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24 setembro 2014

O antifeminismo e as mortas



Quando era pequena minha avó me levou para conhecer sua irmã que vivia no campo. Era um lugar de extrema miséria, uma casa de madeira no meio do nada sem energia elétrica nem encanamento. Chegando lá nos ofereceram pamonha e um dos meus primos, também muito pequeno, por algum motivo não quis comer. Eu estava sentada ao lado dele quando minha avó se aproximou e disse no seu ouvido:

-Você fica quieto e coma o que te oferecerem. Para que esse milho chegasse ao teu prato muita gente morreu lutando por esta terra e pelo direito de plantar nela. Respeite os mortos e engula a comida.

Só quando cheguei na vida adulta entendi o que ela tinha dito. Sei pouco da história dela, mas a família lutou para se manter no campo, perdeu as terras, depois recuperou, viu o governo bater de novo e assim foi indo. Grande parte da tragédia que a humanidade vive se deve a guerras por terras, isso acontece em cada canto do planeta.

E nos últimos dias tenho recebido muitos links de um assunto que está pipocando nas redes sociais, o movimento antifeminista, o Woman Against Feminism (mulheres contra o feminismo).
Acredito na democracia e ela envolve o debate, todos os movimentos são legítimos, podem e devem ser questionados, o debate sempre vai ser necessário para a construção de uma sociedade melhor.

Porém, ao ler os links vi o uso excessivo da palavra ''religião''. Algumas mulheres que são contra o feminismo alegam que o movimento não respeita a religião. Como feminista posso responder que nesse caso é chumbo trocado, a religião também não respeita a mulher, então ficamos quites nessa parte.
Ao meu ver é impossível escrever ''religião e feminismo'' na mesma frase sem que vire um choque de trens. A religião tem sido utilizada para massacrar mulheres no mundo inteiro e tenho dificuldade em entender porque uma mulher não consegue perceber que não é bem vinda no setor religioso.

Entendo o conflito que existe na questão, eu mesma já assumi ser uma católica enrustida, gosto de missas e sermões, mas me vejo politicamente impossibilitada de participar da vida religiosa da comunidade porque não me sinto bem vinda como mulher. Demorei para entender, mas é possível separar as coisas, hoje sei que minhas opiniões são uma questão pessoal e não devem interferir no direito de todas, ao fazer essa divisão minha vida mudou para melhor, não sofro mais pelas minhas escolhas.

Tenho uma amiga que mora com seu namorado, ficou grávida e resolveu fazer um aborto. Se fosse eu, apaixonada e fico grávida, prefiro assumir a criança, essa seria minha escolha, mas a decisão da minha amiga é dela e tem o direito de fazer o que quiser. Essa é a linha que divide minha vida, eu não teria feito o aborto, mas defendo o direito da minha amiga de fazer o que quiser com seu corpo, a minha opinião de como eu ''supostamente'' reagiria  se estivesse no seu lugar não pode atropelar o direito dela.

É importante perceber que nossas opiniões ou decisões são uma questão de foro íntimo e jamais devem interferir no direito do outro, não podemos atropelar o direito de todos usando nossas crenças e valores. Eu não como açúcar e nem por isso me acho no direito de sair processando a indústria e exigindo que o mundo deixe de consumir, é direito de todos comerem o que quiserem.

Não tenho nada contra mulheres religiosas, desde que isso não interfira no reconhecimento dos meus direitos. E também vejo a religião como opcional, uma coisa é ser uma adulta e escolher seu caminho religioso, outra é ser uma criança obrigada a viver de acordo a regras religiosas medievais.

Não vi no movimento contra o feminismo nenhum contéudo que possa acrescentar alguma coisa, mas Deus me livre e guarde de brigar ou discutir com pessoas ligadas a ele e digo pessoas porque as mulheres que fazem parte desse movimento podem não saber, mas os machistas agradecem o que elas estão fazendo e com certeza prestam todo seu apoio, principalmente aqueles que mataram suas namoradas e estão livres, os estupradores, todos eles sabem que são as feministas que lutam por justiça e para acabar com  toda a violência contra a mulher e quando aparece um movimento contra o feminismo eles sabem que contam com aliadas para continuar impunes.

Há muito tempo que o feminismo deixou de ser para mim apenas um movimento político que busca a igualdade, vejo ele como um movimento de gratidão as mulheres que morreram para que eu pudesse viver. Hoje no conforto do sofá e com o computador ligado é fácil para muitas esquecer, mas eu sempre tive claro o respeito pelos mortos. Centenas de mulheres foram presas apenas porque escreviam, isoladas em conventos, masmorras, torturadas e mortas. E não falo apenas do começo da história, mas de tantas que estavam presas nos porões da ditadura sendo torturadas porque eram jornalistas e escritoras. E tudo isso acontecia enquanto eu nascia, muitos podem dizer que a tortura na época da ditadura não era uma questão de machismo, mas quem conhece a história sabe o que aconteceu naqueles porões, as mulheres eram punidas em dobro e escutavam de militares que ''se prestassem teriam ficado em casa em vez de escrever merda''.

