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29 junho 2014

Seleção brasileira: poxa, tá na hora de virar ''homem''



Nos anos noventa tinha um prédio na Cidade do México que era usado como local de ensaios de vários grupos de teatro. O diretor do lugar era casado com uma brasileira e o lugar foi apelidado de ‘’ensaiódromo’’ em uma referência ao sambódromo no Rio de Janeiro.

Era um prédio enorme e todas as salas eram desenhadas para ensaios de dança, música e teatro, mas as regras eram rígidas, sempre pediam que as pessoas evitassem bagunça e conversa nos corredores.

O México é um país que tem muitos festivais de teatro, por isso esse lugar era usado por diferentes grupos do mundo inteiro. Na época que eu estava ensaiando ali tinham grupos cubanos, argentinos, franceses e alemães.

Diante dos alemães, franceses e um grupo da Finlândia todos agíamos com um pouco de superioridade, achávamos eles estranhos, seus ensaios eram em silêncio e não incomodavam ninguém e isso nos parecia coisa de outro mundo. Os atores latinos falavam isso nos corredores, que esses europeus eram frios e não tinham a ‘’ginga dos latinos’’, não vinham de circos, nem de teatro de rua, eram todos formados nas rígidas academias de artes cênicas, sem nenhuma malícia. Nós, latinos, parecíamos ser melhores do que eles, tínhamos mais agilidade física, melhor improvisação e menos frescura, mas essa era nossa leitura.

Eles passavam reto por todos nós e poucos cumprimentavam, reforçando essa ideia de que eles eram ‘’esquisitos’’.

O comportamento desses europeus era oposto ao nosso e quem cuidava do prédio reclamava disso. O dia que chegou um grupo cubano para ensaiar aquilo ali virou uma festa, eles convidaram todos para assistir e foi uma farra.

Durante os ensaios era fácil saber quem estava em cada andar, os últimos andares eram dos europeus, um silêncio de igreja, já nos primeiros andares os grupos faziam barulho e drama, as discussões se escutavam por todo o lugar, o choro, a irritação, os berros, a alegria e a gargalhada. Tudo ali era um drama levado a quinta potência.

Depois de um tempo cruzei com uns atores alemães e eles foram muito simpáticos, mas quando eu via eles nos corredores do prédio me ignoravam.

Lembro de uma vez ter entrado no banheiro e estava ali um grupo de atrizes francesas, mas eram tão quietas que nem percebi, já quando estavam atrizes argentinas, cubanas e argentinas eu escutava as vozes desde o andar de baixo.

Fiquei amiga de um ator alemão, muito gentil, que se divertia com a farra dos latinos e um dia eu estava conversando com ele no corredor quando dois atores argentinos começaram a brigar, ele quis separar, mas eu disse que ia passar, atores latinos somos estressados, não somos como os atores franceses e alemães que ensaiavam com a garantia de um cheque do governo do seu país no fim do mês, nós latinos tínhamos outros empregos e tínhamos que correr atrás das coisas, por isso às vezes os nervos chegavam no seu limite e essas discussões aconteciam. Depois de dizer isso ao ator alemão ele me respondeu:

-É? Você acha isso? Não acho os atores latinos estressados, acho todos vocês mimados, estão acostumados a achar que só porque se viram com poucos recursos são melhores do que os outros, se acham malandros né?

Fiquei ofendida e não disse mais nada.

E só agora, anos depois entendi o que foi dito. Assistindo um jogo da seleção brasileira contra o Chile entendi o que esse ator quis dizer.

O jogo foi apertado e as duas seleções mereciam ganhar, mas empatou e foi para a prorrogação, como não deu em nada foram para os pênaltis.

E nessa hora entendi o ator alemão. Os pênaltis aconteceram porque ninguém resolveu o jogo antes, mas a seleção brasileira não pareceu ver as coisas desse jeito. Se jogaram no chão, choraram, rezaram, fizeram cara de coitados, pareciam um bando de meninos mimados que diante da primeira dificuldade ficam revoltados. Não é de hoje que a seleção brasileira tem a plena certeza de que só por usar a camisa amarela os gols vão acontecer. É tão forte a ideia do talento da seleção brasileira que os jogadores acham que só por amarrar as chuteiras já ganham qualquer jogo, não precisam jogar, é só aparecer para a foto.

