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12 julho 2014

A curva


Várias vezes me disseram que as pessoas não morrem, é apenas uma curva na estrada, por isso as deixamos de ver, mas no fim do caminho todos vão se encontrar.

A primeira pessoa próxima a mim que morreu foi meu 
avô, eu tinha dezoito anos e sofri muito. Nunca tinha ido a um velório nem enterro, lembro que fiquei agoniada no enterro porque pensava que meu avô ficaria sozinho no caixão e passaria frio, tanto insisti que abriram o caixão dele e deixei meu casaco lá dentro.


Me explicaram então sobre a curva, eu deixaria de ver ele um tempo, mas um dia iria me reencontrar com ele, até porque as famílias segundo algumas teorias espíritas ficam unidas por séculos. Alguém me disse que pessoas queridas quando fazem sua passagem ainda nos cuidam aqui.

Uns dez anos depois do meu avô ter morrido eu entrei em uma profunda depressão, me cansei e desisti de tudo.

Uma noite chorei tanto que nem sei a que horas dormi, mas quando acordei meu avô estava sentado na beira da minha cama, furioso, irritado, me disse para levantar, tomar banho e me mexer, sair da cama e parar de chorar. Eu fiz isso e só na quando entrei no chuveiro lembrei que ele já tinha morrido e eram as quatro da manhã.

Depois dessa experiência tive certeza que a morte era apenas uma curva, deixamos de ver as pessoas que morreram fisicamente, mas elas estão ali. Isso me tranquilizou durante anos e a curva nem parecia tão distante assim.

Mas depois que meu pai morreu a estrada começou a parecer mais longa e diferente. Não sei se é a idade, aos dezoito anos vivia em outro ritmo e a perda do meu avô não afetou minha noção de vida. Já a morte do meu pai alterou a ideia que eu tinha do tempo e de chão, parece que tudo mudou. A morte dele me lembrou que tenho que acelerar minha vida e pensar em coisas que nunca pensei antes.

Em alguns momentos do dia sinto saudades dele, a ausência física é mais difícil de lidar do que pensava, e isso levando em conta que não tínhamos um bom relacionamento, de uns anos para cá nossa relação era marcada por discussões e decepções. O ponto é que a morte encerra pelo menos neste momento a oportunidade de mudar isso. É isso que me vem a mente com frequência, saber que nesta vida se acabou o prazo de conversa, não existe mais nada que possa ser feito para mudar, acho que é isso que torna a curva um momento tão tenso de lidar.

Nos últimos tempos eu via meu pai todos os dias e sempre acontecia a mesma coisa, a gente se estressava, mas ele estava lá e às vezes conseguíamos conversar. Agora não está mais e isso transforma o que um dia foi possível em impossível.

Não tenho nenhuma pressa em morrer, imagino que essa curva vai durar um bom tempo, até um dia encontrar meu pai de novo. Mas o tempo é tão estranho que parece que foi em outra vida que tudo aconteceu.

A ausência de uma pessoa de maneira definitiva corta como um bisturi no lugar exato e com muita dor. Sinto falta da voz dele, como se eu nunca tivesse escutado.

E também pelas coisas que acredito sei que minha história como filha se encerrou, é parte de uma teoria de que vivemos com a mesma família durante muitas vidas, mas o que se vive em esta vida não será a mesma coisa na próxima. Fiquei com a sensação de que ficou incompleto tudo, apesar de acreditar que para Deus não existe nada incompleto, tudo só termina no momento que nada mais está pendente.
O coração humano é insaciável, sempre vai querer cinco minutos  a mais.

Foi a primeira vez na minha vida que a curva me pareceu longe demais. Em teoria não é, mas parece porque a ausência física da pessoa esmaga as sensações.

Tenho longos momentos de saudades e já me disseram para não sentir muito isso, porque pode atrapalhar meu pai na sua nova vida. Mas todas as sensações se misturam, o que não foi dito, o que foi dito, o que faltou, o que sobrou.

O lado terrível da morte inesperada é que não temos tempo de nos despedir, ficam as frases no ar.

Uma amiga me disse para não ficar triste, coisas boas me esperam na vida. Não duvido disso, mas respondi que as coisas não são tão simples, eu posso ter o que quiser nesta vida, mas nunca mais vou ter outro pai, ele foi meu pai e o único que Deus me deu, mesmo que eu seja a rainha do mundo pai eu não vou ter outro.
Sou grata por ter tido, mas vivo neste mundo da matéria e como muitos sou apegada a ela, coisas simples como escutar a voz do meu pai me fazem falta.

E dizer a curva, o tempo, o outro mundo, a estrada, tudo isso deve ter sua razão de existir e ser contado, mas para mim pode ser resumido em apenas uma frase: Pai, eu tô com saudades de você.


Iara De Dupont

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