Eu escrevo o que quero, mas não nasci com esse direito, foi porque centenas de mulheres conquistaram ele que tive acesso. Minhas avós eram semi-analfabetas, só sabiam ler e escrever seu nome, porque naquele tempo meninas não podiam ir à escola. Uma geração depois as coisas mudaram, mas o opressor não bateu a porta e se desculpou, mulheres tiveram que sair as ruas e brigar pelo direito a educação e ao voto.

Vivo no conforto da modernidade e me parece simples esquecer todas as mortas que passaram pelo mundo para que eu tivesse uma vida melhor e mais produtiva.
Se todas essas anti-feministas esqueceram disso tudo bem por elas, cada um segue a vida do seu jeito, não critico o movimento e reconheço sua existência, se o feminismo não foi a resposta para a vida delas estão certas de procurar outra saída. E se querem encher a internet de frases como ''não sou vitíma do patriarcado'' é uma escolha dizer isso, mas que não se esqueçam que não nasceram com esse direito, ele foi conquistado, o patriarcado não deu voz a elas.

Eu seria mais feliz se morasse na Suécia, pelo menos não teria que lidar com tantas questões sociais e no caso das antifeministas talvez elas seriam mais felizes no Oriente Médio, onde seu discurso de antifeminismo está de acordo ao pensamento do lugar. Se as feministas aqui no Brasil são radicais, e as perseguem por pensar diferente, no Oriente Médio o feminismo nem existe, com certeza elas vão ser bem recebidas por lá.
E sempre disse a mesma coisa, a alma humana não me surpreende mais, já escutei pessoas defendendo um casal que matou o própio filho, por que então iria me  surpreender com algumas mulheres que vivem em uma cidade como São Paulo e garantem que não são vítimas do patriarcado? Me perguntei se elas já usaram um transporte público na hora do pico em direção a periferia, se elas podem usar a roupa que quiserem, se nunca sofreram nenhum tipo de violência e se todas suas escolhas foram respeitadas, se ganham o mesmo que seus colegas homens, se não foram sobrecarregadas pela dupla jornada, se nunca foram agredidas em consultas e procedimentos médicos, se nunca foram humilhadas e constrangidas por cantadas, se nunca sentiram a pressão social de ter que ceder, se podem sair as ruas durante a noite tranquilas e seguras e tantas outras coisas.... Mas se elas podem olhar essas frases e ainda assim me dizer  ''eu não sei do que você está falando'', tudo bem, acontece, sorte delas, fico feliz de pensar que pelo menos um grupo de mulheres neste mundo passou impune a tantas agressões, ainda bem que pelo menos elas se salvaram.

Já eu sou muito grata ao feminismo por ter me libertado e tenho consciência de que escrevo em cima de túmulos e devo minha suposta liberdade a tantas que morreram por isso. Minhas palavras, meus textos, são cheios de sombras de quem um dia passou aqui antes de mim e cobertos de terra, aquela que tanto se levantou durante as guerras. Escrevo pelas mulheres que se foram e pelas que vão chegar. Conto todas as histórias que minhas avós não puderam escrever porque não tiveram direito de ir a escola. As palavras que hoje coloco aqui foram conquistadas por muitas. E meu feminismo não é apenas a luta pela igualdade, mas o respeito pelas mortas. Quem quiser pisar nos túmulos que pise, mas eu não farei isso, estou aqui apenas porque elas morreram antes para garantir minha vida e a pouca liberdade que tenho. E minha avó tem razão, devemos respeito aos mortos.

Iara De Dupont


7 comentários:

C.Belo disse...

Não sabia da existência desse movimento em específico, mas não me surpreende, pois já vi diversas vezes mulheres com este tipo de discurso, querendo diminuir e minimizar os efeitos negativos do machismo na nossa sociedade, colocando-o como "coisa do passado".

O que tenho a dizer sobre elas? Que se fodam e esperem até receberem o primeiro tapa na cara de seus machos, que certamente terão "respaldo" na Bíblia que elas próprias tanto defendem!

Eu costumo dizer que a religião nunca é o problema, o problema são as pessoas, pq quem procura acha. Na hora de analisar o versículo que diz "Dai a Cesar o que é de Cesar, e dai a Deus o que é de Deus" ninguém faz! Saber separar religião de política tem sido um grande problema dos dias atuais e isso não é culpa da religião, e sim das pessoas hipócritas que querem uma justificativa para se meter na vida e nos direitos dos outros.

Anônimo disse...

