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19 julho 2014

Identidade estética


Às vezes passo meses pensando na melhor definição de alguma coisa que sinto ou penso e de repente alguém diz uma coisa e me parece perfeito.

Nesta semana em um programa de televisão da Bandeirantes ''A liga'' falaram sobre cirurgias estéticas em adolescentes. Um psicólogo ao ser entrevistado disse que adolescentes ainda ''estão formando sua identidade estética''. Infelizmente a entrevista foi rápida e não aprofundou sua ideia, mas eu adorei a parte de ''identidade estética''.

Nos meus tempos de colégio a coisa era mais simples, cirurgias plásticas eram coisa de divas de Hollywood, não era assunto de meninas. As garotas mais admiradas na sala eram diferentes, uma era morena, outra loira de olhos azuis, uma de cabelo castanho e olhos verdes. A única coisa em comum era a altura e o fato de todas serem magras. Não lembro de ninguém falando de seios e bumbum.

Mas hoje as meninas querem colocar silicone com menos de dezoito anos. Sorte delas que não são minhas filhas, caso fossem essa conversa não iria longe. Silicone para mim é assunto de adultas, a mulher que decida, mas jamais uma menina de dezesseis anos.

É tão absurdo e idiotizado o assunto que entrevistaram os meninos da escola e um deles disse que seu tamanho de seio ideal em uma mulher era de 350 ml, se referindo ao tamanho de uma prótese. É inacreditável que a coisa tenha chegado a esse ponto de imbecilidade.

Colocar silicone inclui uma anestesia geral, uma das coisas mais perigosas do mundo é fazer isso em uma adolescente, deveria ser considerado crime.

O ponto da ''identidade estética'' me pareceu perfeito porque se leva anos para ter uma, mas isso seria impossível mudando tudo na adolescência.

Eu tive que aprender a lidar com muitas coisas na minha fase adolescente, mas hoje entendo como eram necessárias, caso contrário eu seria uma refém da indústria da beleza.

Se fosse hoje uma adolescente com recursos e todo esse massacre eu já teria mudado coisas sem pensar e sem me dar o tempo preciso para entender que não sou uma boneca de plástico.

Sofri muito com minhas coxas grossas, fiz ginástica, dietas, usei cremes e nunca mudei nada ali. Um dia vi um documentário da Madonna, sobre uma turnê, mas em algum momento ela está na porta do banheiro, seu marido vai lá e ela mostra as coxas dizendo ''as minhas grandes coxas italianas''. Nem eram tão grandes assim, mas pensei que ela malhava cinco horas por dia, tinha acesso a todos os tratamentos estéticos, alimentação especial e nem assim se livrou de suas coxas grossas.

Entendi naquele momento o nosso limite, cada corpo tem um desenho e só o tempo nos ajuda a entender seu contorno. Não vou mudar minhas coxas, mas hoje depois de anos de sofrimento já fazem parte da minha identidade estética, são parte do que sou. É assim com tudo. 

Quando eu era pequena escorreguei em uma escada, na verdade fui empurrada pela minha odiosa prima, e tive um corte perto da sobrancelha, a cicatriz ficou e várias vezes já me disseram para fazer uma plástica e tirar, apesar de ser uma marca pequena hoje. Mas isso não faz mais sentido, é parte de mim, da minha história e se eu começar a catar marcas no meu corpo para fazer cirurgias não acabo mais.

Não sou psicóloga mas acredito que enquanto a identidade estética está se formando vamos aprendendo sobre limites, entendendo que vamos ter que aceitar muitas coisas em nós que não podemos mudar, inclusive nosso jeito de ser, nem sempre vamos ter como mexer nas coisas que odiamos.


O corpo nos ensina a lidar com nossos pontos fracos e a entender a fragilidade da vida, às vezes uma simples gripe nos derruba e nos mostra que não podemos controlar o mundo nem mudar as coisas como gostaríamos. Começar a mutilar o corpo querendo chegar a uma aparência perfeita  me leva a pensar, como essas jovens vão lidar com a velhice? Vão se jogar pela janela ao perceber que o corpo deixa de ser jovem? Todos temos de um jeito ou de outro limites no corpo de alguma maneira e eles nos mostram que não somos invencíveis e temos que aceitar que essas linhas estão ali.

Se jogar em uma mesa de cirurgia com menos de vinte anos para colocar silicone vai criar uma geração de meninas mimadas, que não foram obrigadas a lidar com a frustração de não serem o que as revistas mostram, isso deve criar uma sensação terrível de vazio e frustração, porque não existem cirurgias suficientes que possam lidar com todas as expectativas que as pessoas têm de sua aparência.

