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30 junho 2014

Porque escrevo tanto


Uma das melhores histórias do México é sobre Malinalli, a menina que foi apelidada de  ''La Malinche''. Até hoje historiadores garantem que esse apelido não era direcionado a ela, o seu era Malinalli, que significa ''erva ruim''.

Não existem registros oficiais que possam contar a história desde o começo, apenas suposições.

Antes da invasão dos espanhóis ao México o país era dividido em cidades-estados e cada uma tinha seu chefe, mas a principal e temida era Tenochtitlán, o império dos astecas, que por serem numerosos e fortes escravizaram todas as cidades ao redor. Muitos lugares eram devastados pelos astecas, as pessoas morriam de fome porque perdiam tudo e algumas vendiam ou tinham suas filhas pequenas roubadas. Os homens eram levados como escravos e parece que a história de Malinalli começou assim, foi vendida aos três anos de idade para um senhor, que a levou junto com um grupo de meninas para trabalhar em suas terras. Lá essas meninas cozinhavam, cuidavam das plantações, até o dia que seriam entregues aos deuses, em um ritual. Os deuses eram exigentes e as meninas tinham que ser virgens e preparadas durante anos para o momento que seriam levadas as pirâmides e sacrificadas.

Malinalli ficou dos três anos aos doze anos sendo preparada, mas um pouco antes de ser entregue a algum deus os espanhóis chegaram na costa do México. Naquele momento os indígenas pensaram que era um deus, houve alguma previsão que dizia que iria chegar um deus do fogo e ao ver o capitão do barco, Hernán Cortés de barba e cabelo ruivos pensaram que era o deus enviado. Foi recebido com todas as pompas e o amo de Malinalli entregou ela e outras meninas para que cozinhassem para os espanhóis.

Malinalli era de uma inteligência fora do comum e Hernán Cortés percebeu isso. No lugar onde morava antes de ficar com os espanhóis Malinalli era a responsável por levar comida aos presos e por isso começou a falar diversos dialetos. Não se sabe como Hernán percebeu isso, mas para chegar na cidade principal, Tenochtitlán , ele precisaria atravessar entre dezoito e vinte cidades e cada uma falava um dialeto. Quando percebeu isso fez de Malinalli ,sua sombra, ia com ela a todos os lugares. A menina aprendeu rapidamente espanhol e virou intérprete dos espanhóis. Nas cidades que chegavam ela repetia o que Hernán tinha dito, dizia a todos que os espanhóis vinham a mando de um rei para libertar todas as cidades da tirania dos astecas, queriam que reinasse a paz e depois que isso acontecesse eles iriam embora.

Os homens que chegaram com Hernán Cortés não eram mais de cem, depois chegou um reforço de oitocentos homens da Espanha, mas devido a distância da costa do México e da cidade principal muitos morriam de doenças e cansaço, o dia que Hernán Cortés invadiu o Tenochtitlán tinha um exército de mais de cem mil homens que foram se juntando a ele nas cidades que passavam, centenas cansados da exploração dos astecas e da fome que passavam, mas ele só conseguiu juntar essas pessoas graças a Malinalli e seu verbo.

Até hoje existe uma certeza no México, se não fosse por ela os espanhóis jamais teriam conseguido entrar na fortaleza que era Tenozitlan. Músicas foram escritas dizendo que Malinalli não entregou o caminho aos espanhóis, mas o coração do povo.

Ela sabia os dialetos das cidades e também conhecia os costumes de cada uma e seus pontos fracos, tudo graças aos prisioneiros que contavam as histórias que ela tanto prestou atenção, por isso foi tão fácil para os espanhóis passaram pelas barreiras sem despertar desconfiança.

Mas como sempre a história não foi justa com ela, o seu nome real nunca foi descoberto e não aparece nos livros como Malinalli, mas sim com ''La Malinche'', a grande maldição que acabou com a vida de todos. No México dizem que Eva foi a primeira responsável por derrubar o paraíso e depois veio ''La Malinche''. Virou a mulher mais odiada do México. Os livros foram cruéis com ela, sempre esquecem de mencionar que era uma escrava as ordens de um ''amo'', não tinha liberdade de fazer nem dizer nada e ninguém se preocupou em saber do lado dela, e sabe Deus o que deve ter passado nas mãos dos espanhóis.

