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27 julho 2014

Porque não estou na televisão



Durante um bom tempo fui teimosa e persistente. Já me disseram que eram qualidades, mas no meu caso foi a porta para um sofrimento imenso, porque muitas vezes eu empacava na situação e não me mexia mais.

Depois de um tempo comecei a analisar muitas coisas, não sei se foi a idade, mas comecei a ser vencida pelo cansaço, hoje fujo de alguma situações porque me cansam, não tenho mais energia para lidar com elas. Se o cansaço não me vencesse talvez eu continuaria insistindo, presa a uma ideia.

Uma amiga me mandou um e-mail, falando sobre uma dieta bem legal que está fazendo. Anos atrás eu teria corrido atrás da informação e teria pelo menos tentado a dieta, mas esses dias agora são passado. Finalmente entendi que meu passado não me define e não pode ser usado como presente, o que fiz de errado está lá trás, não guia mais meus passos.

Tive que aceitar meu peso assim como aceitei muitas coisas nesta vida. Ao contrário do que muitos pensam os gordinhos se cuidam, eu vigio meu peso, não posso sair comendo como maluca, se não quebro a barreira de novo e isso me faz mal. Sei por experiência que não posso encostar nos cem quilos, já cheguei a pesar cento e quinze quilos e me fez mal fisicamente, aprendi que meu limite é jamais entrar nos três dígitos, mas isso me custa uma vigilância constante. Fora esse cuidado não tenho mais condições físicas nem emocionais de ir além, não tenho mais como cortar carboidratos e me matar horas malhando.

Demorei para perceber que ao me aceitar eu teria a famosa paz de espírito, porque minha alma já estava exausta das minhas viagens mentais para emagrecer.

Mas nem por isso foi fácil, fui pressionada por agências de atores e pessoas do ramo da televisão para emagrecer, caso conseguisse teria as portas do céu abertas, caso não elas se fechariam. Um diretor me disse uma vez que se eu não emagrecesse poderia esquecer qualquer possibilidade de trabalhar em televisão.

Tive tudo isso em mente quando resolvi largar esse sofrimento de tentar ser o que não era. Mas não fiz por ser uma pessoa sábia, fui levada ao limite, sempre tive um problema sério de tiroide e fui enrolando, de vez em quando tentava consertar, mas de repente ela acelerou e eu estava fazendo uma dieta, mesmo me sentindo mal continuei, emagreci muito. Um dia tive dores e fui para o hospital, foi coisa de Deus, porque se eu não tivesse ido naquele dia não teria como perceber a gravidade do que estava acontecendo.

Fiquei em uma sala tomando soro com remédios, já mais tranquila depois do susto e tinha uma televisão ligada e estava passando uma novela. Foi a primeira vez em anos que tive que encarar uma situação, eu tinha acelerado o emagrecimento e não tinha um objetivo nobre, sabia de uns testes para novelas e tinha me proposto ir a eles com quarenta quilos menos. Pensei na minha vida, em tudo o que tinha feito, eu já estava sensível, deprimida e com dor, não precisei de muito para entender que aquilo ali era fim de linha. O parava de viver daquele jeito ou meu corpo pararia.

Cheguei a conclusão que se tivesse a oportunidade de um dia fazer o que gosto seria do jeito que sou, às vezes gordinha, às vezes menos gordinha. Não podia mais brincar com minha saúde e não tinha mais tempo para perder. E não tenho como chegar a um padrão que não é o meu, nunca vou ser uma mulher esquelética.

Como tudo aquilo me causava muita frustração e ódio acabei procurando ajuda espiritual, porque eu me odiava por não ser magra, tinha raiva de ter que trabalhar em outra coisa que não gostava porque não perdia peso e também sempre tive diretores de elenco que me diziam para ligar assim que estivesse magra, isso me atormentava porque parecia que a vida poderia ser fácil, desde que eu emagrecesse.

Com um pouco de orientação espiritual entendi que minha vida está nas mãos de Deus, é ele que decide, se um dia ele quiser vai resolver essa parte da minha vida profissional, caso contrário se o caminho é outro também é decisão dele.

