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14 julho 2014

Minha porta está aberta


Blog não me parece o lugar adequado para recados. Mas ainda lembro daquele dia que nos vimos na rua e você me disse ''adoro teu blog''. Fico então na esperança que você passe por aqui e leia com calma tudo, uma vez, duas, três, as que precisar.

Não é fácil para mim, tanto que eu poderia simplificar e descer os andares que separam minha casa da tua, mas o que faria depois? Bato na tua porta e digo o que penso? Existe alguma coisa que eu possa dizer que mude a situação?

Hoje eu não tinha vontade de sair, mas o vício pelo chocolate me fez sair e te encontrar no elevador foi a coisa mais constrangedora que já me aconteceu nos últimos anos. Ver teu rosto sempre tão risonho, bonito, machucado daquele jeito, me deu uma sensação muito ruim. É chato perguntar, mas me senti na obrigação e fiquei envergonhada quando você me disse que foi uma cotovelada de um torcedor enquanto você assistia o jogo.

Quando entro para tomar banho de vez em quando escuto teus gritos pela janela. A primeira vez chamei a polícia, mas nas outras percebi que aquela vizinha aposentada é mais rápida do que eu e chama antes.

Não sei da onde você vem nem pra onde vai. Sei apenas o que vejo, uma menina linda, com menos de trinta anos, uma profissão, um rosto meigo e um cabelo brilhante, que nos últimos tempos parece estar levando muitos tombos na escada ou batendo na porta do banheiro.

Lembro do dia que você me viu entrando no prédio e se ofereceu para me ajudar com as bolsas, se apresentou dizendo ser minha nova vizinha. Te achei uma graça, extrovertida e logo percebi que você não era paulista, não tinha a marra que todos aqui temos.

Também teve aquele dia que a gente se encontrou em uma loja aqui perto antes da Páscoa e acabamos falando de chocolates e você disse que já tinha recebido seu presente de Páscoa, tinha conhecido ''o cara''. Vi ele lavando o carro e te dei razão, tem um corpo lindo e é muito simpático. Mas isso durou até a primeira vez que escutei teus gritos pedindo ajuda.

Dias depois o encontrei no corredor e me comentou que eu era ''grandona'' e perguntou minha altura. Respondi que ser ''grandona'' tem suas vantagens, não apanho de homem. Ele ficou transparente, gelado. Ainda disse a ele que não conheço nada mais covarde no mundo do que bater em mulher e ainda por cima pequena. Ele foi embora me olhando feio, mas nem dei bola. O outro dia viu que eu estava chegando e fechou rápido a porta do elevador.

Contei isso para minha mãe e ela ficou nervosa, com medo de que ele ficasse bravo pelo meu comentário e descontasse em você.

Um dia eu estava conversando com aquela vizinha que é muito tua amiga e vimos quando você descia a rua com ele te puxando pelo braço. Eu não soube o que dizer, mas a vizinha disse ''putz, que merda''. Foi tão constrangedor para as duas que eu não soube o que responder.

Já gastei muitas noites pensando porque você vive desse jeito, porque permite que isso aconteça. Se pudesse se ver no espelho como eu te vejo jamais passaria por uma situação assim. Você é jovem, linda, tem um futuro inteiro pela frente e é amável com todos e a vida, por que aceitar esse tratamento?

E antes de te ver hoje com o rosto todo machucado encontrei com teu namorado ontem, estava na rua, colocando umas caixas fora do carro. Eu passei, mas não disse nada, mesmo assim ele me cumprimentou dizendo:

-Bom jogo pra você vizinha!

Eu virei pra ele e respondi:

-Vizinha? Poxa, esse prédio já foi melhor frequentado!

-Agora somos vizinhos, estou me mudando pra cá.

-É sério?

-É. Vamos combinar e leva teu namorado lá em casa pra comer uma pizza com a gente!

-Não, obrigado, e não tenho namorado.

-Ah, então é por isso que você é uma invejosa e fica secando o namorado das outras né?

-É, acertou, é isso mesmo.

-Comigo não vai dar certo viu? Pode secar à vontade, prefiro me jogar na frente de um trem do que ficar com uma mulher como você.

-Ah, mas isso não ia dar mesmo né? Covardes preferem mulheres pequenas.

Vi que a discussão ia esquentar e preferi entrar no prédio. Se minha mãe souber que discuti com ele vai ficar louca da vida, vai dizer que estou ''arriscando'', que com louco a gente não fala. Tá vendo como a coisa se alastra? Eu fico constrangida de falar com você e com medo de cruzar com esse maluco pelo corredor do prédio.

E como assim ele se mudou para teu apartamento? Até onde você vai levar isso? Ele pode te matar! Se já é capaz de fazer horrores em um fim de semana imagine a semana inteira!

Era isso que eu queria te dizer, quando uma apanha, todas apanham. A vizinha que é tua amiga ficou sem saber o que dizer, minha mãe tem medo que eu fale com teu namorado, a aposentada se assusta com teus gritos e chama a polícia e eu fico constrangida quando te encontro toda machucada. Isso é uma surra que um homem dá em uma mulher e se estende por várias. Somos muitas em um prédio que se sentem constrangidas e assustadas, sem saber o que fazer.

Meu coração ficou quebrado hoje ao ver teu rosto tão lindo machucado. Pensei na tua mãe, no inferno que ela deve passar ao ver a filha desse jeito. Adianta eu bater na tua porta e te lembrar que você é um doce de mulher e merece uma vida sem violência? O que eu posso fazer para que você possa perceber que apanhar de namorado não é normal?

Espero que termine logo com esse namoro, o tempo já está em contra de você, se não acabar antes teu namorado pode fazer besteira.

Estatística não é lugar para você, existem coisas melhores te esperando. Mas teu sofrimento não é solitário, quando você sofre todas sofremos junto. É isso que me atormenta tanto, ver e escutar tua dor e perceber como ela se espalha.

Somos todas parte de uma, dividida em mil pedaços, quando um lado se quebra os outros racham. Mas depende de você avaliar a situação e perceber que não pertence a ela. A minha porta está aberta, não precisa bater, se um dia precisar pode entrar e ter certeza que não vou te dizer nada, nem condenar, me sinto  tão constrangida quanto você. 


Te conheci antes de começar o namoro com esse animal e queria te ver de novo como via naqueles dias, uma menina linda, cheia de vida, engraçada e doce, não essa garota que abaixa a cabeça e tenta esconder o rosto com o cabelo. Essa não é você. Por favor, perceba isso enquanto ainda é tempo.

Iara De Dupont

3 comentários:

Anônimo disse...

Que situação, Iara... Entendo perfeitamente quando você diz que isso afeta a vida das pessoas à volta, pois vivi uma situação parecida não faz muito tempo (de ter uma pessoa próxima que sofre agressões). É uma sensação horrível saber o que acontece e não poder fazer nada. Tomara que a sua vizinha crie coragem e tome alguma atitude, porque ela se colocou nesse relacionamento e por mais difícil que seja, SÓ ELA pode sair dessa.

Bjs,
Sylvia

C.Belo disse...

CARALHOOOOOO!!!!

Mas que merda hein? Sinceramente, não dá pra entender pq uma mulher se submete a isso!!!! Não dá!!!

Nem tenho o que comentar!

Sheila disse...

Saia dessa vizinha! Antes só do que com um cara que não te respeita! Busque ajuda, suma daí. Sua vida é mais importante que tudo!

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