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08 julho 2014

A história do bebê


Já entendi que não devo reparar em tudo, meu poder de observação às vezes funciona tanto que me deixa abalada por dias. Tenho essa mania desde pequena, parece que quero gravar tudo o que acontece em uma situação e fico reparando em todos os detalhes.

Uma coisa que reparei me atormentou muito estes dias. Fui ao IML (Instituto Médico Legal) fazer os trâmites, porque meu pai estava lá. Na noite que cheguei reparei em um casal que estava a minha frente e escutei quando eles disseram que eram os tios do ''bebê''.

No dia seguinte tive que voltar ao IML e quando eu estava chegando vi o mesmo casal entrando com um caixão pequeno e branco nos braços, entregaram a alguém e ficaram esperando.

Fui chamada para reconhecer o corpo do meu pai, mas esse casal estava na sala que eu ia entrar e percebi que eles estavam dizendo que o caixão do bebê estava de pé e tinha que ficar deitado e pediram para abrir. Eu estava muito abalada e quando a gente chora a vista fica nublada e não dá para reparar em tudo, mas rapidamente olhei quando eles abriram o caixão e mexeram no bebê, que deveria ter menos de um ano e de longe parecia um bonequinho de cera.

No dia seguinte voltei a cruzar com o mesmo casal no cemitério, eu estava esperando minha mãe quando vi o cortejo passar ali, pareciam todos zumbis, não se escutava nada além de um lamento e choro que eu nunca escutei antes. Vi o carrinho que levava o caixão branco e de longe acompanhei o enterro.

Fiquei muito mexida com toda a imagem, o caixão era tão pequeno e leve que apenas uma pessoa pegou e colocou no buraco. Vi todo aquele desespero da família, impossível de descrever.

Esqueci dessa história até a missa de sétimo dia do meu pai. Eu não sabia bem o que era isso, não tive formação católica, meus pais eram ateus e não conheço os rituais, nem tenho pessoas próximas a mim que conheçam. Mas fui na igreja perguntar e uma senhora lá me disse que as almas levam sete dias para chegar ao céu, elas atravessam o Rio das Almas, então no sétimo dia são recebidas pelas pessoas que conhecem e já morreram, como mãe, pai e amigos, por isso a missa é tão importante, para iluminar a pessoa nessa transição.

Voltei para minha casa e não achei essa explicação no Google, tinha várias, a única que passava perto dessa era da doutrina espírita, que em algum portal falava de ''Rio das Almas'', achei estranho que tivessem me dito isso em uma igreja católica, mas não sei porque me deram essa explicação.

Eu estava tentando achar uma explicação quando um pensamento atravessou minha cabeça e me encheu de angústia, e o bebê? Quem iria receber o bebê se sua mãe ainda estava viva?

Fiquei agoniada com isso. Uma das poucas coisas que me serviu de consolo na morte do meu pai foi que meu avô morreu há vinte anos e ele adorava o filho, eu sabia na minha tristeza que meu avô deveria estar feliz de reencontrar meu pai. Pensei também na mãe e irmão dele, que já faleceram, e em vários amigos, sogros, primos, e tenho certeza que o foram receber na sua chegada. Umas semanas antes do meu pai falecer ele sonhava com um grande amigo que tinha morrido e dizia ter longas conversas com ele. A minha dor foi amenizada porque meu coração entendeu que foi uma transição de um grupo para o outro, meu pai deixou os filhos, mas iria reencontrar seus amados pais. Me pareceu uma troca justa, só não queria que meu pai ficasse sozinho, mas sei que ele está com todas essas pessoas que sempre o amaram.

Mas e o bebê? Não teve tempo de conhecer ninguém nem de criar laços, como seria então sua chegada?

Isso me deu tanta angústia que corri para perguntar ao Padre da igreja, eu não frequento o lugar nem sei os rituais, mas fui lá. Ele me explicou que Jesus está lá e recebe todas as crianças para que sejam levadas a presença de Deus, ele não abandona ninguém e o bebê deve estar agora no colo de Jesus. Eu estava tão sensível com essa história que argumentei com o Padre que o bebê não conhecia Jesus, poderia se assustar ao ser colocado no seu colo, mas o Padre me garantiu que todos os bebês sabem quem é Jesus e ficam felizes de encontrar com ele.

