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03 maio 2014

Tem dias que não dá...


Diante de uma situação de perda na família uma pessoa se aproximou de mim e de uma das minhas primas e nos disse:
-Não se preocupem, vocês são  mulheres fortes.

Já escutei isso antes e sou obrigada a dizer que me falaram isso muitas vezes. Não discuto a fortaleza humana, mas acredito que ela é mais comum do que parece e apenas por um ponto, diante das coisas ruins que outra alternativa nos resta além de tentar ficar em pé?

A questão de ser forte vem da educação que recebi, venho de família de mulheres de aço que nunca choram. E até achei bom durante um tempo, sempre fui expressiva, mas em relação a dor ninguém nunca soube o que eu carregava, ficar quieta e engolir em seco me parecia uma boa alternativa, pelo menos ninguém ficava sabendo.

Uma vez percebi que tão longe eu tinha ido, em uma visita ao dentista, em um tratamento chato ele me disse que tudo bem se eu reclamasse, todo mundo reclamava, mas eu me segurei, sei lá porque. No fim da consulta ele disse que às vezes é melhor expressar a dor no momento, porque depois parece que o corpo cobra e vem uma dor de cabeça posterior.

Mas sempre fui assim e é parte da maneira como foi educada, cercada de mulheres que não se expressam na dor. 

E lembro disse dia que me falaram que eu e minha prima éramos fortes, hoje fico pensando, tudo bem ser forte, mas quem disse que sempre somos?

Tem horas que não dá pra ser, simples assim. Não dá. Ter que ser forte não quer dizer que ''dá pra ser sempre'', às vezes é como estar no mar e sentir a água subindo, não é porque temos que nadar que podemos fazer aquilo ali na hora.

Ser forte  é um privilégio que nos acostuma de um jeito ruim, parece que sempre podemos ser e isso não é verdade. Tem horas que não dá pra ser, o corpo não aguenta, a mente se cansa e a alma aperta.

Não sou assim ou assado o dia inteiro, 24 horas, sete vezes na semana, não consigo ser forte o tempo inteiro. De vez em quando sou obrigada a envergonhar minha avó e chorar um pouco, às vezes penso que não sou tão forte como ela nem tão digna na minha dor.

Mas minha avó não gostava de ver as netas chorando, nunca deu bronca, mas chegava perto e perguntava de uma maneira doce e intimidante o que estava acontecendo. Talvez por isso nenhuma das minhas primas é manhosa, nenhuma chora na frente de ninguém, nem em velórios, todas escutamos desde pequenas que ''chorar não resolve nada''.

E a origem dessa história da minha avó é que quando ela tinha onze anos morava em um sítio, em 1910 e aconteceu a Revolução no México. Como ela morava em sítio eles plantavam as coisas, mas no meio da confusão passavam os militares e para evitar que os revolucionários tivessem acesso a comida jogavam sal na plantação e queimavam tudo. Aí o pessoal esperava os militares irem embora e tentavam recuperar o que dava, no meio disso passavam os revolucionários e para evitar que os militares roubasse comida faziam a mesma coisa, jogavam sal na terra. Isso provocou uma onda de fome nunca vista antes, porque não adiantava ter dinheiro, não existia no México um alimento para ser comprado.

Uma dia minha avó se desesperou e sentou no campo para chorar. A mãe dela foi lá e deu uma bronca, disse que chorar não adiantava nada e ainda ''cegava a vista'', tanto que minha avó estava sentada no meio do campo, à mercê de ser sequestrada por um bando de um lado ou de outro.

Minha avó ficou muito traumatizada depois desse dia, entendeu na pele que chorar não resolve nada e ainda pode nos cegar em um momento de perigo.

O que minha avó esqueceu de me dizer é que chorar traz um alívio e às vezes é a única coisa que podemos fazer. Não precisamos sentar no meio do campo, mas tem horas que só resta isso mesmo, sentar e chorar.

Não consigo ser como minha avó o tempo inteiro, mesmo que eu quisesse e e dá arrepios pensar na dor que ela deve ter aguentado desde pequena. Nesse aspecto sou mais desesperada, preciso de vez em quando chorar e berrar um pouco, mesmo que seja longe de todos.

Já tive amigo budista que me disse isso, para aceitar e transcender a dor. É, entendo, mas nem sempre posso, primeiro preciso aceitar que nem sempre sou forte o suficiente. Existem dias que não consigo isso, por mais que eu me esforce. Não dá. Nem todos os dias acordo herdeira da minha avó, de vez em quando acordo assim, fraca e sem vontade, longe da fortaleza dela.

E sei de cor o discurso do mundo e dos comerciais '' todo mundo tem que ser forte'', ''o mundo é dos fortes''. Ah, tudo bem, por mim fiquem à vontade, se eu devo explicações a alguém neste caso seria minha avó, mas não devo isso ao resto do mundo, nem a mim mesma. E talvez isso aconteça na minha vida de vez em quando, alguns momentos em que eu não sou tão forte quanto a situação exige. Não sei dos outros, mas acho que isso faz parte da minha história, de vez em quando dizer que a situação me superou e eu não posso lidar com ela. Ser forte é um luxo que não posso bancar todos os dias.

Iara De Dupont

Um comentário:

Anônimo disse...

Ninguém é uma fortaleza o tempo todo. Às vezes mesmo o mais forte precisa de um momento pra desabar, um peito pra chorar, braços pra sustenta-lo. E essa é a beleza da ambiguidade humana; sabemos tanto como é ser fraco quanto como é ser forte; como é ser o suporte de alguém com dor e como é precisar dele. Não podemos fazer diferente.

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