Os mexicanos não se esquecem dela e até hoje apelidam de ''La Malinche'' qualquer mulher que se envolve com um estrangeiro, ficou tão popular o termo que é usado até quando uma pessoa prefere uma comida estrangeira a uma mexicana. Qualquer coisa dita lá que revele uma preferência por alguma coisa de fora leva o apelido de ''La Malinche''.

E quem me contou essa história foi uma amiga antropóloga, apaixonada pela Malinalli, a menina escrava que entregou um país inteiro. Ela me contou essa história porque até hoje os mexicanos resistem, mesmo que discretamente, aos estrangeiros, e eu morando lá sentia essa má vontade comigo e não entendia os motivos. Eu disse que os brasileiros também tínhamos sido colonizados e não eramos tão marrentos como os mexicanos, mas ela respondeu dizendo uma coisa que nunca esqueci:

-Iara, a colonização foi totalmente diferente, no Brasil existiam indígenas e chegaram os portugueses, eu não acredito nos livros, principalmente nessa parte que diz sobre as índias brasileiras que se esfregavam com muito gosto nos portugueses, mas aqui no México não eram só indígenas, eram uma civilização, que foi destruída, vocês tiveram apenas suas árvores derrubadas e cidades foram construídas em cima, nós tivemos toda nossa cultura queimada. Os espanhóis promoveram o maior banho de sangue que este país já viu, vocês são um país que foi colonizado na base da enrolação, nós somos um país que foi estuprado. Qualquer livro de história te diz que as índias brasileiras se divertiam com os portugueses e qualquer livro de história te diz que as mexicanas foram estupradas. O que aconteceu no México foi traumático e inesquecível, vocês assimilaram o seu colonizador, nós ainda estamos limpando as feridas.

E penso em tudo isso porque o Brasil passa por uma Copa do Mundo e não aguento mais escutar sobre brasileiras e estrangeiros, como se isso fosse uma coisa boa. Parece que o único objetivo das brasileiras é achar um namorado ''gringo'' e sair do país.

Queria saber da onde vem essa história de que amamos os estrangeiros a ponto de sonhar ir embora com eles. Me sinto ofendida como mulher ao ver isso na televisão, todos falando que as brasileiras sabem muito bem receber um estrangeiro.

Não odeio estrangeiros, mas não gosto dessa mentalidade de achar que eles são melhores que os brasileiros e todas queremos um. Eu sempre falei aqui que sonhava em casar com um sueco, mas era uma brincadeira, um sonho de morar em um país onde essas questões de direitos não me atormentassem tanto, mas era só isso.

Assim como minha amiga também não acredito nos livros de história, acho estranho essa versão das índias daqui que adoravam transar com os portugueses, como se não conhecessem nada além deles. Acho uma teoria suspeita, meio fantasiosa e que obedece como sempre aos interesses da ala masculina, o sonho dos homens, chegar a um lugar lindo e desconhecido cheio de mulheres ansiosas para ter sexo.

Acho uma nojeira como as mulheres ainda são vistas como um ''produto local'', uma coisa que qualquer um pode chegar e comprar, não importa da onde vem.


Mas ainda é assim, a história não nos faz justiça e ainda somos uma anotação ao pé da página, uma lembrança remota de que um dia existimos. A versão que está impressa ainda corresponde ao que os homens disseram e a versão feminina nem é escutada, quanto menos escrita. O que Malinalli pensava ninguém se preocupou em saber, nem em tentar entender, sempre foi vista como uma maldita que derrubou seu país, sua vida de escrava não entra nos livros. Não existe o lado da mulher na história do mundo, como se todas estivéssemos pintadas na parede. E ainda tem gente que me pergunta da onde vem meu desespero em escrever tanto e sem parar. Deve ser apenas a agonia de não entrar em um pé de página, não quero que a minha história nem a das mulheres da minha família seja contada apenas pelos homens. Desta vez é uma promessa, a minha versão fica.

Iara De Dupont

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