Não foi suficiente a explicação e corri para um centro espírita, lá me explicaram que ''bebê'' era apenas a roupa, já devia ser uma alma velha, com várias reencarnações e laços estabelecidos, ao fazer a transição a alma abandona a matéria e esse ''bebê'' chegaria lá como um espírito de luz, não como um bebê e seria recebido pelos familiares e amigos.
A moça do centro espírita percebeu que fiquei comovida com a história do bebê e me recomendou rezar muito para que Deus dê conforto a mãe, já que segundo ela o sofrimento da mãe é terrível, é o elo mais forte entre duas pessoas neste mundo, e às vezes a mãe na sua dor e desespero grita pela criança e ela que está no outro mundo e se assusta.



Mandei um e-mail para uma amiga budista pedindo explicações e me disse uma coisa parecida com a moça do centro, o bebê já deve ter vindo a este mundo muitas vezes e já tem sua história, neste ponto da humanidade ninguém está começando do zero.

Lá no centro me disseram para concentrar aqui, rezar pela mãe que precisa do amparo espiritual para seguir, a criança no céu já está amparada e cuidada, ela sabe os motivos de sua transição, coisa que a mãe só vai entender o dia que fizer a sua.

Contei isso para um amigo e ele me disse que eu estava sofrendo demais por um bebê que nem conheço! Poxa, preciso conhecer para lamentar? É tão triste ver a caixinha branca ali com um anjinho, não é normal isso, parece fora de tempo. Meu pai viveu sua vida, deixou suas pegadas, mas e esse bebê? Não teve tempo nem para aprender a caminhar.

Isso é uma coisa que me impressiona no mundo e me deixa chateada, parece que ninguém se importa nem quer entender a dor do outro, todos ignoram quando alguém sofre.

Não acredito em dores maiores ou menores, cada um tem a sua e merece respeito. Ver aquela família se arrastando de dor no cemitério me deixou abalada, mas agora já estou melhor, senti que as explicações que me foram dadas eram sinceras e tenho certeza que Deus está com esse bebê no colo, só espero que não se esqueça de cuidar muito da mãe dele. Tenho rezado muito por ela estes dias, espero que encontre um pouco de consolo o mais rápido possível e chegue no seu coração que seu bebê não está sozinho, está bem cuidado e nos melhores braços que alguém poderia estar, nos braços de Deus e deve estar como todos os bebês ficam no colo, sorrindo.


Iara De Dupont

3 comentários:

Anônimo disse...

Olha Iara,sou como voce,sofro demais pela dor dos outros e entendo seu amigo que te disse que voce esta sofrendo demais por quem nao conhece,a dor do outro merece respeito,mas chega uma hora que nosso fardo fica muito pesado e nao conseguimos caminhar. Eu tambem acredito que todas as crianças estao com Deus ,mas me perturba demais saber que a mãe nunca irá superar sua perda,nunca sera capaz de ter a chance de buscar a felicidade possivel porque a dor sempre estara la,em menor escala,mas estara. Nunca entenderemos alguns misterios da vida e da morte,e nao se conformar com isso é outro fardo dificilimo de carregar.

Anna

Anônimo disse...

Iara,não se preocupe tanto com o bebê,crianças no geral são mais fortes que os adultos.Minha filha morreu com 5 anos e sua morte foi a pior coisa que já me ocorreu na vida;passei muitos anos em depressão,até que eu tive um sonho em que minha filha me dizia para eu não ficar triste porque ela estava bem e rodeada de amigos.Pode ter sido um sonho,mas foi o que me fez seguir em frente.Acredito que onde esse bebê esteja,ele está bem. :)

Patrícia disse...

O que mais me tocou foi voce dizer que não existe dor maior ou menor, cada um sabe da sua o o que o outro despreza, pode ser um tormento enorme para o outro. Às vezes certas coisas também mexem muito comigo,e acho que mais que o normal, por ver coisas que acho que mais ninguém está vendo, entendo este tormento seu.
Quanto à mãe e este bebê, eu penso que ele está bem, acho que a mãe sim, vai precisar de muita força. E bons pensamentos, vindos mesmo de quem não se conhece, não se faz nem idéia, chegam à ela sim, eu tenho certza.

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