Sou a favor do feminismo, mas totalmente contra o aborto.
1- Dizem que "o corpo é da mulher". Ok, mas o corpo do bebê? Não é dela. Portanto, ela não tem o direito de destruir o feto.
2- Com tantos métodos anticoncepcionais (alguns gratuitos, basta ir no posto de saúde), só engravida se quiser, ou se for estuprada (para esses casos, o aborto é permitido).
3- Se mesmo assim engravidou e não quer ter o filho, pq não dar para a adoção? Tem tantos casais na fila esperando um filho! Muito mais digno doar o bebê do que matar um ser inocente.
É a minha opinião.

Anônimo disse...

Existem aquelas feministas de conveniência.
Feminista que quer que homem pague a conta, tenha carro e nem ajuda a pagar a gasolina, nem racha as contas
Uma das coisas da igualdade é: Ninguém te deve nada, só que tem feminista que acha que só tem que ter deveres e os homens devem ter reforços das suas obrigações.

Assim a conta não vai fechar s

Suzana Neves disse...

Acho que o feminismo é bem mais do que abrir uma porta ou pagar uma conta de restaurante é ter liberdade de escolha
Se um homem paga ou não suas contas isso faz parte do relacionamento
E não é por isso

Anônimo disse...

Mas abrir mão dos direitos que as feministas conquistaram pra essas moças em troca das próprias vidas as bonitas não querem, né? Digam a essas mocinhas que elas vão perder o direito de voto, não poderão mais trabalhar fora, não poderão escolher com quem casar, nem poderão estudar, e vamos ver se elas continuam apoiando esse movimento anti-feminismo.

Anônimo contra o aborto: você é contra o aborto? Não faça um. Mas se a sua vizinha, amiga, irmã, mãe quiser fazer um, você não tem o direito de impedi-la de fazer isso. Entende a diferença?

Métodos contraceptivos: eles falham. E muitas mulheres não sabem usar direito, o que aumenta a possibilidade de falha, pq os conservadores não permitem educação sexual nas escolas. Acham que isso "estimula" (como se as pessoas não fossem transar mesmo sem saber como se prevenir). Ah, e não esqueça que homens não fazem sua parte, não usam camisinha e exigem que a mulher não use também. Ou seja, nada dessa "só engravida quem quer". É lorota de conservador.

Por fim, o "dar pra adoção e partir": colega, isso não existe no Brasil. Se uma grávida chegar no juizado e disser que quer dar pra adoção, a assistente social vai pressionar a mulher pra ela mudar de ideia, inclusive ameaçando com processo e cadeia. Se a mulher não ceder, ela vai procurar o resto da família pra COAGIR (isso mesmo, coagir) alguém da família a ficar com a criança. E fará isso mesmo se a mãe não puder cuidar. E se a mãe doar o bebê por baixo dos panos, fora dos trâmites oficais (adoção à brasileira) dá cadeia, e a pena é até maior do que a de aborto. Lamento furar sua bolhinha de fantasia feliz, mas a vida real é dura assim mesmo, colega. Aceita que dói menos.

Ah, e é claro que se você for homem, sua opinião é totalmente irrelevante. No uterus, no word (sem útero, sem pitaco). Se você não engravida, você não decide sobre aborto ou não aborto de ninguém. Simples assim.

Anônimo disse...

"Mas abrir mão dos direitos que as feministas conquistaram pra essas moças em troca das próprias vidas as bonitas não querem, né? Digam a essas mocinhas que elas vão perder o direito de voto, não poderão mais trabalhar fora, não poderão escolher com quem casar, nem poderão estudar, e vamos ver se elas continuam apoiando esse movimento anti-feminismo. " Li isso no comentário acima e fiquei pensando...não é isso que as marias chuteiras fazem? não moram no Brasil, não se preocupam com eleições, não trabalham fora, pq o boleiro paga as contas, nao escolheram com quem casar pois qualquer um rico serviria, não estudam porque dá trabalho...Há mulheres e MULHERES...

Anônimo disse...

Anônimo das marias-chuteiras, elas ESCOLHERAM isso. Assim como outras mulheres escolheram estudar, trabalhar, se preocupar com a política do país, decidem se querem casar ou não e, se querem, escolhem elas mesmas com quem. O problema é que sem o feminismo TODAS as mulheres seriam OBRIGADAS a fazer como as marias-chuteiras, mesmo se não quisessem. Então que tal vocês machistas chatos pararem de desqualificar as lutas femininas porque algumas mulheres escolheram esse jeito antigo de viver, hein? Eu sei que o que vocês querem mesmo é que o mundo volte pro séc. XIX e as mulheres percam todo o poder de escolha, mas agora é tarde, mané. Te junta com uma boneca inflável e deixa as mulheres de verdade em paz.

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