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05 outubro 2014

Eleições: já fiz minha palhaçada hoje e você?




Um grande problema que os atores enfrentam é que nem todos os dias estão ''naquele momento'' ou seja, no pique de fazer uma boa interpretação, por isso é necessário o estudo e o preparo, porque é ali que o ator aprende a lidar com situações e estar sempre na mesma frequência do trabalho, não importa se a peça vai ser em um dia ótimo ou no dia do enterro de seu avô.
E mesmo com estudo e prática existe o fator humano, às vezes pode ser uma simples dor de barriga, de dente, e isso já tira o ator de concentração.
Mas com o tempo se aprende que é impossível lidar com o fator humano, coisas acontecem com todo mundo e nem precisam ser atores, existem dias bons e ruins e temos que lidar com isso.

E hoje não acordei bem graças a uma virose, talvez pela mudança de temperaturas durante o dia, não sei, mas não estava no meu momento mais radiante. Pensei que seria bom ficar em casa, já que é domingo, mas me vi obrigada a sair para votar, porque hoje é a eleição para presidente e governador.

É nesse momento que entro em conflito, minha ideia de democracia não é a mesma aplicada no sistema, há divergências. Segundo minha linha de pensamento não existe voto obrigatório em uma democracia, mas aqui é. Lembro não ter votado por questões técnicas, estava em outra cidade, não justifiquei e quando fui arrumar minha situação eleitoral tive que pagar dezessete reais em uma lotérica e voltar para pegar meus papéis. Dezessete reais em uma democracia! Vote ou pague! Mas que porra é essa?

E não acordei bem hoje para me vestir de palhaça e colocar meu nariz, não queria ter sido obrigada a participar do show hoje, mas fui. Coloquei o nariz e ignorei rumores mundiais sobre a pouca segurança das urnas eletrônicas brasileiras, um sistema rejeitado no mundo inteiro por ser propenso a fraudes.
Fui, já que era a festa da falsa democracia precisavam de uma palhaça e eu preferi ir do que pagar.
Lembro e posso estar errada sobre a distância dos lugares de votação em zonas urbanas e mais ainda, centro, sei que não podem ser distantes da residência. Mudaram minha zona eleitoral e me mandaram para uma bem longe, pelo menos vinte quarteirões da minha casa, coisa que já me deixou revoltada.

E chegando lá que surpresa! O reflexo do país e sua fantástica organização apareciam quarteirões antes. A votação era no Colégio São Luiz. Não havia sinalização, multidões empurravam multidões, todo mundo metia o cotovelo, os corredores lotados sem informação, os elevadores cheios e as escadas saturadas. Tudo isso me irritou profundamente, nunca vi tanta desorganização e não apareceu uma alma para ajudar ou orientar, não tinha ninguém na porta de entrada onde toda a confusão acontecia. Mas ao me irritar comecei a olhar para os lados e ver a pior face do Brasil, o tratamento com os idosos e pessoas com deficiências, no meio da multidão, sendo empurrados, sem elevadores direcionados a eles nem ninguém para ajudar. Vi senhoras indo embora tamanha a confusão e a impossibilidade de chegar aos elevadores, que ninguém sabia onde ficavam, já que aquele colégio é enorme.

Chegando a mesa de votação já parecia um país melhor, a fila era pouca e os mesários eram organizados, mas estavam com as orelhas gigantes de tanto que escutavam todos reclamarem a jornada horrorosa que era até chegar ali.

Na saída eu que sou claustrofóbica e não gosto de lugares cheios resolvi descer pela escada, já que a espera nos elevadores era terrível. Não foi uma boa ideia, as escadas estavam cheias e as pessoas iam se empurrando, de repente vi que no andar de baixo uma garota tentava subir e não conseguia, quando reparei bem percebi que a moça era cega e não conseguia ir contra a multidão. Tentei me aproximar e ajudar, mas me empurravam para outro lado e não consegui me aproximar dela. Desci no saguão pensando em procurar alguém que pudesse ajudar a moça mas não achei ninguém, quando voltei uma senhora tinha percebido a situação e ajudava a moça. 

Nunca vi um reflexo mais perfeito de um país do que esse, uma moça cega tentando subir uma escada para votar mas sendo empurrada por uma multidão. Parecia que ela representava os duzentos milhões de brasileiros, cegos diante do poder e sem conseguir avançar. Foi uma das imagens mais deprimentes que já vi e não foi só com ela, ver os idosos sendo empurrados também me deixou triste, até para votar são tratados como lixo e cidadãos desnecessários.

E tudo para que? Porque era dia de show e o circo precisa de duzentos milhões de palhaços para funcionar. O sistema é o mesmo, não se renova, não melhora, não abre a porta para mudanças. A urna é suspeita e as intenções sinistras. E somos obrigados a ir como crianças obedientes para que o mundo veja como somos democráticos e nosso governo respeita a todos. Tudo não passa de uma farsa absurda, pequena e cansativa. É a mesma coisa do circo e do teatro, nem todos os dias o palhaço está na pilha de fazer o show, mas talvez por isso os brasileiros somos tão bons no picadeiro, estamos treinados pelo governo para sorrir e pular na hora que eles mandam.

Se eu estivesse em um país democrático, com meus direitos sendo respeitados e com candidatos adequados poderia chegar aqui e dizer que votei, mas estou em um lugar nebuloso, com urnas de plástico, candidatos de aluguel e falta de respeito com idosos e deficientes, então não posso dizer que votei, fui apenas cumprir minha obrigação de palhaça, coloquei o nariz e aplaudi o show, fazer o que? É regra de circo, quem não participa e faz o que o dono manda fica sem comida e leva choque. Não conheço a vida no Brasil como cidadã, mas como palhaça sim. E nem vou guardar meu nariz, porque vai ter segundo turno e sou obrigada a ir e dar outro show.

Iara De Dupont 


2 comentários:

Patrícia disse...

Também me sinto uma palhaça. Vi idosos com dificuldade até de locomoção, mobilizando parente para levá-los, para no fim pedir ajuda do mesário porque não sabia mexer e de quebra pedindo número de algum candidato para votar porque ela não sabia em quem votar. Acho justo eles terem seu direito de votar garantido, mas penso que que já que vai, seja realmente consciente.
Vi gente votando em qualquer candidato, porque não tinham nenhum, e pegaram o primeiro santinho que apareceu na mão deles e aproveitaram para votar naquele ali mesmo. Engraçado que nada disso eles mostram na televisão...

Anônimo disse...

Na minha sessão eleitoral uma mesária deu carteirada pra passar na frente da fila e foi votar com uma camisa de candidato, com número, partido, nome e foto da criatura, do jeitinho que era expressamente proibido. Estava até escrito num panfleto informativo sobre boca de urna ser crime colado na porta da sessão eleitoral (mesário não pode nem mesmo usar cores associadas a algum partido). E adivinha? A filha da mãe não só passou na frente de todos na fila como não sofreu NENHUMA sanção por ter desobedecido as regras. Dá pra levar a sério qualquer coisa nesse país? Dá pra dizer que a eleição brasileira é qualquer coisa que não uma imensa palhaçada?

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