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07 junho 2014

São Paulo: a cidade que eu não conhecia


Meu pai faleceu na segunda-feira e desde esse dia não consegui mais voltar ao blog, me vi envolvida em questões técnicas e pessoais. 

Mas hoje aconteceu uma coisa que me fez prometer que viria aqui e colocaria um texto, nem que estivesse morrendo de sono e emocionalmente ainda nublada.

Desde ontem a cidade de São Paulo sofre horrores pela greve dos metroviários, tudo ficou paralisado e ainda por cima choveu. Entrei no elevador e uma vizinha detonava a cidade, a prefeitura e todo o sistema, várias vezes disse ''somos uns largados pelo governo''.

Quem conhece meu blog sabe que eu uso com frequência esse discurso, alego o abandono do Estado e suas veias corruptas, principalmente aqui em São Paulo, cidade onde nasci e cresci.

Porém coisas acontecem e me sinto na obrigação de contar, que seja o único registro do assunto, mas eu não quero olhar para trás e pensar que fui barulhenta na crítica e silenciosa no elogio.


Meu pai estava no hospital e não esperávamos a morte dele, foi lá por um procedimento que nós como família pensamos que seria simples, mas se complicou devido a uma pneumonia não identificada antes.

Ao saber da morte dele ficamos como família zonzos, sem saber o que fazer, nenhum de nós tinha passado por uma situação assim. Informações foram cruzadas e erros aconteceram, até que uma amiga da minha mãe nos disse como resolver os trâmites burocráticos, que envolvem desde a retirada dos papéis no hospital até o IML (Instituto Médico Legal).

Começamos a fazer parte deles e chegamos no IML, então ocorreu um erro da minha parte, ao entregar os papéis do meu pai dei junto meu R.G, ficou registrado que dali pra frente eu seria a responsável por tudo, desde o reconhecimento do corpo, retirada, velório e chegada ao cemitério.


Não sou a pessoa adequada para isso, as coisas me impressionam e eu sofro o dobro, teve gente que percebeu e quis ajudar, ir lá e resolver, mas não se podia mais mudar o papel, isso seria outro trâmite. Já que não puderam fazer as coisas por mim me disseram para ficar bem atenta, porque pessoas iriam se ''aproveitar'' da minha dor e tirar dinheiro.


Nesse dia no IML me disseram que o hospital ainda não tinha enviado o corpo, eu teria que ligar as oito da noite para saber. Liguei a essa hora e fui avisada que já estava lá e tinha que ir resolver. Todo mundo me avisou, o IML é corrupto e demorado, era bom que eu me preparasse para as ''caixinhas'' e a para esperar a noite inteira ali, justo uma noite gelada. Conhecidos me disseram para levar comida e bebida, porque não tinha nem máquina de refrigerante ali perto.


Conheço o ''fator Brasil''  e me preparei, mas decidi que não daria ''caixinhas'', apenas pelo fato do meu pai ter lutado a vida inteira contra elas. Mas levei comida e bebida.

Chegando me informaram que o corpo já estava lá e eu teria que ir a funerária fazer outro trâmite. Também fui avisada disso, a funerária iria me dar ''canseira'' para vender pacotes caros e a espera ali era longa.

Fiquei esperando duas horas, mas isso aconteceu porque seis pessoas estavam antes de mim, não foi nenhuma tentativa de me fazer levantar e dar uma ''carteirada''.


Depois disso fiz o que tinha que ser feito, voltei ao IML e fui informada para estar lá no dia seguinte para reconhecer o corpo.


Não dormi a noite inteira. Eu não tive tempo de ver meu pai no hospital e não queria  ficar com essa imagem na mente, mas não sabia o que fazer.


No dia do reconhecimento imaginei que seria como essas cenas de filmes, onde entramos em uma sala e vemos a pessoa deitada em uma mesa, em um quarto cheio de mortos. 

Cheguei lá e me pediram a roupa dele. Vinte minutos depois me avisaram que poderia entrar e fui, entrei em uma sala onde ele já estava no caixão, arrumado e vestido, me pediram para reconhecer e assinar um papel. Perceberam que não fui a pessoa indicada para a missão, porque me aproximei do corpo para me despedir, mesmo eles me avisando que isso não pode ser feito. Foram gentis e me pediram que saísse da sala, mas entenderam que eu levei meu tempo.

Na saída agradeci um dos funcionários e ele me disse que estavam meio atrasados pela greve, mesmo assim eu disse que o serviço era muito bom e ele respondeu dizendo que estão trabalhando 70% abaixo da sua capacidade pelos constantes cortes de verba e a prefeitura pretende este ano privatizar o serviço, se isso acontecer vai ser terrível para todos nós.


