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06 maio 2014

O Brasil bipolar (pra mim já deu)


Desde que nasci escuto todos falarem mal do Brasil. Meu avô falava muito, ele era dono de uma gráfica, vivia apertado pelos impostos e tinha uns amigos no porto de Santos que faziam uns negócios ilegais e nadavam em dinheiro. Cansaram de chamar meu avô para ser seu ''sócio'', mas ele se recusou, era uma pessoa rígida moralmente e eticamente. Mas lembro muito dessas conversas na mesa quando era pequena, por que uma pessoa honesta e trabalhadora ralava tanto enquanto um ''bandido'' parecia protegido pelo manto da nação?

Por centenas de questões tive a sorte de sair e voltar ao Brasil algumas vezes. E sempre gostava de voltar, nasci em São Paulo e a cidade sempre me parece familiar, não me perco aqui.


E fiquei um tempo por aí, até que decidi que ia me estabelecer em São Paulo definitivamente. Fiz isso em 2000, mas uma depressão atravessou meu caminho e eu fui embora daqui. Voltei em 2005 e decidi ficar.


Já se passaram quase dez anos dessa decisão e nos últimos tempos voltei a questionar tudo. Pensei em voltar e resolver minha vida aqui, se tivesse filhos que nascessem no mesmo lugar do que eu. A cidade suja, porca e cinza não me fez mudar de ideia.


E bati de frente com todos os obstáculos possíveis. Encontrei um teatro interessante e atores ótimos, mas zero de verbas e péssimas condições de trabalho. Mesmo assim quis ficar.


Mas minhas certezas já morreram, agora não sei. Quando cheguei aqui comprei plantas, garantia que eu não me mudaria mais. Outro dia me peguei pensando em quem tem jardim, para deixar elas lá, caso eu mude de ideia.


Cansei do Brasil e estou exausta com essa bipolaridade nacional. É inviável morar em um lugar que não avança apesar dos esforços de todos, nada muda na política, nem na história. E talvez minha frustração se deva ao ponto alto que vivi o ano passado com os protestos, na minha ingenuidade acreditei que aquilo ali era o primeiro passo para uma mudança, mas foi o primeiro passo para andar pra trás de novo.


É um porre morar em um lugar onde não se pode confiar no futuro nem na economia. Tenho uma amiga espanhola que diz que o mundo está assim, falido, e não se pode confiar em mais nada, só que ela esquece que morou em um país, Espanha, estável há anos, eu nunca conheci isso, desde que nasci já peguei umas quatro mudanças de moeda e todos os  governos que passaram  faliram mais ainda o país.


Me vejo obrigada a perguntar se quero continuar vivendo assim, em uma instabilidade política e econômica o resto da minha vida, se quero trabalhar e pagar impostos em um lugar que nem considera meus direitos.


Cansei das piadas e me pego pensando coisas ruins, queria ver essa Copa do mundo explodir, que o Brasil fosse eliminado no primeiro jogo, mas depois eu lembro que com ou sem Copa a conta de toda essa loucura já caiu no nosso colo. Não tenho vontade de sair da minha casa para votar, o local é longe, é subida e não me sinto com a menor disposição, talvez se eu pudesse ir com um pedaço de pau e quebrar a urna isso me daria mais pilha, mas de resto nenhum candidato me interessa.


Toda essa mediocridade que domina o pensamento, a corrupção, a lerdeza dos serviços, a falta de futuro fez subir minha água e me perguntar o que faço aqui?


Ah, mas o Brasil é fofo! É um país meigo e todo mundo ama! Mas ele não me ama! Prefere dar empregos a estrangeiros do que a mim, cansei de ver tanta gente sem preparo se dando bem, inclusive em cargos políticos, o teatro me cansou com sua falta de verba e a televisão me irritou com seu nepotismo. Me sinto morando em um sítio, mas sem meu pedaço de terra.


E estou como meu avô esteve um dia, sem perspectiva de futuro. Cansei de acreditar que as coisas podiam melhorar, o Brasil é um país bipolar, as subidas têm a mesma violência que as descidas, de repente acontece alguma coisa e parece que vai melhorar e de repente vem uma descida que a gente não acredita. Tudo que parece que vai melhorar piora da maneira mais dolorosa. Do nada o Brasil entra em um estado de euforia, parece que as coisas vão acontecer e de repente muda, desce a um estado de profunda depressão e tudo parece igual ou pior.


Não quero morar em um país que virou campeão de linchamento, ajuda a quem não tem nada arrancando a pele de quem tenta ter alguma coisa, fica dando cobertura a imigrantes enquanto seus cidadãos morrem nas ruas e portas de hospitais. Não acho justo comigo, sou uma cidadã brasileira sendo tratada como se fosse de segunda classe, para mim o governo não faz questão de pagar de gatinho, mas com os outros sim. Nenhum projeto sai do papel, nada avança no país, nem uma estrada se abre, não vejo uma lata de lixo nova na cidade, nada, mas as contas sobem cada vez mais, a inflação ninguém segura e o país está na mesma merda que estava quando meu avô chegou aqui, em 1910.

Talvez meu avô certo, aqui não é meu lugar. Talvez insisti demais em um amor não correspondido, mas tudo acaba.

