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29 setembro 2014

Parece loucura, mas é machismo



Se para algumas mulheres o feminismo não foi a solução, para mim foi a saída, a melhor de todas. Sem isso eu estaria perambulando em consultórios de psicólogos e psiquiatras até agora, tentando entender o meu ''jeito''.

Não tinha nada de errado comigo, era apenas o machismo me massacrando e convencendo que era inadequada, assim como faz com todas as mulheres, cerca elas e as convence que não tem a aparência adequada, não sabem o que dizer, nem se comportar, todas são umas ''inadequadas'' neste planeta de homens.
As mulheres mais rápidas percebem isso e conseguem sair pelas beiradas, eu fui das mais lentas, resisti, não sabia o estava acontecendo e a sensação de ser inadequada em tudo começou a me apertar cada vez mais e o mundo só faz uma leitura da mulher que não consegue se adequar, se limita a dizer que ela é maluca, louca, pirada.
Eu navegava nessas águas,  gente próxima dizia que eu era rebelde e difícil, na linha da loucura.

E foi só ao estudar o feminismo que entendi que tudo era um sistema direcionado a massacrar a todas, não era eu a louca, é o sistema que passa por cima das mulheres como um trator.

Contei uma história para um prima há anos, mas faz pouco tempo voltei a ela, já com uma nova perspectiva  entendi uma situação e o horror dela, não fui eu a ''maluca'', foi o outro lado.
Quando disse a minha prima que ia escrever um post sobre o assunto ela deu um pulo e disse:

-Você não tem limites! Escrever sobre isso pra quê? Você não adora história e monarquia? Poxa, escreve sobre isso e esquece a família!

Ah, mas eu não vivo na monarquia, então vou escrever o que sobre eles? Minhas experiências são o material que tenho e a o desconforto da minha prima me mostrou o caminho, tive certeza que era importante escrever sobre o que aconteceu.

Há uns anos fui com um dos meus tios comprar o bolo de aniversário da minha prima. Saindo do supermercado passamos por uma loja e na vitrine tinha um lindo vestido, gostei, fiquei olhando e meu tio resolveu comprar.

Meu guarda-roupa sempre foi uma coisa comentada na minha nobre e distinguida família. Quando era criança minha mãe não achava roupa do meu tamanho, porque eu era gorda, então comprava roupas de adolescente e como sou alta ficava parecendo que era mais velha. Na adolescência descobri a cor preta, aquela que dizem que emagrece e não largueis mais. Um tempo depois entrei no teatro e tinha que usar roupas confortáveis, assim achei os moletons e nunca mais tirei. Não tenho saias nem vestidos no meu armário. No começo eu usava a desculpa que não podia usar porque como tenho as coxas grossas elas encostam uma na outra e acabam ralando a pele, então se uso saia ou vestido tenho que usar uma bermuda por baixo e como não gosto disso prefiro não usar, fico melhor de calça.

Só depois de anos de estudar o feminismo entendi que  não usava vestidos e saias porque não eram confortáveis para mim, mas também tinha um fator que escondi durante muito tempo, não gosto do olhar libidinoso dos homens, isso é uma coisa que me causa um enorme desconforto e sensação de raiva.

Mas naquele dia fazia um calor terrível e o vestido era de algodão, eu vestia meu moletom escuro e pensei que seria bom usar uma roupa mais leve e meu tio comprou o vestido.

Cheguei de noite à festa da minha prima usando o vestido, me sentei em um canto com outras primas e estava ali conversando quando meu tio entrou na sala  e me viu. Ele sempre pegava no meu pé porque eu uso tênis, mas por preguiça de limpar sempre fugi de tênis de  ''menina'', aqueles rosas e brancos, sempre preferi os escuros e meu tio dizia que eu parecia ''sapatão'' por culpa dos tênis.
Ele me viu usando o vestido, se aproximou, pegou na minha mão e pediu que eu desse uma ''voltinha''. A sala estava cheia de familiares e amigos, me senti constrangida e recuei, disse que não ia dar ''voltinha'', que isso era uma bobagem sem tamanho.
Minha prima sentiu que eu ofendi seu pai e reagiu:

-Bem feito papai, foi comprar um vestido para essa grosseira e agora ficou com cara de palhaço! Todo mundo aqui sabe que ela é ''problemática''.

