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12 junho 2014

Mulheres na religião católica: acesso restrito

Juan Diego e a Virgem de Guadalupe

Sou filha de ateus, mas quando tinha onze anos minha avó pediu que me batizassem, não sei os motivos, mas fui batizada.

A vida inteira escutei que religiões são usadas para manipular, tirar dinheiro e distrair as pessoas.

Mas meus pais confundiram ''educação religiosa'' com ''educação espiritual'' e não recebi nenhuma das duas. Tão importante como a educação intelectual, econômica e emocional é a espiritual, achar um caminho que conforte a alma.


Aos vinte anos comecei a acompanhar minha avó nas igrejas, ela era muito religiosa e todas as netas se recusavam a ir, então eu ia. Eu não sabia nem rezar o Pai Nosso, mas como estava no México disfarcei e disse que não sabia rezar em espanhol, mas em português sabia. Fui a tantas missas e rituais que comecei a gostar, transferi minha paixão pelo teatro a missa, pra mim são a mesma coisa, a iluminação é boa, o texto ótimo e os atores fazem tudo direitinho. Minha parte favorita é quando o Padre faz uma pausa dramática e diz: Eis o mistério da fé.


Ao mesmo tempo que minha avó me puxava para esse lado, tentando me catequizar meus amigos no teatro me contavam outra história. Os mexicanos são muito religiosos, a maioria católicos e seguem os rituais ao pé da letra, tudo é motivo de ir a igreja, mas os estudantes de humanas têm uma profunda revolta com a Igreja Católica que culpam pela desgraça no México, porque os padres iam nos barcos espanhóis que invadiram todo o território mexicano e começaram a derrubar pirâmides e construir igrejas em todos os cantos para obrigar os indígenas a obedecerem seus santos.


Os indígenas adoravam seus deuses, bastante duros e exigentes, que exigiam sacrifícios, caso contrário puniam o povo com a seca. Na tentativa  de ''domesticar'' os indígenas os espanhóis foram a uma montanha considerada sagrada, onde os indígenas adoravam sua deusa Tonantzin disseram que a Virgem de Guadalupe apareceu justo ali.


Quem considera essa versão nutre um profundo ódio pela Igreja Católica que derrubou templos e obrigou os indígenas a esquecerem seus deuses. É uma coisa tão marcada na mente do mexicano que na praça central da Cidade do México existe uma linda igreja e saindo de lá a poucos metros ainda estão os restos do Templo Maior, uma das principais pirâmides de adoração aos deuses que os astecas tinham.


Minha avó sempre negou a versão de que a Virgem de Guadalupe tivesse sido invenção dos espanhóis, anos depois a ciência comprovou isso, não era invenção. A história conta que Juan Diego, um indígena, começou a subir a montanha e a Virgem apareceu várias vezes, mas ninguém acreditava nele, então disse isso a Virgem, que resolveu imprimir sua imagem em um tecido que ele carregava, ao voltar a cidade ele abriu o manto e todos puderam ver o desenho da Virgem, esse mesmo está até hoje na Basílica da Virgem de Guadalupe. O tecido onde aparece sua imagem já foi estudado no mundo inteiro e ninguém sabe a origem dele nem da tinta usada. Depois resolveram analisar os olhos da Virgem na pintura e eles têm detalhes humanos, coisa impossível de reproduzir.


Por um tempo achei que a Virgem era invenção dos espanhóis, mas depois que comecei a ir com minha avó na Basílica mudei de ideia. Sabe Deus o que acontece ali, mas a energia é tão forte que não conheço ninguém que entre e saia sem acreditar nela. Não dá pra explicar, mas alguma coisa muda internamente. Desde que eu comecei a ir encontrei um pouco de conforto nas missas, sei que são todas desenhadas para que as pessoas sejam hipnotizadas, mas mesmo assim a sensação é boa.


E depois que minha avó morreu várias vezes fui a missa, sempre sinto ela por lá. Mas bati em uma parede, não me sentia à vontade na religião católica e procurei outras, mas ainda não achei uma que me passe a sensação de que sou aceita.


