ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

04 abril 2014

Instituto IPEA: números oficiais e direitos das mulheres nunca batem


A fronteira do México com os Estados Unidos é uma das mais perigosas do mundo, especialmente a Cidade de Juárez, onde mais de três mil mulheres já desapareceram, a maioria com um perfil parecido, trabalhadoras humildes de lugares distantes que saem de casa para as fábricas e somem no meio do caminho.


Alguns corpos foram encontrados e todos parecem ter tido a mesma morte, as moças são estupradas, mutiladas e mortas, algumas vezes aparecem com sinais marcados nas costas, mas ninguém sabe o que é, nem se atreve a dizer nada.


Em 2002, o governador de Juaréz resolveu dar uma coletiva na Cidade do México, vinha sendo pressionado pelo presidente americano e celebridades americanas, que queriam investigações e soluções para os mais de 700 crimes na época, hoje já passaram de três mil.


Eu trabalhava em uma emissora de notícias e não cobria essa parte da fronteira, mas aquele dia alguma coisa aconteceu e tive que ir no lugar do outro jornalista.


E foi desses momentos que eu nunca esqueci, era uma sala enorme em um hotel, cheia de parentes de vítimas, todos querendo escutar o que o governador ou prefeito, não lembro bem, ia dizer. Mas ele não apareceu e mandou uma senhora que era diretora da comissão do departamento de investigação. Ela leu um comunicado onde dizia que dos 700 casos de desaparecidas 99% já tinham sido resolvidos, as moças mortas foram fruto da violência doméstica, tão comum no México. A imprensa apertou, mas ela insistiu, alguém perguntou se os crimes tinham sido solucionados, então todos os maridos e namorados estavam presos?


Ela disse que não, muitos tinham bons antecedentes e na briga quiseram se defender e acabaram matando a mulher, isso caracteriza legítima defesa. Outro jornalista quis saber se todos os maridos e namorados eram então amigos, já que aplicavam as mesmas técnicas para matar e ela disse que essa parte era culpa da imprensa, as pessoas liam como umas matavam as outras e saiam copiando.


E depois se levantou e foi embora. Naquela hora as mães estavam aos gritos, berrando que suas filhas estavam mortas e os maridos não tinham sido os culpados e o governo dando coletiva para dizer que tudo estava sob controle, a cidade sofria apenas um surto de violência doméstica.


Foram uns minutos longos, estranhos, as pessoas chorando, gritando, tudo ali parecia fora de lugar.


Tinha uma jornalista americana do meu lado e ela quis confirmar o que o moça tinha dito, então 99% dos crimes de Juaréz tinham sido um problema de violência doméstica? Confirmei que sim e ela disse:

-Números oficiais e os direitos da mulher nunca batem, o que ela disse tem que ser lido ao contrário, ela quis dizer que 1% dos casos de Juaréz são fruto da violência doméstica e os outros 99% ninguém sabe o que é. Entendeu? Sempre leia os números ao contrário e você vai ter a resposta correta.

Disse a ela que estava preocupada, eu não via como escrever sobre aquilo, achei tudo uma farsa, ofensivo e ela respondeu:
-Não se preocupe querida, a realidade das ruas todo mundo conhece e ela derruba qualquer número oficial. Mesmo que o governo de Juaréz diga que não está acontecendo nada quem mora lá sabe que não pode mais sair na rua e todos estão vendo as mulheres desaparecer. Pode escrever do jeito que você quiser, as pessoas sabem que a rua não é a mesma coisa que os números oficiais com tratamento cosmético.


Só voltei a lembrar dessa história hoje, porque o Instituto IPEA assumiu seu ERRO em uma pesquisa, eles tinham dito que 65% da população brasileira afirmava que ''mulher que usa roupa curta merece ser estuprada'', ao corrigir o erro o número cai para 26%. Isso acontece depois de muita polêmica com essa pesquisa e por questionamentos que foram levantados, mas eu digo que entre 65% e 26% não existe nenhuma diferença na rua, as mulheres continuam sendo atacadas na mesma proporção e o Brasil tem um dos maiores números de estupros do mundo, que para piorar não para de subir.


Números oficiais não representam o que existe na rua, já dizia essa repórter americana. Não faz a menor diferença nada dito pelo IPEA, ainda somos um país menor onde os direitos da mulher não são reconhecidos e nem no transporte público ela consegue entrar sem ser molestada.


Todas essas teorias de bar, de que a pesquisa foi divulgada para distrair, para mudar o foco, não muda nada nem representa a voz das ruas.


Quem é mulher sabe do que estou falando, nada mudou, tudo continua igual ou pior.


Este país não precisa de números, sejam eles ''reais'' ou ''armados'', dá no mesmo, o que precisamos é reconhecer os direitos da mulher, investir na educação e apertar as leis para abusadores estupradores, o resto é pesquisa de bar, não serve para nada. Mulheres não são números, nem estatísticas, são vidas que merecem respeito.


Juaréz não enterrou três mil em uma estatística, em um papel, eram três mil vidas que tinham nome, identidade, trabalho e família. Cada mulher morta ali era uma cidadã, não era um pedaço de tijolo. E cada mulher estuprada no Brasil é um ser humano, não um número errado de algum Instituto.


E nem acredito nesse erro, porque vi reações tão violentas a pesquisa, tanta gente apoiando e dizendo que era isso mesmo, que ''mulheres que usam roupa curta merecem ser estupradas'', li tantas vezes isso que cheguei a duvidar dos números do IPEA, pensei que talvez em vez de 65% o correto seria  que 95% dos brasileiros pensam assim.


Mesmo com a correção não existe uma só mulher neste país que esteja respirando aliviada. Quem é mulher no Brasil sabe, os números mentem e não são reais, mas a violência que está nas ruas e em casa é bem real e ela existe para todas.



Iara De Dupont

Nenhum comentário:

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...