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09 julho 2014

Não é culpa da Alemanha ( somos terceiro mundo mesmo)


Fiz um curso de produção teatral muito engraçado. Não eram as aulas engraçadas, pelo contrário, eram maçantes, mas o grupo era divertido e dávamos muita risada com as coisas que a professora dizia. Ela era inglesa, trabalhava nos teatros de Nova York e tinha sido a chefe de produção das maiores peças de lá. Foi ao México porque naquela época o país entrou em uma febre de montar musicais, e ela foi contratada para levar e montar os musicais, mas ela logo percebeu que não tinha mão de obra para isso, então abriu cursos para capacitar pessoas. Mas como todas as inglesas era disciplinada e dava as aulas, não mandava ninguém fazer isso.

O curso era tão cheio de detalhes e ela sempre fazia provas na sexta-feira, para ver se tínhamos aprendido as coisas que ela ensinou durante a semana. Mas as semanas passavam e as matérias eram cada vez mais chatas, como por exemplo saídas de emergência de teatros, onde ficam, como funcionam, o que fazer se não funcionarem, tudo ali era no detalhe.

Mas ela falhou em uma coisa, esqueceu que estava no México e não adiantava ser tão meticulosa. Ela dizia que pessoas que trabalham em produção teatral tem o plano A, o plano B, o plano C, o plano D e o plano de emergência. A gente dava risada e tentava explicar pra ela que no México a duras penas se chegava no plano A, não tem o B, nem C ou D.

E por que não pode ter esses planos? Porque o México é como todos os países do terceiro mundo, vive no improviso, pessoas que trabalham em teatro tem cinco, seis funções ao mesmo tempo, ganham mal e não estão preparadas para tudo o que parece natural aos ingleses e americanos.

A professora insistia muito e depois de um ano de aulas fomos escalados a um ano em uma produção de teatro. Fomos divididos em equipes e a que eu estava decidiu que tudo o que tinha aprendido ia levar ao pé da letra.

A gente foi se virando com os poucos recursos e nossa decisão de fazer tudo certo durou até a estreia da peça, lá seguimos o conselho da professora e chegamos no teatro as dez da manhã, quando a peça começaria as sete da noite. Mas tínhamos que chegar cedo para ver todos os detalhes e preencher os formulários, tudo tinha que estar ali. Fomos pontuais, mas aconteceu um imprevisto, o rapaz que cuidava do teatro não estava ali, chegava depois das três da tarde. Ficamos esperando e rindo, era o primeiro momento do ''fator México''. Depois ele chegou e fomos dar uma geral no teatro, que não tínhamos tido autorização antes para entrar, foi uma loucura, porque em geral os teatros liberam os ensaios antes, até porque é necessário para ver a iluminação, mas a professora esqueceu de novo o ''fator México'' e esse teatro estava ocupado com outras coisas e apenas fomos autorizados para entrar no dia da estreia.

A primeira página de uma pasta que recebi dizia que a primeira coisa era checar os camarins e dividir entre os atores. Aquele teatro estava com os camarins fechados, corri então para o plano B, procurei salas alternativas, mas depois começou uma confusão dos mil demônios, porque as salas ficavam fora de mão e era um problema atrás do outro.

A gente se virou no que deu e no fim deu certo, mas nada fora do comum. É isso que as pessoas de países mais estruturados não entendem, a gente se vira com o que tem.

E hoje que a seleção brasileira perdeu o jogo para a Alemanha e todos criticam e dizem que o técnico devia ter feito isso ou aquilo, mas esquecem que não deram a ele os seis anos que a seleção alemã teve para se preparar nem as condições. O Brasil é uma das seleções que cada jogador mora em uma parte do mundo e se reúnem apenas semanas antes da Copa do mundo, com um tempo mínimo para treinar.

O que acontece? Eles fazem o que podem, dentro daquilo que já está estabelecido. Se tiverem o azar, como tiveram, de cruzar com uma seleção preparada então rodam mesmo.

Depois dessa peça me mandaram trabalhar em outra com uma equipe de americanos, dava até medo de ver como eles estavam preparados para tudo, mesmo assim trabalhei demais porque vivia explicando os pepinos para eles, mas a peça que eles produziram era infinitamente superior a que eu estava anteriormente, e tudo isso porque eram bem preparados e bem pagos para fazer seu trabalho.

