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29 junho 2014

Obrigado pelo aviso, mas eu lido com a dor do meu jeito


Uma pessoa próxima me disse:

-Olha, entendo todo o processo de dor que está passando, mas você está descontando muito na comida, assim vai engordar mais.

Dor é uma coisa que não se discute e menos ainda de como lidamos com ela. Mas não fiquei ofendida, tenho mais de trinta anos nas costas lidando com a questão do peso e a visão que as pessoas têm disso.

Nunca escondi de ninguém que tento lidar com meu peso desde que nasci, não tenho nenhum amigo, familiar ou Romeu que desconheça sobre esse assunto, sempre está na minha frente.

A única coisa que mudou com o passar dos anos é que hoje sei separar as questões e não me atormento mais à toa, até porque perdi a energia para fazer isso.

Nos dois primeiros dias depois da morte do meu pai não consegui comer direito, me sentia enjoada, mas no terceiro dia tive que começar a resolver questões técnicas e passava o dia inteiro na rua. Logo descobri uma coisa que não conhecia, o rápido alívio que a comida traz. O que eu sabia era do conforto emocional, sempre comi doces quando estava triste e salgados quando estava feliz, mas nunca tinha passado por uma situação onde a comida parasse minha dor no momento. Pensar no que comer me mudava a rota do pensamento e a energia que me apertava a alma. E abusei mesmo desse recurso depois que percebi ele. Pisei tanto no acelerador que acabei caindo em tentações que não comia há anos, e nunca, nunca, em trinta anos de vida comi desse jeito, nunca tive meus dias de ‘’foda-se’’ e sair detonando, mas neste caso me pareceu a melhor escolha.

Eu não bebo, não fumo, não me drogo e não sabia outro jeito de lidar com o que sentia. Meu sangue indígena me impede muitas coisas, o orgulho me segura e não sou de ligar para meus amigos e chorar mágoas, sempre fico na minha, no silêncio da raça de bronze, como dizia minha avó, por isso descontar na comida foi uma anestesia.

Barato não ficou, engordei mais de cinco quilos, mas o tempo me ensinou a lidar com isso de outra maneira, não surto mais, nem me cobro tanto. É verdade que engordei, paciência, vou fazer o quê? Cada um passa pelos seus processos do seu jeito e o meu desde que me conheço por gente é me isolando e comendo.

Todo mundo tem seu ponto fraco, o meu é o peso, e hoje não sofro tanto, pelo menos aprendi a lidar, não penso mais como antes que daria tudo para trocar esse ponto fraco por outro, se esse é o meu, então que seja assim.

Uma vez me disseram em um centro espírita que alguns problemas físicos que trazemos nesta vida já nos atormentavam na outra. A moça que me disse isso contou que sofria de muitos problemas no pulmão e não sabia porque, não era fumante nem alérgica a nada, mas depois parece que em uma orientação, não sei bem o que, ela ficou sabendo que tinha sido fumante na vida passada, morreu fumando e ao nascer de novo seu pulmão ainda trazia restos da doença que teve na vida anterior.

A única coisa que digo em relação a isso é que se o peso é meu problema nesta vida gostaria de que fosse isso, apenas meu problema, não dos outros. Não preciso de ninguém me dizendo que engordei e estou afogando minha dor nos brigadeiros, sou adulta, consciente e sei bem o período que atravesso, ainda pago meus impostos e meu dou o direito de lidar com minha dor da maneira que quiser, desde que isso não atrapalhe a vida de ninguém.

O peso parece ser um problema que incomoda mais os outros do que a mim mesma, talvez por isso os choques aconteçam de vez em quando.

Não recomendo a ninguém fazer o que eu fiz, tive momentos que nem sei bem o que comia, apenas queria comer, isso é péssimo, comida deve ser desfrutada e aproveitada, não engolida, mas fora essa questão não tenho nenhum arrependimento nem faria nada diferente.

E todos os dias o significado do tempo muda para mim, se um dia vou estar magra não sei, mas escolhi há um bom tempo sofrer menos com meu peso, se eu engordei e amanhã mudo de ideia, então eu acordo, vou malhar e comer menos, não tem nada para fazer além disso. O que eu não quero é me envolver de novo nesse círculo maldito de viver achando que a única coisa que importa é meu peso. Não quero mais estar presa a essa ideia tão pequena e mesquinha de que sou apenas o número que reflete na balança.

E abençoada foi a comida que me ajudou a passar por noites difíceis e me trouxe um pouco de consolo a alma. Entrei de vez na categoria de seres humanos privilegiados que podem amenizar sua dor com um pouco de brigadeiro, porque existem muitas dores que não encontram um pouco de anestesia, pelo menos a minha deu para acalmar uma parte. E só por isso sempre vou ser grata a comida, pela primeira vez na minha vida não tenho uma relação de ódio com ela e me parece uma grande avanço, daqueles que mudam tudo.

Iara De Dupont

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