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10 outubro 2014

Não sei se tem conserto




Semana passada foi o aniversário do meu Romeu favorito, até agora o mais amado, Rafael. E coloquei alguns posts antigos sobre ele no Facebook e uma garota, bem nova, menos de quatorze anos, me mandou um recado perguntando porque ele era o mais especial de todos, o que tinha acontecido para que ele se tornasse alguém tão marcante em minha vida.

Ah, que pergunta interessante! Não existe uma lista de coisas, foi apenas uma que fez Rafael ficar marcado na minha existência.

Pessoas são criadas, educadas, de maneira distinta. Eu fui cobaia dos anos setenta, aquela fase onde se acreditava que a pedagogia da época era conservadora e era preciso evoluir e mudar a maneira como as crianças se desenvolviam. Meus pais resolveram que era uma boa ideia me tratar como uma mini-adulta. Sempre tive muitas obrigações, compromissos e exigiam que me comportasse como se fosse uma adulta. Meu pai nunca me bateu, nem colocou de castigo, levava a sério aquela questão de jamais castigar uma criança porque isso seria uma experiência humilhante para ela. Mas pegou muito no meu pé quando comecei a falar, me corrigia o tempo inteiro, assim quando cheguei aos quatro anos eu falava como uma anã. 

Não lembro de nada disso, quem me contou foi a minha avó, dizia que eu falava de maneira tão correta que parecia uma anã. Durou pouco essa fase porque sempre fui alta, então logo parecia ser mais velha do que realmente era, assim ficou natural para todos me tratarem como adulta.

Eu entrei no jogo, é normal começar a se ver como os outros te veem, virei uma adulta, era responsável e disciplinada, mas sofria muito por dentro porque meu coração ainda era de menina e isso me sufocava. Os professores me tratavam com dureza e eu não sabia como reagir, muitas vezes levei broncas terríveis porque achavam que eu era a mais velha do grupo e incentivava as coisas erradas que aconteciam na escola.

Eu cansei de chorar escondido, fiz isso desde criança, aprendi a não chorar na frente de ninguém, senão levava outra bronca, porque  ''gente grande'' não chora.

Não entendi minha maneira de ser muitas vezes, na verdade durante anos, até que conheci o Rafael. Ele era, ou é, não sei, diferente de tudo o que eu já tinha conhecido, era engraçado, doce e parecia não se incomodar com muitas coisas minhas que irritavam os outros. Ele percebeu rapidamente que eu me divertia com coisas sem sentido e ficava magoada com coisas pequenas. Foi rápido em entender meu jeito e sempre soube driblar, não existiam brigas entre nós nem grandes discussões.

Uma vez fomos à festa de um amigo dele, fazia tempo que não o via e ele comentou sobre meu peso, disse que eu tinha engordado. Não respondi nada, mas fechei o tempo e me afastei. O amigo percebeu que tinha dado uma bola fora e tentou se desculpar, mas não deu muito certo. Em algum momento da festa eu estava na cozinha e o escutei na varanda conversando com o Rafael sobre a mancada que tinha dado comigo ao comentar sobre meu peso. Nos argumentos o amigo dizia que estava se sentindo culpado, não queria estragar a amizade e se haveria alguma coisa que pudesse fazer para que eu o perdoasse. Rafael sugeriu que ele não dissesse mais nada, ficasse quieto, mas o amigo insistia em dizer que achava que eu não o perdoaria. E Rafael disse:

-Relaxa! Você já se desculpou, agora é só dar um tempo para ela digerir a situação. E não se preocupe, a Iara vai te perdoar, ela pode falar mil coisas, mas tem um coração de menina, às vezes ela explode, mas não é de raiva, é porque ficou magoada. A cabeça é de adulta, mas o coração é de menina.

Lembro que eu estava ali parada, perto de uns azulejos azuis e pensei que se existisse céu deveria ser assim, aquela luz batendo no azul da parede e a voz de Rafael no fundo.

Levei alguns anos para entender como aquela frase dele me marcou, percebi que finalmente alguém tinha entendido minha essência, tinha visto como eu realmente era, quando nem eu sabia que era assim. Só essa frase dele me explicou minha vida inteira, parece que entendi tudo o que tinha sentido até ali e da onde vinha meu sofrimento.

Rafael em uma frase me explicou a  maneira na qual eu vivia, por isso eternizei ele. De tantas pessoas que conheci e outros Romeus que gostei, ele foi o único que realmente entendeu meu jeito e não parecia se importar com isso.

Quando o namoro acabou a sensação que tive de perda foi enorme, era a única pessoa no mundo que tinha compreendido como eu vivia e sentia. Perder ele era ir contra a lógica e a justiça, tudo ficou fora do lugar sem ele e o mundo me pareceu injusto pela primeira vez.

E sofri muito porque entendi que ele tinha razão, eu tinha coração de menina, por isso a perda foi tão forte. Foi com meu coração de menina que o amei da maneira mais pura e eterna, com toda aquela certeza de amor que só uma criança tem. E talvez o coração quebrado de uma adulta tenha conserto, mas não sei se é possível consertar o coração quebrado de uma menina.  Não sei.

Iara De Dupont





2 comentários:

Suzana Neves disse...

Essa parte de crescer antes do tempo eu entendo acho que a gente perde pela falta de infância não volta mais .

Poeta da Colina disse...

Talvez todo coração de menina um dia será partido e sua cura é crescer. Só não posso dizer com toda certeza se isso é bom ou ruim.

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