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03 abril 2014

Esse Brasil ''estudado'' me dá nojo


Um dos melhores conselhos que recebi na vida foi de uma professora de artes cênicas que disse:


-Não importa a situação, nunca perca a consciência de onde você está.

Isso saiu porque um ator resolveu levar uma faca de verdade para um ensaio, onde seu personagem realmente usava uma faca, mas era de plástico, parte da produção, ele achou que ficava falso e levou uma de verdade. No meio dos ensaios ele tinha que pegar o outro ator e encostar a faca no pescoço, quando o outro ator sentiu o metal da faca ficou gelado, a diretora interrompeu o ensaio e o mundo caiu. Foram tantas coisas ditas que precisaria de mil posts, por isso coloco apenas a frase final dela, que foi a que me marcou.


Não podemos nem no meio de uma piada perder a noção de quem somos e onde estamos. Não gosto de aula de moral nem de entrar no que alguns histéricos chamam de ''politicamente correto'', mas eu errei demais e sempre tive pessoas por perto para me chamarem a atenção.


E  tenho muitos anos escrevendo e mesmo assim erro muito, estou como muitos aprendendo, nem essas novas regras ortográficas aprendi ainda.


No começo do blog errei demais porque confundi este espaço com um caderno e meus rascunhos, joguei ideias, não me preocupei com a gramática, pulei frases e tive o descuido de postar algumas vezes de um celular sem revisar o texto antes.


Já tive muita gente que foi gentil e apareceu aqui delicadamente para me alertar sobre muitas coisas, especialmente o uso do português e não vi maldade, se eu escrevo quero um texto limpo, não cheio de erros.


Mas não perco a noção do privilégio. Cresci rodeada de livros, ganhava revistas e fui a bons colégios. Vários professores perceberam que eu gostava de escrever e me incentivaram. Sou o resultado de uma educação, não sou um ''produto do acaso'', nem posso chorar pitangas dizendo que aprendi a escrever em uma escola com chão de terra e sem livros. Na lógica mostro o que me ensinaram a fazer, não é milagre.


Por isso fico chateada quando vejo brincadeiras que saem sobrando. Diante da pesquisa da IPEA, onde 65% dos brasileiros disseram que as ''mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas'', uma jornalista criou um movimento, onde ela e várias aparecem segurando um cartaz dizendo '' eu não mereço ser estuprada''.


É válido e justa a resposta, mas ao mesmo tempo um grupo de pessoas reparou que tinha gente escrevendo errado a palavra ''estuprada'', colocando '' estrupada'' e resolveram tirar fotos segurando um cartaz que diz '' eu não mereço ler estrupada''.


O ponto é o seguinte, dá pra entender a frase, o que me pergunto é se quem começou a piada de dizer 

''eu não mereço ler estrupada'' tem noção de onde está parado?

Não somos a Suécia, acesso ao ensino aqui é um luxo e para poucos. Escrever bem exige muita leitura e nós brasileiros temos os livros mais caros do mundo, nenhum lugar no mundo vende os livros no preço que nos compramos. A escola pública é uma das piores e em termos de educação o Brasil está abaixo da Tailândia. O Brasil é um país com poucas bibliotecas, a maioria em péssimas condições, onde as pessoas vão aprender a ler e escrever? No muro?


Viu que a pessoa escreveu o cartaz errado? Poxa, deixa um recado, manda um e-mail, ninguém erra por querer, a gente erra porque não sabe e por que agir dessa maneira prepotente? Qual é o recado? 


Vale a pena tirar sarro de quem errou mesmo sabendo que esses erros são fruto de um Estado ausente na educação mais básica? Ah, mas a pessoa podia ter copiado de outro cartaz a palavra certa! Podia, se tivesse tido boas aulas de interpretação de texto e nisso eu posso subir em uma cadeira para falar sobre o assunto, cansei de escrever aqui ''coelho'' e algumas pessoas lerem ''cartola''. Cansei de defender alguém e ser atacada por um fã clube que jura que eu falei mal da pessoa.


Enfim, me deixa triste esse Brasil metido a erudito e acadêmico, onde a população se divide entre quem sabe escrever, frequenta ótimas universidades e quem não tem acesso a educação.


E vou mais longe, vale a pena brincar como assunto do estupro? Mesmo? Já vi foto de pessoas segurando esse cartaz da brincadeira que sei odeiam Rafinha Bastos, aquele que um dia fez uma piada sobre estupro, então essas pessoas não estão fazendo a mesma coisa que ele?


