo novelas, escutando os diálogos e acreditando que aquilo ali é real e as coisas são assim, quem manda na mulher é o homem, até se um rapaz é frouxo e engravida a moça, o pai dele assume as consequências, empurrando a mulher para fora da história.

Não faz sentido quando me dizem ''deixa de assistir novela!’’, até posso fazer isso, desligar a televisão, mas o patriarcado continua existindo e batendo na minha porta todos os dias, tentando controlar meus passos, roupas e conversas. Quisera eu que eliminar o machismo fosse apenas um botão de televisão e um post perdido na multidão. Mas não é. Machismo é o pesadelo de todas nós, de segunda a segunda, de janeiro a janeiro, uma novela sem fim, na verdade um filme de terror.

Iara De Dupont

3 comentários:

Alessandra Tofoli disse...

Já te falei que foi através do seu olhar para muitas coisas que comecei a me interessar pelo feminismo né?
E como te agradeço por isso !!!!
Ontem, assistindo a novela do lado do marido fiquei chocada com a cena, mas acredita que depois fiquei feliz? (rs) Parece loucura né? Mas fiquei feliz por estar enxergando isso, feliz por ter discernimento e feliz pelo feminismo ter entrado na minha vida.E como agora essas coisas doem em mim !!!
Perguntei na hora pro meu marido: "Mas e aí, e a moça? Não vai fazer nada?????"
E ainda colocaram uma musiquinha romantica no final da cena pra "mostrar" que aquela cena terrível era até romantiquinha.
Terrível !!

Anônimo disse...

É que o pai quer, ele tem o órgão supremo: o PAU, que ele usou pra enfiar a criança lá. Pq ele colocou esperma no depósito, e agora foda-se. Ele quer e pronto, depósito não fala e não tem vontades.

Anônimo disse...

O horror, o horror... e o pior é que o vagabundo diz que quer ser pai mas não vai trocar uma fralda. Os vagabundos choram e dizem que querem ser pais, fazem de tudo pra mulher não abortar... mas quando o filho nasce largam na mão dela e não querem nem pagar a pensão. Se a mãe não vai criar, eles largam a criança na mão da avó, da irmã ou da nova mulher pra cuidar. É por isso que eu desço o pau com gosto em todo mundo que diz "Ah, mas e se o homem quiser ser pai?" como motivo pra impedir a mulher de abortar. Homem só pode ser pai se a mulher quiser ser mãe, senão vai ter que esquecer o sonho ou arranjar uma mulher que tbm queira. Espero que pelo menos esse coronel seja o vilão...

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