Mas tudo isso tem sido um processo de anos, estudei durante décadas, aguentei muita chuva e sol, para de repente ver tudo paralisado porque não tenho o padrão esquelético que a televisão exige.

Comecei a ver que tenho o padrão que Deus quis que eu tivesse, sou obra dele, então não posso ficar me mutilando a vida inteira, me dando uma vida miserável cheia de privações para entrar em um sistema.

E só falo isso porque recebo e-mails de atrizes acima do peso que me perguntam como lido com o mercado, pois é, eu não lido, ele está lá e eu cá.

Tenho aprendido muito nesse processo de desapego, a principal coisa é me livrar do sofrimento, carregar peso é uma coisa, mas sofrimento é mais pesado. Sofri demais, fiz besteiras para emagrecer e tive os objetivos errados, me cansei de tanta dor. Meu tipo físico sempre foi grande, nasci assim e posso morrer mais magra, mas vou continuar grandona.

O que decidi fazer é nunca mais me envolver nesse círculo de ódio comigo mesma, eu ficava tão alucinada com meu peso que esquecia que era uma pessoa ótima, cheia de qualidades, mas ao me ver gorda no espelho eu neutralizada tudo de bom em mim.

Cansei de escutar ''mas estudou tanto e vai jogar tudo fora por não emagrecer?''.

Não estou jogando nada fora, na verdade estou, mas é apenas o sofrimento. Não emagreci porque meu corpo tomou outros caminhos que eu mesma desconheço. E o que estudei levo comigo, não muda nada. E lido com as consequências de tudo isso, tive a escolha de levar um emagrecimento até o fim e conseguir o que queria profissionalmente ou me aceitar, deixar meu corpo em paz e procurar outras estradas. Escolhi outras estradas, chega de me mutilar, quero estar bem.


Já tive produtoras me perguntando ''então você desistiu de emagrecer? Desistiu de ser atriz?''.
Nunca desistiria de algo que amo tanto, jamais faria isso, o que eu desisti foi de ser infeliz e de torturar meu corpo como se ele fosse culpado por não estar no padrão estético de um mundo maluco. Apenas desisti de sofrer tanto e à toa.

E naquele dia que entrei no hospital um médico me disse que pessoas morrem por distúrbios de tiroide e a taquicardia que eu tinha. Pois é, não morri. Quando ele disse isso entendi a infinita misericórdia divina, que me perdoou por ter judiado tanto do meu corpo e me deixou ficar viva e sem sequelas. Meu corpo ainda lembra de alguns momentos de guerra que dei a ele, mas nada que altere minha vida.

E sou grata a isso, recebi um corpo saudável quando nasci e durante vinte anos tentei de tudo para destruir e submeter a um tipo físico que não é dele, fiz horrores e consegui sair viva. Mas meu caminho não foi só físico, o peso me permitiu conhecer muitos aspectos da minha existência e do mundo.

E sempre tem alguém para me dizer ''poxa, você devia estar na televisão!''. É, depende da visão de cada um, nesta altura da vida acho que a única coisa que eu devo, especialmente a mim mesma, é ser feliz. E largar mão de tanto sofrimento me trouxe a paz que  tanto procurei, mesmo que o preço tenha sido tão alto. A única coisa que quero é viver bem comigo e com meu corpo, o resto é consequência disso, e se o planeta só quer saber de gente magra, problema dele, isso não me interessa mais, eu só quero ser feliz e saudável. E se a televisão não me quer porque não sou esquelética, problema dela, perde mais o sistema do que eu. Fiz a minha escolha e isso inclui me respeitar e aceitar meu tipo físico. Não tenho mais tempo para judiar de mim, o que resta de tempo agora é para ser feliz.

Iara De Dupont

2 comentários:

Patrícia disse...

Fico feliz de te sentir com este astral, que seja feliz como voce quer!!!

Alessandra Tofoli disse...

Querida, ainda não consegui tamanho desapego, talvez desapego não seja a palavra, talvez o correto seja, maturidade. Infelizmente ainda brigo muito com meu corpo e com os tais padrões, mas nada melhor do que o tempo para nos mostrar o que realmente importa não é?
Beijo enorme.

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