É a mesma coisa com a seleção, eles são super bem pagos, mas não são preparados em nenhum aspecto e todo mundo ficando falando que essa derrota foi uma lição de vida para que os brasileiros deixem de ser malandros e comecem a trabalhar duro. Ora, primeiro o governo que arrume as escolas e depois venha dar lição de moral. A maioria dos brasileiros não se prepara mais não por falta de vontade, mas por falta de acesso a um bom ensino e planos de carreira.

Não somos um país de vagabundos nem malandros, somos o país do improviso por falta de uma estrutura mínima. Já me cansei de atrizes estrangeiras me perguntando porque não existe uma companhia nacional de atores? Não tem, mas eu não sei o motivo, imagino que sempre vão dizer que não tem dinheiro para isso.

Esse é o Brasil, vai indo para ver onde chega. Não é justo agora dizer que os jogadores foram malandros e quiseram ganhar no sapatinho, sem estudar o adversário, mas quando no Brasil temos espaço e condições de estudar o adversário?

Vejo muitas pessoas revoltadas com essa derrota, mas em que Brasil que elas moram? Tudo aqui é improvisado e no ''gato''. Queriam o Brasil ganhando da Alemanha, esse país de primeiro mundo, com as melhores escolas e hospitais do planeta? Eles ganham em tudo, não apenas no futebol. Os alemães já nascem bem alimentados, ao contrário dos jogadores brasileiros que a maioria vem de famílias humildes e passam por muitas dificuldades que causam prejuízos no corpo. Já está provado isso, quanto melhor a alimentação na infância, melhor o rendimento da pessoa. Imagina o que come um alemão de pequeno e um brasileiro pobre? Não dá pra comparar e já começa aí a diferença.

Por isso sempre falo que sou contra essa mistura na hora de jogar, se o Brasil tivesse se limitado a adversários que também vivem ''pendurados na vida'', como Costa Rica, ia ganhar de todos, mas da super poderosa Alemanha não tem como ganhar.

O problema é que nós brasileiros somos metidos e achamos que temos a melhor seleção do mundo, as melhores paisagens e praias, mas não passamos de uns pobres coitados, um país com alto índice de analfabetismo, miséria e violência. Achamos que somos iguais na Alemanha na bola, mas não chegamos nem as chuteiras deles.

Glória no futebol pode ser lindo e o Brasil tem a sua, mas não coloca o pão na mesa nem os direitos nas ruas. A gente pode sonhar com a Copa, mas ainda somos um país atrasado e arcaico, mergulhado na corrupção e religião.

Podemos pensar que o futebol nos faz melhores, mas no fundo é ópio e sabemos disso. Nestas semanas de Copa esquecemos um pouco a inflação, a campanha presidencial e todos os desvios. E por isso doeu tanto perder hoje para a Alemanha, porque agora somos obrigados a acordar do nosso sonho e voltar para aquela realidade de chão de terra e desigualdade. A Alemanha não fez nada, apenas mostrou o que somos, um país improvisado, cheio de buracos com sonhos de grandeza. Acham que fazendo uns gols estão escondendo do mundo inteiro a miséria, mas a pretensão de parecer o que não é acaba mostrando justamente o contrário, que não passa de um país de terceiro mundo que não tem nada do que se orgulhar.

Iara De Dupont

6 comentários:

Ana Carolina Serrao disse...

Nossa, Iara!
Muito bom seu post! Exatamente o que penso!

Afinal, não se constrói um país com Copa do Mundo.

E cadê os brasileños com as bandeiras e camisas do Brazil espalhadas por aí? Já estão todas sendo recolhidas!
Porque só se tem orgulho de ser brasileiro na época da Copa, claro, enquanto a seleção estiver ganhando! Depois...esquece! Aí sim, o povo se lembra dos problemas nacionais, que jamais devem ser esquecidos ou silenciados por campeonatos de futebol.

O PONTO DO CROCHE disse...

Pois eu ainda acho que tem maracutaia no futebol. Igual na política. Não vejo futebol, mas pelos comentários (de repente os jogadores mudam a maneira de jogar, ficam estáticos, desanimados) passa a ideia de que tem alguma coisa estanha por atrás disso... sei não...

Diego Rodrigues disse...