Ah, mas eles ganharam! É, nos pênaltis ganharam mesmo, mas a imagem que passaram ao mundo antes de ganhar foi lamentável e deprimente, o capitão do time isolado, rezando em um canto, o goleiro chorando, antes mesmo dos pênaltis acontecerem e outros jogadores importantes desesperados, como se aquilo fosse uma ofensa pessoal.

Percebi como os europeus deveriam ver os atores latinos, sempre assim, fazendo um drama, chorando, se desesperando sem mostrar nenhum controle emocional. E verdade seja dita, os espetáculos que eu vi dos grupos europeus que ensaiavam ali eram milhões de vezes superiores, muito bons, porque eles tinham a técnica e o controle emocional, ao contrário dos atores latinos que se desesperavam rápido com as coisas e reagiam demais a tudo.

De fora é patético ver uma seleção reagindo no choro antes mesmo do jogo acabar. Dá para entender que estavam pressionados, exaustos, são muitos jovens e pelo jeito não recebem o apoio psicológico que precisam, são empurrados por todos e sentem nas costas o peso dos duzentos milhões de torcedores brasileiros, qualquer um pode dar um desconto pensando nisso, eles são muito meninos, mas porra, não dava pra chorar no vestiário? Precisa ter esse ataque na frente do mundo inteiro e deixar claro que não estão preparados emocionalmente para nada? No primeiro momento que são contrariados com pênaltis se desesperam, não esfriaram a cabeça.

Um amigo estrangeiro me disse que achou legal, que ele gosta disso nos brasileiros, que são emotivos e vivem todas as emoções, mas é isso mesmo que trava o país, essa ideia de que somos emotivos demais e não levamos nada a sério, por isso não somos conhecidos por ser uma nação importante em nada, apesar de que somos o país que mais produz e vende aviões, mas quem se importa com isso se choramos no futebol e no carnaval? Quem imagina um neném liderando uma indústria internacional? Ninguém, todo mundo visualiza os nenéns assim, chorando, fazendo gracinha e dançando, como nós brasileiros fazemos para todo mundo ver.

Não tenho nada contra chorar, entendo o cansaço, mas acho uma merda chorar assim na frente do mundo inteiro durante um jogo que nem tinha acabado, lembrei de uma das técnicas americanas de ginástica olímpica que em uma entrevista comentou que ficou chocada com a seleção feminina de ginástica olímpica brasileira, ela sabia que era um grupo de enorme potencial, mas chegou tremendo e chorando, ela disse que ficou horrorizada com o desamparo das meninas.

Com a seleção é a mesma coisa, faltam psicólogos ali, tem horas na vida que não temos outra saída além de sermos ‘’homens’’, usando um termo machista e clichê de gênero, mas não se pode jogar uma copa do mundo com meninos, quem entrar ali precisa se segurar, se quiser chorar, rezar, bater o pé ou se jogar no campo como um jogador fez, parecendo um menino mimado, que faça isso nos vestiários, longe do olhar do mundo.

Não custa nada aprender com a seleção mexicana, que perdeu merecendo ganhar e saíram como homens do campo, de cabeça erguida e escondendo o choro. E não importa se são homens ou mulheres, chorar sem controle e se jogar no chão em um evento mundial mostra que estamos frágeis, sem certeza de poder ganhar. Confirma aquela ideia de que somos muito metidos na ideia da ‘’malandragem e do drible’’, mas se perdemos nisso não temos uma técnica que nos sustente.

Emoções fazem parte de qualquer coisa na vida, principalmente desses eventos enormes, mas excesso delas mostra fraqueza e o mundo está andando pra frente, não temos mais tempo para continuar reforçando que somos um país emotivo e chorão, tá na hora de crescer, porque se continuar nessa pilha um dia vamos ter motivos reais para chorar e ficar jogados no chão fazendo birra. O dia que invadirem o Brasil para levar todos os recursos que temos quero só ver, no choro não vamos nos salvar.

Iara De Dupont

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