Resolvi sair da festa e ao chegar a rua comecei a chorar, me senti mal comigo mesma, não queria ser ingrata daquele jeito, meu tio era gentil e deixei ele com cara de idiota na frente de todo mundo.

Uma tia veio tentar me consolar e convencer a voltar a festa e disse:

-Ah, deixa disso e volta. Também já fui maluca como você na tua idade, é normal. Teus pais te deixaram muito solta e você é assim destrambelhada, mas sei que não é má pessoa.

Mas eu sentia que alguma coisa continuava errada e não voltei.

Durante um bom tempo contei  isso para os psicólogos que fui e algum deles me disse que eu não sabia receber amor, meu tio teve um gesto de delicadeza comigo e não soube receber.

Eu ficava atormentada com tudo isso, me consumia de dúvidas e ficava magoada com todas as críticas familiares dizendo que eu era ingrata, mal educada, grosseira, sem educação e maluca.

Depois do incidente do vestido chegou o Natal e ganhei um presente de um primo, mas ele brincando colocou em cima da mesa e disse a todos:

-Eu que não sou maluco de chegar perto dela! Vai que me deixa falando sozinho como fez com o tio!

E lá ia eu de novo chorar no banheiro, me sentia uma leprosa, infeliz, que não sabia nem amar a própria família.

Esqueci essa história até que um dia conheci um professor de filosofia, ele viu meu sobrenome e comentou que teve uma aluna com o mesmo sobrenome, conversando descobrimos que ele tinha dado aulas a minha prima. E de repente ele comentou:

-Mas que mundo pequeno!  Então você é a Iara, aquela prima contestadora?

Perguntei o que minha prima tinha dito e ele respondeu:

-Ah, um dia ela disse ''professor eu tenho uma prima que seria ótima política, adora discutir, mas não respeita nada sabe? Faz drama de tudo, sem educação, não agradece nem presente, mas é boa no verbo, se não fosse tão maluca seria uma ótima governadora!''.

Quando essa conversa aconteceu o tempo já tinha me afastado de algumas feridas, e o que pessoas da minha família diziam não me interessavam mais. 

Mas o professor percebeu que eu não tinha gostado e começou a me perguntar o que tinha acontecido, queria entender porque eu parecia ser uma pessoa diante dele e era tão diferente na visão da minha prima.

Contei a história do vestido, fui mal educada e baseados em atitudes assim minha família dizia que era ''louca''. Ele fez muitas perguntas em relação a essa história e fiquei com isso na cabeça, até hoje fico pensando que ele percebeu alguma coisa no que eu disse e ficou com vergonha de dizer, então deu um jeito para que eu concluísse sozinha o que tinha acontecido.

E deu certo porque de noite pensando no assunto entendi uma coisa que nunca tinha percebido, fiquei tão irritada com isso de ser chamada de ''maluca'' que abstrai o que realmente aconteceu naquela noite.

Quando voltei a cena percebi o que tinha me irritado tanto. Eu estava sentada quando meu tio chegou e me pediu para dar uma voltinha, foi uma fração de segundos, mas percebi o olhar libidinoso dele, esse tipo de olhar que um tio jamais deve dar a uma sobrinha. Na hora senti a energia, não sabia o que era e acabei reagindo de maneira agressiva.
Então quem era a louca? Eu que me afastei ou meu tio que olhou para meu corpo de maneira indevida?

Fui procurar uma professora de sociologia, com doutorado em feminismo e contei tudo a ela. Juntei situações que tinha passado e reagi de maneira estranha e as pessoas diziam que eu era ''pirada''. Percebi a violência que me rodeava, que cerca todas as mulheres. Até em situações que parecem normais, como uma que aconteceu comigo,  fui com meus pais jantar na casa de uns amigos deles. Um dos senhores ali me puxou para dançar, me deu uma discreta encoxada e me afastei, mas deu tempo de escutar alguém perguntando o que tinha acontecido e o velho nojento respondeu:

-Sei lá, tirei para dançar por educação, mas é chatinha essa viu!

Graças a essa professora consegui separar muitas coisas, entendi que não era louca e que o machismo trabalha duro para que todas as mulheres pensem assim caso não cedam aos homens. São homens que são pirados, loucos, malucos e agressivos. E não adianta dizer que existem mulheres ''piradas'', porque sei que existem, mas quantas agridem os homens sexualmente? Quantos homens foram encoxados por mulheres desconhecidas? E quantas mulheres têm o olhar libidinoso?