Sempre fui crítica em relação a tudo que tem a ver com esta cidade, mas fiz todos os trâmites de maneira rápida, dentro do sistema e jamais, jamais, ninguém me pediu um centavo, nem insinuou uma ''caixinha'' e todos foram extremamente gentis, não vi ninguém embaçando minha vida para tirar dinheiro e não paguei um centavo nos trâmites, nem passei horas esperando. E fiquei bem atenta, queria ver como era e não escutei ninguém sendo levado a entender que os trâmites seriam mais rápidos com dinheiro. 


E tudo foi feito de madrugada, horário de trabalho pesado, mesmo assim todas as pessoas que cruzaram meu caminho fizeram sua parte. No IML tive vontade  de fazer xixi e me segurei, pensando na pouca higiene do lugar, mas o frio me venceu e tive que usar o banheiro, fiquei surpresa ao reparar que provavelmente é mais limpo que o da minha casa.


Foi a primeira vez na minha vida que vi meus impostos de perto, um serviço rápido, eficiente e com pessoas preparadas para lidar com toda a carga que vai ali.


Não deixo de ser revoltada com o sistema porque  não acho justo ver poucas pessoas trabalhando tão duro em um serviço ingrato e mal pago, são essas pessoas que lidam com a parte mais difícil que deveriam ganhar mais.


Pode parecer insignificante a situação, mas quando estamos ali a coisa tem outra dimensão. Para mim entrar em um IML onde o corpo do meu pai estava e poder reconhecer ele no caixão, vestido, em uma sala, fez toda a diferença. Não fui obrigada a ver mais ninguém, nem meu pai mais fragilizado ainda e eu não dei dinheiro para que isso acontecesse, não puxei ninguém no canto e ofereci ''caixinha'' para que me evitasse o trauma de ver meu pai em uma sala cheia de cadáveres.


Nessas horas a única coisa que queremos é terminar tudo e sair dali correndo, até porque começamos a duvidar que vamos ter forças para o velório e o enterro.


Tudo o que me foi dito não aconteceu, ninguém me pediu dinheiro, ninguém me jogou para o fim da fila porque não dei ''caixinha'', não passei horas esperando no frio, não levei dias para juntar todos os papéis, ninguém me enrolou nem se aproveitou da minha dor, pelo contrário, as pessoas foram de uma gentileza que eu não soube nem como agradecer, antes de ir embora a única coisa que consegui fazer foi tirar os chocolates da minha bolsa e distribuir para quem estava ali, fiquei com a sensação que estava em outro país, a rapidez das coisas amenizou a dor naquele momento, teria sido terrível ficar horas no frio da madrugada esperando pelo corpo e com a sensação de ter que ''pagar'' para agilizar as coisas.


Lamento a greve de metroviários e tudo o que vem acontecendo nesta cidade, mais do que nunca tenho certeza que nós paulistas não merecemos isso.


Canso de escutar que o Brasil é corrupto por todos os lados e também cheguei a acreditar nisso, que éramos um povo corrupto, mas depois dessa experiência penso que somos melhores do que achamos e mais do que nunca vítimas de um sistema político que deveria ser tirado do poder nem que fosse a força.


Eu não conhecia a cidade onde um serviço público tão importante funcionasse, nunca tinha visto essa São Paulo de pessoas que ganham pouco e ainda assim prestam um excelente serviço e jamais tinha me sentido amparada pelo sistema, mas foi exatamente como me senti no momento que entrei para reconhecer o corpo do meu pai.


Lembrei de um amigo americano, que mora em uma das melhores cidades do mundo, ele me contou toda a dificuldade que teve quando sua mãe morreu. Isso veio à minha mente e pensei que se nos Estados Unidos um cidadão se sentiu irritado pela lerdeza e burocracia do sistema, imagine aqui no Brasil e em uma cidade que estava no meio de uma greve.


Foi a primeira vez na minha vida que respirei fundo e agradeci que tudo tivesse acontecido em São Paulo, uma cidade caótica, maluca, mas no momento mais difícil que passei o Estado não me abandonou nem me jogou em um covil de pessoas corruptas. Cidades são feitas por pessoas e nunca pensei que ia dizer isso, mas obrigado a cidade mais linda do mundo e as pessoas mais generosas que já conheci. Obrigado São Paulo.


Iara De Dupont 



3 comentários:

Marcelo Pantazis disse...

Meus sentimentos Iara!

C.Belo disse...

Fico feliz por ler isto! É mesmo muito bom quando a gente espera pelo pior e nada daquilo se concretiza, pelo contrário, nossas expectativas são superadas! Dá sempre uma pontinha de esperança quando cruzamos com pessoas que prezam pela ética!

Anônimo disse...

Eu sempre tive a opinião que mesmo a pior coisa/lugar/pessoa/sistema do mundo tem que ter algo que preste, mesmo que seja quase nada, por mais insignificante que seja. Essa é a da cidade de São Paulo.

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