Iara, gosto muito de futebol, e pra mim é melhor acabar logo um evento como esse, assim pessoas como você que nem ao menos sabem quantos lados tem uma bola param de comentar sobre futebol (eu que gosto dos seus textos), a algumas semanas nesse mesmo blog vi você escrevendo que a copa já estava comprada por nós, agora você mesma vem dizer que tudo isso mostra o nosso despreparo, quer dizer, sempre tem um lado ruim, a critica ferrenha vem do mesmo lado independente o rumo que o criticado vá, assim é muito fácil escrever, peço que ao menos seja coerente no que você escreve, se defendeu que a copa era comprada, não me venha agora dizer que a Alemanha ganhou porque se preparou a 6 anos, gera incredibilidade aos seus leitores.

PS: assim como você, também não muda nada se a copa for comprada ou não.

Anônimo disse...

Falou tudo! Eu nao queria que o Brasil ganhasse a copa para o brasileiro nao ficar ainda mais anestesiado,no final das contas nao sei se vai adiantar alguma coisa,mas poderia ser pior,poderiamos continuar nos achando os reis da cocada preta.
Anna

Anônimo disse...

Discordo de alguns aspectos do seu texto, principalmente quando você se refere que o Brasil jamais ganharia da Alemanha devido as diferenças de estrutura socio-econômicas do país. Davi Luiz, Neymar, Oscar ou FRED eram pobres de passar fome, pra afirmar o que você fala acerca da ineficiência do futebol, se fosse isso o Brasil não era pentacampeão nessa modalidade, e também não vale falar que eles vão para a Europa porque aqui não tem oportunidade, mas porque querem ganhar milhões de euros/dólar/reais a mais do que ganham no Brasil, porque um clube aqui paga 300/400/500 mil para um jogador, mas isso não é suficiente pra eles, o que faltou foi treino, foco, planejamento, pois ao contrário de outros setores no país a CBF investe milhões de reais na preparação dos jogadores, todos sabiam/viam que o Brasil não estava jogando bem, perder pra alemanha é a comprovação disso, ou você viu algo na mídia que mostrasse que eles estavam treinando/ estudando o adversário? Não, tudo que os jogadores postavam na sua rede social era apoio ao Neymar dentre outras besteiras, a mídia ficava em polvorosa para fotografar a namorada dos astro, futebol que é bom nada...
Quanto ao futebol nós temos vivido de história, falta o que o cidadão comum coloca no seu dia-a dia que é empenho em realizar um bom trabalho, porque ganhando bem eles ganham, caso o Brasil vença a Holanda, os jogadores levam pra casa 48 milhões...
Enfim, gosto muito do jeito que você escreve e se expressa e sou leitora assídua, mas nesse caso você só está pensando com o coração/emoção em achar uma justificativa baseada em fatos controversos pra seleção ter perdido.
O texto foi longo to quase arrependida de ter começado a escrever, porque sabe o que vai mudar na minha vida a seleção ter perdido? Poisé...Nada.

Iara De Dupont disse...

Olha, até onde sei bola não tem lados,mas vai saber, tudo é possível neste mundo.

Quanto a crítica em relação a Copa, eu concordo, não importa o que aconteceu ou tivesse acontecido, eu ia detonar mesmo, porque sempre fui contra o evento pelos seus custos sociais e econômicos, nem que o Brasil ganhasse e viesse na minha casa deixar a taça na minha sala eu mudaria de ideia.

E acho impossível no mundo de hoje ter um evento dessa escala sem que esteja ligado a movimentos político, tenho certeza sim que essa Copa foi comprada, assim como todas, não mudo a minha palavra em relação a isso. Só errei país, achei primeiro que tinha sido a Espanha, depois o Brasil, e agora não sei se foi Argentina ou Alemanha, são bons times, mas tudo é show, tudo é bem armado, e qualquer país que levar a taça vai se fortalecer politicamente, um prêmio desses serve para anestesiar um país durante anos, como aconteceu sempre no Brasil.

Mas tem seu lado bom a Copa, os jogos são bons e o mundo virtual fica cheio de gente como eu palpitando, isso é divertido, é fácil de escrever mesmo sobre isso, eu adorei o assunto, assim pelo menos posso me distrair e esquecer que a Faixa de Gaza está pegando fogo, o Brasil está por um fio economicamente, São Paulo está ficando sem água, os Estados Unidos vivem sua pior crise na imigração, nossos vizinhos argentinos estão falidos e isso pode afetar muito o Brasil. Como todo mundo adorei a Copa, porque fiquei anestesiada e minha única reclamação é que acabou!

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