A filha de uma vizinha da minha mãe teve seu rosto queimado em um acidente doméstico, os pais gastaram uma fortuna para que a menina pudesse recuperar o rosto, nesse caso vale a pena, porque é dar a ela uma vida normal, mas essas adolescentes que colocam silicone aos dezesseis anos estão se precipitando em uma situação que elas ainda  nem tem o panorama. E nem entro naquela questão de sexualidade precoce porque é complexa.

Uma das coisas que mais me ajudou na vida foi o tempo, ele que me ensina a lidar com situações que não gosto em mim e mais importante do que isso, o tempo me ajudou a entender minha construção e perceber como eu sou, tanto fisicamente como emocionalmente. Se eu tivesse entrado nessa loucura de cirurgias plásticas tenho certeza que hoje seria um Frankenstein, alguém sem identidade própria, toda costurada.

É verdade que o caminho não é fácil, teve muita dor e ignorância, mas quando alguém disse que seria fácil? Achar seu lugar no mundo e sua identidade estética custa para todos, e não trocaria nada do que vivi, apesar do sofrimento. O contrário disso é um caminho falso, cheio de promessas e uma aparência que não é nossa, é apenas a cópia da capa de revista.

Muitas meninas olham esses procedimentos e não sabem o quanto são dolorosos e a recuperação lenta. Eu entendo os complexos, tenho primas que colocaram silicone, mas já eram adultas.

A questão é que seres humanos e suas jornadas neste mundo não se constroem em mesas de cirurgias plásticas, não somos bonecos nem robôs, somos pessoas tentando conhecer a própria essência.

Não sou religiosa mas às vezes penso que Deus teve seus motivos para me fazer do jeito que fez e sou grata por isso. Minhas coxas são grossas, mas tenho olhos de águia, enxergo tudo e a distâncias inacreditáveis. Tenho estrias, mas meus tímpanos funcionam e escuto a música que eu gosto todos os dias. Sofro com o peso e suas subidas, mas tenho pernas para caminhar e de vez em quando correr. Levei anos para entender tudo isso e construir minha identidade estética. Deus me fez assim e não repetiu o modelo, sou única no mundo, desenho exclusivo, mas só isso enxerguei depois que me aceitei e parei de me mutilar e procurar ser o que não era.

O meu corpo, o meu jeito são parte de mim, levei anos para conhecer e outros para aceitar, mas um dia entendi que eu era um desenho perfeito e tudo estava bem, não precisava mais sofrer nem me procurar em capa de revistas.

Se construir tem seu preço e ninguém passa por esta vida sem pagar, por isso a melhor coisa é ir devagar e não pegar atalhos.
É difícil de entender, mas cada um é uma peça única sem reposição. Não vale a pena sofrer na frente do espelho pensando no que falta para ser igual a capa da revista. Algum motivo existe para que todos sejam diferentes, talvez somos parte de um gigante mosaico e cada peça tem sua beleza. Tentar uniformizar todas essas peças estraga o desenho do mosaico, aquele que Deus desenhou com perfeição. 

Iara De Dupont

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito, muito triste. As pessoas simplesmente não conseguem ou se recusam a ver que a beleza das revistas é falsa, tudo maquiagem e fotoshop, ficam jogando dinheiro e saúde fora atrás de algo que não existe. Também sofri por causa de aparência, mas a beleza ainda primava pelo realismo na minha época e meus dramas se resumiram à acne e ao cabelo, que foram tratados com umas visitas ao cabeleireiro e alguns remédios, sem mutilações nem operações. Fui afortunada. Isso só mostra o quanto é importante ensinar as crianças a lidar com as frustrações e com a vida real; na vida real somos bonitos com dente torto, cabelo frizado, óculos, peitos pequenos ou grandes, pele manchada, orelhas grandes... é justamente a diversidade que nos torna lindos.

Anônimo disse...

Na minha opiniao o objetivo do corpo e carregar a alma que é eterna,na alma habita os sentimentos,as dores e prazeres. Passar a juventudo perseguindo um corpo "perfeito" e um crime,porque se deixa de viver muita coisa pelo caminho. Se cuidassemos do corpo apenas para aproveitarmos ao maximo nossos dias na terra nao perderiamos tanto tempo e energia. Cresci nos anos 80 e 90,tinhamos pouco mas a vida era simples,hoje temos tantas opcoes,acesso a informacao,lazer,oportunidades mil que chega a ser insano ocupar mais de 1 hora por dia pensando e cuidando do proprio corpo.

Anna

Carol disse...

Com 16 anos o corpo nem tá formado ainda. Usando-me como exemplo: com 16 anos não tinha peitos e achava horrível porque todas as minhas amigas já tinham... Aos 17 eles cresceram, ficaram num tamanho médio e hoje com 23 são grandes (e as vezes dá até mesmo vontade de diminuir).
Como teria ficado se tivesse colocado silicone? Não faço nem ideia.

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