Nestes últimos dias fui a muitas missas, porque me dá o conforto que preciso. Mas aquilo tudo dá voltas na minha cabeça e não consigo resolver. Não posso me aproximar da Igreja Católica porque vai contra meus princípios políticos, tudo que faz parte do mundo feminino a Igreja condena, tudo ligado a mulher é pecado. Também trata mal suas freiras, que trabalham muito e não sobem na ''carreira'' como os padres e não existe nenhum episódio sinistro na humanidade que a Igreja não tenha estado envolvida. São muitas coisas que me afastam e me deixa pouco à vontade, sei que minha presença ali é tolerada desde que eu siga as regras medievais, caso contrário não.


E depois de uma missa conversei com um Padre, achei a cerimônia bonita e falei isso com ele, mas no fundo eu me sentia uma impostora, falsa e mentirosa, gostando de uma missa quando na verdade eu condeno a maneira que a Igreja trata as mulheres.


Eu estava sentada em um banco quando comecei a pensar como é difícil ser mulher neste mundo, parece que tanto no trabalho como nas religiões somos um sub-gênero, consideradas menos que os homens. Pensei em toda a solidão que isso envolve, até para encontrar um pouco de conforto religioso temos que nos submeter a um mundo masculino e asfixiante.


Já escutei que Deus e Jesus não frequentam Igrejas, eles estão no coração, mas igrejas têm sua razão de existir e muitas servem de consolo, talvez por tanta energia que se mexe ali esses lugares sempre trazem um pouco de paz. Não preciso de lugares específicos para falar com Deus, mas gosto de igrejas e seus rituais, sinto falta disso na minha vida, gosto dos sermões e das histórias.


Durante muito tempo acreditei que minha avó era religiosa porque tinha uma vida difícil, com muitos filhos, um marido irresponsável, então na sua ignorância achou consolo na sua fé. Mas hoje entendo ela, eu gosto de igrejas e de missas, mas quando vou me sinto fora de lugar, como se eu estivesse aprovando todo o horror que a Igreja Católica já fez e faz contra as mulheres.


E na igreja que fui tinha uma imagem enorme de Jesus e uma pequena da Virgem Maria. Fiquei ali olhando para ela, pensando que representa as mulheres no mundo, somos aquela parte que fica escondida, pequena, sem muita importância neste mundo de homens. Tive pena de mim e de todas as mulheres do mundo, percebi como nosso acesso as religiões é limitado e restrito, só entramos se obedecemos. Talvez por isso amo tanto a Virgem de Guadalupe, acho que ela sabe tudo o que passamos e seu olhar mostra isso, o quanto lamenta que vivemos em um mundo onde a religiosidade da mulher tem que ir da mão da ''moral e bons costumes''. A Virgem conhece o calvário de todas as mulheres, talvez por isso nos protege. Amém.


Iara De Dupont


3 comentários:

Suzana Neves disse...

Meu pai também acabou vetando religião quando eu era criança,sempre gritava aos cantos que era ateu, isso durou até ele se casar de novo agora vive de terno ajoelhando por aí, eu não me sinto bem em igrejas desde criança a emoção das pessoas me faz mal nunca senti bem em uma não via a hora que acabasse, depois quemeu filho nasceu tentei ir de novo, mas não tinha mudado muito ainda .

Isabela Niella disse...

Busque Deus, conheça os ensinamentos do Cristo, pois Eles não fazem distinção de pessoas. As Igrejas (Católicas ou não) são criações do homem que impõe as regras que possam lhe favorecer.

Anônimo disse...

Olha Iara,entendo o seu lado,e quem esta do lado de ca ,dentro de alguma religiao tambem tem as mesmas questoes. A religiao conforta sim,escolhemos acreditar e isso nos faz bem,alem do mais é mais facil sermos convencidos coletivamente do que individualmente,daí o porque de as religiões atrairem multidoes,fazer parte de um grupo nos traz um senso de importancia de pertencer a um grupo que nem sei explicar. Não é só na igreja católica que as mulheres tem um tratamento desigual,claro que ninguém nunca irá se comparar a ela,mas as outras religiões por mais liberdade que dão as mulheres ainda atribuem a elas tudo de mal que acontece,dizem que temos uma super influencia sobre tudo e todos e podemos fazer o que quisermos com os homens,tipo influenciamos tudo e todos,se fosse assim como somos maioria o mundo seria bem melhor. Por mais contraditorio que pareça tenho tido experiencias terriveis com mulheres machistas no poder,elas exiegem perfeição,acham que temos que aguentar tudo e fazer o impossivel,não entendo como podemos ser nossos proprios algozes,talvez eu nunca entenda.

Anna

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