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23 julho 2014

A menina-elefante e a laranja podre



Nunca fui muito fã de exercícios circenses, mas tive que fazer muitos em um grupo de teatro que estive. Lembro de um professor que sempre dizia ''nunca perca a noção de quem você é, nem de sua estrutura, porque senão cai''.

Era só um conselho para não perder o equilíbrio, mas hoje assisti um pouco de um programa e pensei nisso. Vi rapidamente o começo do reality show ''Além do peso'' , onde doze participantes mudam sua rotina e alimentação para emagrecer em um tempo curto.

No programa alguns participantes contavam sua rotina e perguntaram a uma delas como se via hoje no espelho, e a moça respondeu ''um monstro''. Depois outra mencionou ser a ''laranja podre'' de sua família, porque todos eram magros e ela gorda.

Sei do que elas falavam porque já passei por isso e quando lembro só consigo completar a frase ''que Deus me perdoe por um dia ter pensado assim''.

Quando era uma criança, alguém me chamou na escola de ''menina-elefante''. Eu perguntei para meu pai se existia isso e ele disse que não. Mas eu era curiosa, não acreditei e justo naquela época, nem sei porque, ele escreveu sobre o lançamento de um filme, ''O homem elefante''. Pensei que ele tinha mentido para mim, existia um homem elefante, então a menina da escola estava certa, eu deveria ser a ''menina-elefante''.

Alguns anos depois vi o filme e fiquei impressionada, até hoje é um dos filmes que mais me deixa desconfortável. Durante anos carreguei essa sensação de ser deformada, estranha, diferente, apenas porque era gorda. Talvez nunca verbalizei isso de me chamar de ''monstro'', mas me sentia assim. E perto de algumas primas magras me sentia a laranja podre.

Tudo vinha na minha direção para reforçar essa ideia, as pessoas ao meu redor eram magras, na televisão, cinema e nas ruas. E perdi a noção de quem eu era e caí. O tombo levou a falta de autoestima, uma sucessão de erros e escolhas falidas, apenas porque eu me sentia mal, um monstro, minha evolução tinha sido de menina-elefante, a adolescente-elefante e depois a adulta-elefante.

Isso foi muito forte e durou anos, até que fui trabalhar como repórter. Eu não ia a eventos trágicos nem coisas assim, mas depois de um tempo se faltava alguém me pediam para ir.

Um dia me mandaram a uma delegacia, era uma entrevista com o delegado, um rapaz jovem, mas corajoso. Muito simpático me recebeu muito bem e sou grata a ele porque percebeu que eu não era a pessoa indicada e depois ligou para a emissora pedindo para gravar a entrevista outro dia, com outra repórter. Passei a manhã na delegacia e vi quando ele recebeu vários casos, eu escutava tudo, mas na hora que aquilo esquentava, eu saía da sala, porque me dava enjoo. Depois ele me convidou para almoçar, mas fui junto com a equipe. Na mesa me perguntou porque saía o tempo inteiro da sala e eu disse a verdade, não conseguia escutar o que as pessoas diziam, aquele depoimentos de violência me deixavam mal. Ele no estilo bem ''mexicano de ser'' me disse:


-Ah, mas tem que deixar mal mesmo, você é um rainha, linda desse jeito não deve escutar aquelas barbaridades.

Dei um sorriso porque conheço bem os mexicanos, são paqueradores por natureza.

Mas antes que eu pudesse responder ele disse:

-É, mas o meu trabalho é esse, eu recebo monstros na minha sala todos os dias.

Não sei que elemento se mexeu naquele dia, naquele almoço. Mas é como se alguma coisa tivesse voltado ao seu lugar. Foi como se uma luz tivesse sido acessa, eu tinha perdido a noção de quem eu era e agora a recuperava.

Monstros são as pessoas que entram na sala dele, pedófilos, assassinos, estupradores, ladrões. São eles os monstros, não eu. Laranja podre é quem mata, quem estupra, quem rouba, não eu.

Excesso de peso não faz de ninguém um ''monstro'', mas quem mata alguém é. E alguns gordos se sentem ''monstros'' porque pessoas dizem que excesso de peso faz isso, torna o corpo humano em um corpo de ''monstro''. Mas isso é mentira, ninguém é um monstro por fora, apenas por dentro.

Me deu muita tristeza ver nesse programa uma pessoa se referir a sua aparência como de um ''monstro''. Sei o quanto dói se sentir assim e não leva a nada. Perder a noção de quem somos nos derruba na hora. Eu achava que era um monstro porque não era magra e tinha estrias. Mas ignorava que sempre tive um coração nobre e nenhum ser humano é um monstro e muito menos eu.

Perdi o equilíbrio, minha estrutura e noção de quem era por nada, apenas por uma ideia estúpida de alguém ter me chamado de ''menina-elefante''. Acreditei durante anos em uma mentira, queimei minha lógica e atrasei minha vida. Tive que passar uma manhã inteira em uma sala de delegacia, na parte de homicídios, para acordar pro mundo e perceber o que estava fazendo comigo esse pensamento.

E digo que ''Deus me perdoe'', porque apesar de não ser religiosa, acredito que existe alguma ordem divina, e com certeza eu devo ter ofendido essa ordem com meus pensamentos tão sombrios em relação a minha aparência.

Foram décadas para ver as coisas com clareza e entender a importância de jamais perder a noção de quem sou e não sou um monstro. Se sou magra ou gorda não faz mais diferença, quando a gente perde a noção tudo vai ladeira abaixo.

Monstro para mim é quem tortura e mata animais, sequestra e vende crianças, mas os números da minha balança não me fazem um monstro. 

Hoje sou cuidadosa com o mundo, porque sei que para ele os ''monstros'' são os gordos, não os assassinos. É triste essa associação e não tem razão de ser. Gordos não são laranjas podres nem monstros. Mas as coisas são assim, quando você perde a  noção de quem é, escorrega, na queda todos se sentem no direito de chutar, por isso é fundamental manter o equilíbrio e saber quem é. Mais do que isso, dar o nome certo as coisas, excesso de peso não é sinônimo de ''monstro'', gordura não é sinônimo de ''laranja podre''. E pensar assim de si mesmo é a pior coisa que uma pessoa pode fazer a ela mesma, é como beber veneno todos os dias. E o pior de tudo é pensar que pode ser um monstro, quando na verdade não é. 

Iara De Dupont

Um comentário:

Anônimo disse...

Ola Iara,vi essa material e me lembrei de voce,dos seus textos,e por mais absurdo que tenha sido o procedimento,achei legal ela ter contado a historia porque muitas mulheres acham que a maioria dos "corpos perfeitos" sao resultados de muita disciplina,quando na verdade sao fruto de muito gasto e muita loucura.

Anna

http://ego.globo.com/famosos/noticia/2014/07/andressa-urach-faz-cirurgia-para-tirar-produto-que-engrossava-suas-coxas.html

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