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18 setembro 2014

Fátima Bernardes: teu silêncio não te salvou

FÁTIMA BERNARDES, VINTE ANOS DE CARREIRA PARA MENCIONAREM TUAS MEDIDAS?



Se a vida fosse um videogame adoraria colocar fogo nas bancas de jornal de vez em quando. Ficaria feliz de disparar contra todas aquelas capas de revistas estúpidas e machistas.

Esta semana Fátima Bernardes saiu na capa da revista Caras. É  normal, ela faz parte do sistema e sempre aparece nas capas que pertencem ao grupo Globo, o qual ela trabalha.
O que me deixou irritada foi o que está escrito na capa, as medidas dela são mencionadas, a altura, peso e idade.
Até onde sei Fátima é jornalista, jamais se expôs de maneira vulgar, não apareceu nua em nenhuma revista e tem sido uma forte aliada do patriarcado, se casou, teve filhos, manteve sua branquice, não se mete em política, não se envolve com os direitos da mulher, tem sido um grande exemplo da mulher anulada pelo machismo, jamais deu nenhuma opinião que incomodasse os homens, foge de assuntos polêmicos, mantém o sorriso no rosto e jamais enfrentou nem desafiou a opinião masculina, é de uma neutralidade assustadora para quem é jornalista.

E mesmo assim foi destratada e desrespeitada, colocaram suas medidas na capa da revista como se fosse um pedaço de carne à venda, deixando claro que o mais importante que ela pode ter para dizer é sua rotina de beleza e como mantém seu peso, apesar da idade.

Isso comprova minha teoria de que não importa o lado que a mulher escolhe, pode protestar contra o machismo ou pode ser uma aliada do patriarcado, na hora de ser julgada sempre vai ser colocada como um pedaço de carne que tem que se manter dentro das medidas exigidas pelo ''mercado'' e seus ''consumidores masculinos''.

E sabe o que Fátima vai fazer em relação a essa capa? Nada. Vai ficar quieta, ela trabalha na empresa, ganha milhões, Deus livre e guarde de reagir ao machismo no qual ela foi enquadrada. Pode até sorrir em alguma entrevista e dizer que ''amou'' a capa, que se sente maravilhosa de estar em ótima forma, mas é impossível ignorar como essa capa é asquerosa e sexista, nunca vi em nenhuma parte do mundo uma jornalista com mais de vinte anos de carreira ser tratada como um pedaço de carne, na capa como se fosse um objeto sexual e ver suas medidas colocadas ali como se estivesse à venda.

Não adianta se mexer neste mundo em silêncio, todas as mulheres são tratadas da mesma forma, é a democratização do machismo, não existe diferença entre uma mulher que tira a roupa para uma revista e uma que trabalha discretamente como jornalista, os homens enxergam todas nuas e passam o tempo calculando medidas do corpo feminino. E ainda vieram me dizer que essa revista Caras tem uma equipe onde a maioria são gays, se isso for verdade então o mundo já era, porque se tanto machismo aparece no meio dos gays nós mulheres estamos perdidas.

Quando Fátima recebeu essa reportagem já sabia o que ia dizer, o foco seria como consegue manter a boa forma, mas a revista não menciona que com a renda mensal dela é fácil manter a boa aparência de uma cidade inteira. 

E sabe porque aquilo foi colocado na capa? Porque as mulheres não reagem e o patriarcado sabe disso, conhece os caminhos da vaidade que ele mesmo incentiva nas mulheres e sabe que mexendo nesses fios nenhuma mulher reclama. Caso Fátima não soubesse sobre o que seria colocado na capa, pode ter sido má fé do repórter que usou um assunto paralelo, perguntou alguma coisa sem maior interesse e deu essa capa, mas se isso fosse verdade e Fátima ignorava o que ia ser dito ela tem o poder suficiente para pegar o telefone e pedir a cabeça em vinagre do repórter e do editor da revista, na verdade se quiser coloca todos na rua e fecha a revista. 

Mas Fátima não vai reagir e o machismo sabe disso. Já foi dito milhões de vezes, o opressor precisa do apoio do oprimido para se manter, o machismo sabe que a vaidade é o ponto fraco de algumas mulheres doutrinadas no patriarcado, a vontade de algumas de serem desejadas facilita a humilhação que o machismo faz questão de exercer na mulher.

No interior da revista Fátima fala que usa botox e admira seu marido mesmo depois de vinte e cinco anos de casamento. Ora, vamos ser realistas, quem se importa com isso? Não faz a menor diferença no mundo de hoje ter ou não um casamento de longa duração, tudo isso é tedioso e questionável, não é mérito para nenhuma mulher se manter ao lado do mesmo homem por uma eternidade, não é qualidade nem vitória, é apenas uma decisão pessoal que não interessa a ninguém.

Fátima foi movida pela vaidade, aquela que o machismo sabe que as mulheres podem escorregar, mesmo depois de anos de carreira o mais importante é se sentir desejada. Parece mais importante chegar ao topo e dizer ''sou desejada'' do que conquistar como jornalista grandes matérias ou furos de reportagem. E prêmios jornalísticos? Quem se importa com eles se o peso está certo e as medidas são exatas? Ela investe em profissionais de beleza, tem até personal trainer, para que teria aulas de algum idioma ou cultura? São aulas chatas e não trazem resultados visíveis, por isso ela prefere colocar botox, porque dá para ver como o rosto permanece igual, mas se quiser aprender alemão não vai fazer nenhuma diferença na capa de Caras.

Não digo nada quando vejo essas capas com musas do carnaval, mas ver uma jornalista séria colocada no mesmo patamar que mulheres que vivem de exibir o corpo me deprime, mesmo sabendo que Fátima deve ter adorado as fotos.

Mas queria agradecer muito essa capa porque me trouxe um grande consolo, mudou minha vida e meus rumos. De vez em quando no meio da madrugada penso em mudar de equipe, desesperada e apertada pelo opressor cheguei a pensar que se jogasse do lado do patriarcado eu poderia conquistar alguma coisa na vida, pensei essa barbaridade cansada de tantas agressões do machismo, mas ao ver a capa da Fátima percebi que não existe salvação para as mulheres, não importa o lado, somos todas carne moída. Nosso discurso não nos deixa imunes, não faz diferença se a mulher é machista como Fátima ou feminista como eu, no fim das contas somos vistas da mesma maneira. É claro que pensar que Fátima não é aliada da causa me dá um pouco de tristeza, mas ela fez  sua escolha e deve ter seus motivos, não posso criticar, respeito sua trajetória e seriedade, mas um dia ela vai perceber que não adiantou ficar quieta e fazer tudo o que mandaram fazer, mesmo assim no último segundo foi tratada como todas sem distinção.

Neste mundo machista e misógino todas as mulheres que lutam contra ou a favor usam o mesmo uniforme de prisioneiras, nada pode nos diferenciar em um planeta que odeia o genêro feminino. Talvez o número do uniforme seja a única diferença entre nós.

Iara De Dupont


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