O grande problema para mim de morar no Brasil é esse, o amor de uma via. Eu gosto daqui, mas o Brasil não me corresponde. Sou apenas eu, cheia de impostos e deveres, mas o país não reconhece meus direitos, nem devolve em serviços públicos o meu imposto. Eu amo o Brasil, mas ele está se lixando para mim e meus esforços, pelo contrário, cada dia exige mais, o sistema aqui só aperta de um lado. Nada é bem administrado e sou eu que pago a conta três vezes. Não dá mais esse amor-bandido.


Não vejo nenhum sentido em preencher minha declaração de renda como se fosse sueca, mas vivendo como tailandesa. E me sinto exausta às vésperas de uma eleição, outra guerra entre dois partidos, se matando, mas sem nenhum projeto para o país. Essa falta de vontade política de não fazer nem o mínimo me irrita demais.


É como morar na fazenda dos coronéis, eles brigam, mas ao mesmo tempo se confraternizam e acabam no churrasco, enquanto tudo fica paralisado.


Quando eu voltei uma pessoa me perguntou o que eu sabia fazer e eu disse ''Só sei escrever e interpretar''. E a pessoa me respondeu:

-Olha, talvez o Brasil não seja um bom lugar para você.

Mais certo impossível. Aqui é terra de funkeira, de mulher que mostra a bunda, de filhos de famosos, coronéis ou netos de pessoas ligadas a produção de comida.


O Brasil é mesmo um puta país para quem planta soja, açúcar, tem criação de animais, tira a roupa ou é filho de famoso. Para o resto não é um país, é um calvário e eu não quero mais viver assim.


Fui míope quando voltei e errei, mas minha bandeira está no chão, não faço questão de carregar nunca mais. E o Brasil também não precisa de uma cidadã como eu, cansada, de saco cheio e se recusando a voltar a ''acreditar''.


Meu avô tinha razão quando dizia que os países andam em linha reta, caminham para a frente e o Brasil é um círculo de corrupção, sai de um ponto e volta sempre pra lá.


E círculos não dão em nada. Tá na hora de zarpar.


Iara De Dupont

6 comentários:

Anônimo disse...

Voce esta certissima. Eu me sinto em casa no Brasil,mas me sinto mais respeitada fora dele,claro que ha excesses e bla,bla,bla.
Quando penso em um dia escolher um país pequeno europeu ou a Australia como fez minha irmã eu me pergunto,é melhor ser mordomo em um palacio ou cacique em uma tribo pra quem não é da tribo? Eu prefiro ser mordomo em um palacio,ja meu marido acha mais satisfatorio ser cacique em uma tribo.Usando a cabeça ao invés do coração,qualquer pessoa com liberdade e vontade se manda do Brasil,não existe país perfeito e sem problemas,mas existem varios países com uma qualidade de vida maravilhosa ,mais justiça e menos exploração. É confortavel estar em casa,mas pode ser muito cruel e muitas vezes a pessoa não muda por medo,mas é sempre bom lembrar que existe passagem de volta,nada precisa ser definitivo. Esses dias eu estava lendo sobre pessoas que moraram algum tempo no exterior e acalentavam o sonho de voltar para a patria amada,resultado,voltaram e nao se adaptaram,alguns ainda estao tentando a duras penas e sofrendo com a violencia,impostos altos,serviços horriveis ,racismo e por ai vai. É muito dificil se contentar com migalhas sendo "filho" quando já se teve o melhor sendo serviçal.

Anna

Tadeu Diniz disse...

Iara, penso a mesma coisa... Mas pra onde eu vou? Nem faço ideia... Ontem pesquisei sobre morar legalmente na Italia... Sei la...

Alessandra Tofoli disse...

Desde que me conheço por gente ouço dizer que aqui é o país do futuro! Que futuro é esse que não chega nunca?

Anônimo disse...

É isso aí mesmo. Se tiver uma chance eu me mando e nem penso em voltar (talvez de férias ou em visita, mas pra morar não). País perfeito não existe, é claro, mas se é pra escolher prefiro não ter que pagar carro de luxo de corrupto enquanto fico sufocando no ônibus lotado em engarrafamento.

Anônimo disse...

Oras...é contra ajuda aos imigrantes... mas quer ser bem recebida nos países estrangeiros não? Eles só vem para cá por que as condições em seus países são ainda piores que aqui, e por que há uma demanda por mão-de-obra barata...por quê embora existam muitos brasileiros pobres, boa parte consegue um emprego melhor do que ficar 16 horas por dia costurando para lojasde roupas, inclusive grifes...ou num canteiro de obras ganhando menos que a lei pede, entre outros subempregos... um pouco mais de solidariedade... aposto que se fossem suecos, ingleses "bonitinhos" o tratamento seria diferente... Dé.

Iara De Dupont disse...

Não sou contra imigrantes, sou contra dar uma ajuda que o país não pode bancar, até tem dinheiro, mas vamos falar sério, eu moro perto de um refeitório da prefeitura e vejo pessoas desesperadas ali porque chegam para comer e não estão cadastradas e sabe quem se importa com isso? Ninguém! Já vi mulher com criança de colo chorando e quem deu bola? Ninguém! Mas se chegam imigrantes e o mundo inteiro está olhando, então todos pagam de gatinhos né?

E quanto a ser bem recebida em outro país eu não penso ir a um que seja como o Brasil, existem alguns países que podem ter imigrantes sem que isso arrebente os cidadãos. E não nunca falei em relação a aparência, isso não faz diferença, poderiam ser suecos, espanhóis, da onde fossem, o meu ponto é o mesmo, não dá pra receber eles agora.

E o que você menciona sobre trabalho não é trabalho, é escravidão.....

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