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09 abril 2014

Não acredito que o post é sobre ''isso'' ( vixi!)


Do mesmo jeito que sigo sentindo a rede invisível do machismo debaixo dos meus pés também vejo algumas luzes no caminho.


Uma delas é um dos assuntos que o mundo inteira considera ''tabu'', rara vez  vem à tona e quando isso acontece é constrangedor.


Algumas coisas que tenho escutado me enchem de esperança, o verbo é a primeira parede a ser derrubada, nada neste mundo mudou sem que antes o assunto tivesse sido jogado na roda e discutido a exaustão.


Cresci em um ambiente igual a de muitos, percebi logo que meus primos e irmão tinham uma vida diferente a minha. Uma vez durante um Natal, meus primos eram adolescentes, alguém colocou a travessa de peru na mesa e eles começaram a rir e fazer brincadeira de mau gosto, todas as piadas eram de cunho sexual e faziam referência a masturbação. Meus tios davam risadas e lembro das minhas tias avisando os ''meninos'' para evitar essa linguagem perto da minha avó, mas todos deram risada.


Um deles começou a dizer que o mais importante antes de se masturbar era sentar sobre a própia mão, porque assim a mão ''dormia'', ficava com aquele formigamento e ao se masturbar com a mão a sensação era mais intensa. Uma das minhas primas, a mais metida a sabe tudo e perfeita, disse que ia testar, nunca tinha feito isso.


O mundo caiu naquela mesa, primeiro o silêncio, o mais mortal de todos, depois meu tio, um frouxo que nunca deu uma bronca na filha pulou da mesa e disse um monte para ela, na frente de todos, mandou a moça calar a boca e parar de falar ''asneiras''. O clima ficou péssimo e ela que sempre foi uma rebelde mal educada abaixou a cabeça.


Ninguém disse nada para defender ela, éramos umas dez primas e cinco primos, mas ficava claro que naquela família apenas os homens se masturbavam.


E esse foi o ambiente que me cercou, até no teatro, lugar de tanta gente liberal e que questiona regras nunca escutei uma só palavra sobre atrizes que se masturbavam ou não, mas dos atores eu sabia tudo, eles faziam questão de falar, gritar aos quatro ventos suas técnicas. 

Uma vez trabalhando em uma peça um ator demorava horas no banheiro, antes da apresentação. Eu entrava com ele em cena e isso começou a me irritar, porque ele ficava muito tempo trancado. Um dia na minha ingenuidade sugeri que ele usasse um remédio  para prisão de ventre, achei que ele sofria de diarreia antes da peça, coisa muito comum entre os atores pelo nervosismo. Ele me olhou e disse:
-Tá maluca Iara? Eu fico no banheiro porque tenho aquela cena que beijo a Tati, então pra evitar passar vergonha no palco tenho que garantir estar bem vazio, fico lá batendo punheta até achar que já saiu tudo....

Dei tanta risada que quase estraguei a entrada dos dois e não fiquei constrangida porque escuto isso desde pequena.


Já depois encontrei uma amiga com o namorado e falei que estava feliz de ver ela namorando, depois de um bom tempo solteira e ela respondeu:

-Poxa, nem me diga, passei um ano sem namorado, já  estava ficando sem as impressões digitais!

Eu dei risada, mas fiquei constrangida, só mais tarde a ficha caiu e percebi a beleza  da frase dela, por ter dito isso a luz do dia na frente de um homem.


Outra amiga me ligou perguntando se eu conhecia algum eletricista, seu chuveiro quebrou, eu disse que ia ver, então ela me respondeu:

-Tô sofrendo demais sem água quente! Vou surtar, estou sem sexo, imagina agora se não posso entrar no chuveiro quente e me resolver sozinha? É capaz de eu sair matando!

E pode parecer bobo, mas falar assim de masturbação é uma  grande conquista, já passei dos trinta e nunca falaram perto de mim sobre isso, nem minhas tias, primas, mãe, avó, sempre foi um assunto ignorado como se não existisse e eu não tivesse o mesmo direito do meu irmão de conhecer o própio corpo.


Por isso quebrar a barreira e verbalizar mostra um avanço, mesmo que pequeno, mas está ali, falta muito, mas se um dia eu tiver uma filha vou conversar com ela sobre isso, não vai ser um tópico ignorado, até porque especialistas garantem que quem se masturba tem mais prazer com os parceiros, porque já conhece seu corpo.


Tudo que está por detrás desse silêncio da masturbação é terrível, as mulheres foram ensinadas a ignorar o corpo, que estaria a disposição apenas dos homens, eles que chegassem e fizessem o que quisessem.


Ainda assim acredito que a masturbação tanto feminina como masculina é problema da pessoa, é uma questão de foro íntimo, não acho ''educado'' sair falando disso, tanto para homens como mulheres, mas não se pode mais educar uma menina fingindo que isso não existe e rezando para que ela nunca pergunte sobre o assunto. Conhecer o própio corpo é o primeiro passo para se conscientizar de que é dona do seu corpo, ele não pertence ao Estado nem a Igreja, muito menos a um homem.


Falar de masturbação feminina pode parecer um assunto bobo, mas é uma parede que durante anos as mulheres não puderam atravessar, começar a derrubar os tijolos confirma que estamos na direção certa, o caminho é esse mesmo, é o verbo que começa a quebrar todos os mitos e construir uma nova consciência, talvez seja o único conhecimento que leve ao prazer rapidamente. E isso não pode mais ser exclusividade dos homens. 


Iara De Dupont

3 comentários:

Suzana Neves disse...

Olha até hoje só conheci uma mulher que tocou no assuntoo resto é mais ou menos assim.
Nao eu nao faço isso não
Espero que mude principalmente se estiver sozinha e não poder aliviar as tensões pelo o que tenho ouvido homens nao sao tao bons com o corpo feminino quanto eles pensam.

Nico disse...

Sabe Iara, eu tive que aprender a maior parte sobre sexo sozinha. Procurando em revistas e tal, vendo alguns filmes e claro, descobrindo no meu próprio corpo. Infelizmente minha mãe não me orientou nesse ponto. E eu nem posso culpá-la. Ela sofreu abuso sexual duas vezes na adolescÊncia, e quando tocou a vida pra frente só teve um homem de livre e espontânea vontade, que foi o meu pai, com quem ela se casou e se revelou um canalha da pior espécie.
Tentou fazer de tudo com ela, mas ela não aceitava. E algumas vezes até forçava o sexo com ela. O que uma mulher que passa por isso pode conversar com uma filha sem traumatizá-la? Ela nunca teve sexo por prazer. Triste isso, não? Então tive que aprender assim, procurando informações. Quando descobri o "toque", tinha por volta dos meus 16 anos, mas só mais tarde aprendi a chegar no ponto. Tem coisas que a gente não compartilha com ninguém, e eu acho que tratar esse assunto assim, na lata, sem conhecer direito as pessoas, é meio chato. o nome intimidade já diz tudo. E não só pra nós mulheres, pra todos. E com a minha família, continuo na mesma, de sexo não se fala. Fazer o quê, né?

Anônimo disse...

Não acho que todas as maes que nao falam de sexo com os filhos ou falam pouco o fazem por tabu,acho que nao tem muito o que dizer a nao ser se prevenir sempre e se respeitar. Cada geração sabe mais que a passada,nossos filhos hoje sabem muito,mas muito mais do que nós sabiamos na idade deles,a contribuicao que eu dou é não encher a cabeça de bobagens,tratar como algo natural mas privado como muitas coisas na vida.
Cris

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