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10 setembro 2014

Um jovem Romeu e o demônio que se veste de monge


Tenho uma amiga que já passou dos trinta e cinco anos e adora um Romeu ''garotão''. Sempre a vejo com namorados entre vinte e dois anos e no máximo vinte e seis.
Ela me garante que eles são ótimos e mais divertidos que os Romeus de sua idade, geralmente divididos em duas categorias, ou ainda moram com os pais e são uns bebês gigantes ou são divorciados pagando pensão para os filhos.

Eu já nasci velha, então jamais tive interesse por Romeus mais novos. Quando tinha dezoito anos gostava de Romeus de trinta anos e sempre fui andando nessa fila. Como nunca fui de baladas ficava fácil fugir dos garotões da minha idade.

Minha amiga insiste em que eu deveria pelo menos experimentar, mas argumento que não é minha praia. De tanto ela falar acabei aceitando conhecer um primo de seu namorado, um Romeu encantador. E finalmente entendi porque não gosto de Romeus tão novos. Não é regra, existem exceções, mas percebi nesse Romeu uma falta de malícia para a vida e não gostei.

Naveguei anos nessas águas, eu não tinha malícia, não via maldade e achava que nada de ruim poderia me acontecer apenas porque não desejava isso a ninguém. Por um tempo a vida me protegeu, mas de repente um furacão entrou na minha vida e mudou tudo isso. Conheci o mal e o pior de todos, a maldade à toa, você não  fez nada para a pessoa mas ela vem pra cima de você mesmo assim, apenas porque você cruzou seu caminho.

Sofri muito, inclusive fisicamente, até entender que sem malícia meus dias estariam contados neste mundo. Percebi que tudo de ruim que aconteceu na minha vida foi porque não tive maldade para ler a maldade alheia, não percebi quem estava na minha frente.

Existem pessoas jovens que já nascem espertas e sabem disso, mas outras não, a maioria ainda se protege na juventude e não percebe a importância de desenvolver a  própria maldade para se mexer no mundo. E foi por isso que não gostei desse Romeu, jovem demais, sem malícia, sem dentes afiados. 

Não tenho nenhum interesse em ter alguém do meu lado que não identifique a direção do vento, que não perceba a assustadora alma humana. Hoje prefiro ter alguém que me lembre disso, caso eu esqueça, que sem malícia não posso sobreviver. A malícia serve para identificar um ataque, antes mesmo de que aconteça ela te dá o tempo exato para pular fora e a percepção exata de uma situação que pode ser perigosa.

Sempre que penso na malícia lembro de uma história assustadora que escutei no México,  uma lenda sobre monges, a fantasia predileta do demônio, quando ele quer se aproximar de alguém se veste como um.

Existe uma parte na Cidade do México, Índios Verdes, que é conhecida por ser a favorita dos fantasmas e do demônio, principalmente seu hospital localizado ali, dizem que o demônio anda pelos corredores dos hospitais atrás de almas e quando não encontra vai para as ruas pedir dinheiro as pessoas, quando elas param percebem com quem estão falando, mas aí já é tarde e ele leva embora. Minha avó não cresceu nessa parte da cidade e mesmo assim conhecia a lenda, tanto que sempre disse as filhas e netas para jamais pararem ao serem chamadas por um monge na rua, dizia para correr e rezar um Pai-Nosso e que era melhor morrer na rua do que entrar no Hospital de Índios Verdes.

Em uma das histórias que o povo conta uma moça agonizava em um quarto, quando uma enfermeira viu o monge andando pelos corredores e se afastou, outra enfermeira viu e se aproximou, tentando proibir a entrada dele ao quarto da moça, então ele se virou, a moça viu quem era e ficou cega. Todo mundo conhece essa história porque foi recente, aconteceu nos anos oitenta, a moça deu entrevistas e depois sumiu no mundo.

E foram atrás da enfermeira que viu o monge e não se aproximou, queriam saber por que ela tinha evitado ele e a moça respondeu que sabia das lendas do hospital e olhou para o chão, ao olhar percebeu que debaixo da fantasia de monge dava para ver o rabo de largarto saindo pela bata, essa é parte da lenda, mesmo usando a bata comprida de monge o demônio não consegue esconder seu rabo comprido, por isso é só olhar para o chão que se pode ver o rabo arrastando. Ela percebeu quem era e se afastou.

Fez isso porque teve malícia, não foi ingênua como a outra de pensar que em uma fria madrugada um monge iria visitar doentes no hospital. Essa é a diferença entre a vida e a morte, a malícia para ler as situações e olhar para os lados procurando evidências do que está acontecendo.

E no caso da história do monge é mais do que malícia, é a necessidade de perceber o mundo que estamos. Um escritor mexicano teve sua namorada internada nesse hospital e contou sobre a presença constante do monge ali, ficava de madrugada dando voltas pelos corredores, mas ele nunca pensou que fosse o demônio procurando por almas. Só ficou sabendo anos depois, quando a enfermeira que o viu ficou cega.

São centenas de histórias sobre esse hospital e sobre monges que caminham pelas ruas da Cidade do México procurando almas para arrastar até o inferno. E tem gente que ainda é ingênua e pensa que tudo isso é ''lenda urbana''.

Não tenho nada contra  ingenuidade, mas não gosto dela perto de mim, já sofri demais com a minha. A maldade é essencial para entender o mundo e não sofrer tanto, quando somos capazes de ver ela de longe temos mais espaço para correr.

E talvez por isso jovens Romeus não me seduzem com tanta facilidade, ainda leio nos olhos de muitos uma certa pureza e confiança no mundo, coisa que me irrita profundamente.

Também gostaria de nunca ter descoberto as trevas do coração humano, penso com muita frequência que minha vida teria sido diferente se essa pessoa que me trouxe todo o mal nunca tivesse aparecido, mas imagino que eu tinha que crescer de um jeito ou de outro e no fim seria questão de tempo aprender, não dava para continuar vivendo do jeito que eu vivia, achando todo mundo fofo e cheio de amor. Em algum ponto da minha vida eu seria obrigada a conhecer o pior do ser humano, a entender aquela frase que diz que ''nem todos que parecem humanos são''.

Minha amiga garante que essa falta de malícia é a coisa que ela mais gosta nos seus jovens Romeus, mas ninguém é igual a ninguém e justo o que ela gosta eu não tolero.
Sei que as gerações vão mudando e ficam cada vez mais espertas, não posso comparar uma menina de quinze anos hoje com a menina que eu fui. A menina de hoje está séculos a frente de quem eu era, em todos os aspectos, mas nem sempre a malícia aparece.

Tem gente que diz que a pior coisa do mundo é perder a inocência e se dar conta do lixo que muitos carregam na alma, mas depois que passa o choque inicial tem suas vantagens, exatamente como essa enfermeira disse, ela apenas olhou para baixo, antes de se aproximar do monge. Não fez nada além disso, apenas olhou. Esse é o ponto que separa a ingenuidade da maldade, aquele momento que paramos e olhamos a situação antes de avançar. Mas só a malícia te lembra de agir assim.

Iara De Dupont

Um comentário:

Olhar Bipolar disse...

Nós mulheres amadurecemos muito rápido, principalmente após fortes decepções. Ás vezes parece que já vivi duas vidas ao verificar o estrago que minha ingenuidade causou em mim.

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