Não descarto a loucura em nenhum ser humano, mas se for uma mulher recomendo analisar a situação calmamente e se perguntar o que está acontecendo, porque pode ser machismo, aquela coisa que tem o poder de levar qualquer mulher à loucura. Eu achei que era ingrata, grosseira, mal educada, problemática, e tão maluca que não sabia nem agradecer um simples presente como um vestido. 

Mas naquela noite fui eu a agredida, o olhar do meu tio me deixou constrangida e envergonhada, o maluco da história foi ele. O machismo inverte a lógica e faz parecer que somos nós, mulheres, as que não sabemos nos comportar, mas são eles, os homens, que não respeitam nada, nem as sobrinhas.

Iara De Dupont

5 comentários:

Anônimo disse...

Já passei pela mesma coisa com avô,primo,tio.
Faz pouco tempo que eu parei de me culpar pelo que aconteceu.
E mesmo assim tenho recaidas e me sinto um lixo.

Anônimo disse...

Uma vez, a maior parte da família estava discutindo, tentando decidir onde iríamos comer. Eu estava ao lado da minha irmã quando meu tio olhou pra ela de um jeito... Cara, até hoje eu me lembro. Eu não tinha muito mais que 10 anos e minha irmã é mais nova que eu. Depois ele falou pra ela: "vamos sair daqui logo, só nós dois". Eu olhei pra ele com medo, peguei minha irmã pelo braço ou pela mão, não lembro e a tirei de perto dele. Foi assustador. Depois desse dia, nunca deixei minha irmã perto dele sozinha. Ela era inocente, eu só sobrevivi (a que preço?) porque nunca fui.

Anônimo disse...

As pessoas são programadas desde pequenas. Os adultos não viviam dizendo que não devíamos "responder aos mais velhos"? Na minha família nunca respeitavam um não meu quando eu era criança. Insistiam mil vezes e não me levavam a sério até eu finalmente gritar um NÃO bem alto, grosso e veemente. Então faziam cara feia e me chamavam de mal educada. Mas se eu quisesse algo e me dissessem não, ai de mim se eu insistisse. Se gritassem comigo e eu dissesse que eram mal educados por gritarem comigo, ai de mim de novo. Sem falar daquela estratégia covarde de fazer a criança se sentir culpada quando querem algo que ela não quer fazer. Não é por acaso. Esse é o treino que a sociedade dá às mulheres e crianças pra que elas se tornem as vítimas perfeitas. É o treino para que as vítimas se sintam culpadas, acreditem nas mentiras contadas a elas, não denunciem os predadores, não contem o que estão sofrendo em casa, de membros da própria família. Vamos surtar, ser malucas, rebeldes, mal educadas, porque isso pode salvar nossas vidas e mentes um dia.

anita psvone leite disse...

Eu nunca entendi porque meus pais me chamavam para servir café a uma visita, sempre um homem que não conhecia e da idade deles, quando criança...
Maneira machista de exibir uma filha...

Anônimo disse...

Bem, apesar dos testemunhos aqui mostrarem uma triste realidade, fiquei imensamente feliz, por que percebi que nao sou a unica! Aos 12 pra 13 anos, meu irmao mais velho 04 anos, que eu considerava meu heroi, tentou manter relacoes sexuais comigo, mas doeu e eu disse NÃO! e ameaçei contar para minha mãe, mas essa "tentativa" me deixou marcas tão profundas que, hoje, aos 42 anos, nunca tive um relacionamento com um homem, apenas dei alguns beijos, sem amassos, e atualmente faz 07 ou 08 anos que não beijo, ou abraço um homem, e ainda sou virgem ... nao por opção, mas pelo trauma, nunca mais confiei em um homem, e tios, amigos da familia, homns não entram em casa se eu estiver sozinha.Aos 25 anos contei para meus pais o que aconteceu e para tristeza minha, eles acreditaram, mas não levaram a sério, e como sempre fui muito independente, acreditaram que eu poderia me virar sozinha ... mas não deu, até ja me cortei uma vez, e já ouvi de familiares que imaginei isso, que na verdade tenho a mente muito fertil ... a culpa pelo que "eu" fiz me consumiu por anos, afinal a mulher é que provoca, não é isso que crescemos ouvindo? Muito triste, sinto falta de ter alguem, de confiar em algem de ser amada por alguem, mas não consigo confiar. Espero que um dia, não doa tanto lembrar...

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