ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

18 agosto 2014

Parece covardia, mas é coragem


Pela primeira vez em anos recebi um e-mail teu com uma frase que não gostei: ''Você me deve um pedido de desculpas''.


No primeiro segundo depois de ler isso pensei que você tinha razão, mas com calma percebi que não te devo desculpas, nem a mim mesma devo isso.

Os bastidores do que aconteceu só eu sei. O que senti, segurei, calei, desviei, tentei esquecer, ninguém sabe.

Desde tua primeira ligação dizendo que vinha a São Paulo durante a Copa do mundo mantive minha palavra, seria um grande prazer te ver depois de tantos anos e minha casa estava aberta. Naquele momento senti isso e durante semanas também.

Mas depois que você chegou tivemos uma ligação rápida, suficiente para que eu mudasse os ventos do barco e decidi não falar mais com você.

De longe pode ter parecido uma loucura, coisa de gente volúvel, mas de perto quis apenas te proteger.

Dois dias antes de você chegar meu pai morreu. Nas ligações anteriores eu era uma pessoa equilibrada, no meu centro, às vezes de um lado, às vezes de outro, nem sempre alegre, nem sempre melancólica. Mas depois que meu pai morreu me senti diferente, minha noção de tempo mudou, comecei a entender o que significa ''nunca mais''.

E você me ligou na manhã que ele ainda estava no hospital. Quando escutei tua voz percebi que não poderia me segurar, ainda menti quando você me perguntou sobre meu pai, me disse que gostaria muito de conversar com ele e eu prometi esse encontro. Naqueles minutos pensei em tudo que você sabe de mim e o que já vivemos juntos. Lembrei das coisas ditas, dos momentos perfeitos e da minha eterna sensação de ainda acreditar que você é o amor da minha vida. Nunca precisei tanto de você como naquela manhã, mas fui forte e me segurei.

Tenho anos quieta em relação a um assunto que você nunca ficou sabendo. Eu aceitei em silêncio o fim do namoro, mas duas amigas sabem o que eu sofri e resolvi calar. Te vi namorando com outras, aceitei tua amizade, fui madrinha do teu casamento e levei presentes no aniversário do teu filho. Mas no meu silêncio sempre me perguntei porque não tínhamos ficado juntos, que força tinha sido essa que te separou de mim.

Quando combinei de te encontrar em São Paulo ainda me sentia forte, sabia que poderia desviar e segurar minha vontade louca de te dizer tudo, mesmo que isso não levasse a nada. Mas naqueles dias depois da morte do meu pai eu tinha certeza que minhas forças tinham chegado ao fim, eu ia acabar te dizendo o que sentia, ainda mergulhada na dor e na revolta.

Parece covardia, mas é coragem. Precisa de muito sangue frio e controle para renunciar a quem nos faz feliz, vai além da coragem, é quase um gesto de bravura diante da vida. Que fácil seria em um momento de desespero correr para teus braços e chorar, te contar tudo o que deu errado na minha vida desde a última vez que eu te vi. Que simples teria sido balançar tuas escolhas e mexer com sentimentos, subir no teu quarto de hotel e me enroscar nas tuas pernas.

Te conheço e me conheço. Sei bem das conversas que tivemos e do acordo de cavalheiros depois do teu casamento, aquele das duas partes, tanto eu como você, de mantermos distância física, porque sabíamos que podíamos lidar bem com o fim do namoro mentalmente e sentimentalmente, mas a pele sempre reagia e isso muitas vezes nos causou problemas.

Eu podia ter me aproveitado de tudo isso, usando minha fragilidade no momento, mas ainda assim lutei para te preservar.
Sei que os e-mails que não respondi e as ligações que não atendi te deixaram puto e sem entender nada. Mas quantas vezes em quase vinte anos eu te falhei? Nunca. Quantas vezes menti? Nunca. Quantas vezes fugi de você? Nunca.

Você acha que foi fácil? Nunca fui tão corajosa, tão forte. Qualquer pessoa teria se derrubado nos teus braços, mas eu resisti de pé, você foi embora sem saber o turbilhão que acontecia na minha vida. Meu amor cobriu tua passagem, te protegeu.

E dessa vez eu não tive escolha. Tua voz naquela manhã me atormentou, foi difícil mentir e dizer que tudo estava bem, até lembro você me dizendo que eu sempre acordo com péssimo humor e minha voz estranha devia ser isso. Eu te escutava e parecia que estava vivendo tudo de novo, você parecia perto e tão distante.

Não te devo desculpas pelo meu sumiço. Talvez a vida me deva desculpas por você não ter ficado comigo.

Sei que não te devo nada porque eu só quis te proteger, se tivesse pensado em mim teria invadido teu quarto de hotel e ficaria ali durante dias chorando no teu colo.

Em algum momento de madrugada eu me arrependo dessa decisão. Foi meu maldito orgulho indígena, talvez o melhor teria sido ter dito o que estava acontecendo e te pedir apoio, aquele que você nunca me negou. Duvido de muitas coisas na minha vida, mas tenho plena certeza do carinho que você sente por mim. Você foi o único que me  ajudou em um momento que afundei e não esqueço disso.

Mas achei que eu podia explodir e te contar tudo o que calei durante anos e perder tua amizade. É bobo, quase infantil pensar assim, mas na hora não tive opção. Eu tinha perdido meu pai, como ia perder você?

Às vezes sonho que sou adulta e posso sentar com você na mesa e dar risada de tudo o que pensei ou senti, mas ainda não consigo fazer isso. Teu amor cristalizou na minha alma, congelou minha mente e para mim ainda é território sagrado.

E quanto tempo vai se passar até um dia eu poder te dizer tudo isso e talvez me libertar? Não sei. Só sei da vontade louca que tenho de te mandar um e-mail dizendo ''Meu silêncio é amor e minha covardia é coragem''.

Iara De Dupont


Nenhum comentário:

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...