Que Brasil é esse que pessoas se divertem com a ignorância alheia diante de um ponto tão crítico, como a violência sexual e ainda se divertindo com os erros gramaticais? Somos tão retardados assim ou é má vontade da minha parte?


E amanhã alguns e-mails vão aparecer, me chamando de cri-cri, cheia de frescuras, repara em tudo, reclama até de uma piada.


Mas eu não reclamo da piada, reclamo do reflexo dela, que mostra que somos um país mentalmente miserável, onde uma pessoa em vez de corrigir outra prefere se divertir às custas, um país onde educação é um luxo usado para humilhar quem não teve acesso e para lembrar que não somos todos iguais, existem os que sabem e o que não sabem. Educação no mundo inteiro serve para unir as pessoas em uma direção, a melhora do lugar onde vivem, aqui ela serve para continuar separando, mantendo as diferenças sociais e a mentalidade de que não somos todos iguais, existe a sinhá e o coronel que foram ''educados'' e os analfabetos da senzala.


E se falamos de ''merecer'' tenho certeza que eu não ''mereço'' morar em um lugar tão elitista, provinciano e tão distante dos valores humanistas que acredito. Ainda penso que só a educação pode salvar um país, mas no caso do Brasil a educação é usada para criar uma separação entre a casa grande e senzala. E tem gente que faz questão de que o Brasil nunca supere isso. E são os ''educados''. Deus me livre deste lugar, eu não ''mereço'' morar aqui.



Iara De Dupont 



8 comentários:

Anônimo disse...

Ola!
Eu procure tomar muito cuidado quando comento em algum blog,escolho as palavras principalmente ao discordar porque náo quero que a pessoa se sinta atacada pessoalmente,tambem náo gusto de dar opinióes no que se refere a vida pessoal. O Problema é que quando nos indentificamos muito com uma pessoa temos a impressão de que conhecemos a fundo e de longa data aí começa a intimidade,hahaha,enfim Iara,voce é jovem e solteira,já pensou em morar fora,explorar alguns países,cidades pequenas,grandes metropoles? Isso nunca havia passado pela minha cabeça até mudar para o exterior a trabalho,senti uma falta enorme e ainda sinto,nenhum lugar do mundo sera a nossa casa,por enquanto eu penso assim,mas se eu puder escolher um lugar para morar o resto da vida não seria o Brasil,por mais que meu curacao queira muitas vezes se sentir em casa,eu escolheria um país que me tratasse com mais dignidade,que eu tivesse retorno pelo menos em segurança.

Anna

Joice disse...

Concordo muito contigo! Convivi muito com esses preconceitos lingüísticos (ainda uso o trema, pois sou contra a reforma ortográfica) na faculdade de letras. Eu sou graduada e pós-graduanda, mas sou uma pessoa classe D que teve a sorte de nascer com o cérebro privilegiado e conseguir entrar para uma universidade federal (quando não existiam cotas) mesmo tendo saído do triste ensino público brasileiro. Convivi a vida inteira com analfabetos funcionais, semi-analfabetos e mesmo analfabetos, meu pai estudou até a quinta série, minha mãe até a quarta, minhas avós eram analfabetas e um de meus avôs um autodidata que aprendeu sozinho a escrever muito bem... Sempre vi de perto o esforço das pessoas pra tentarem se expressar e valorizo muito cada tentativa, pois não é fácil, as pessoas têm vergonha, se sentem retraídas, com medo de errar... Eu sempre digo que, se deu pra entender a mensagem, está ótimo. Claro que, se possível, dou dicas, ajudo, corrijo educadamente, mas avacalhar, menosprezar, pra mim, é apenas mostrar que moramos numa várzea chamada Brasil, porque isso aqui é um país em eterna construção e repleto de mentes menores que uma ervilha, onde quem tem um pouquinho adora se gabar para quem tem quase nada e onde quem tem quase nada pisa em quem nada tem... Acho triste ver tudo isso!

Fátima disse...

Também me sinto assim. Sinto que o mundo evolui e eu não. Vejo as coisas acontecendo e minha vida parada, não importa o que eu faça para movimentá-la. Estou sem lugar. Talvez outros me vejam diferente, percebam alguma evolução,seja eu a chata. Porém uma coisa é certa, as coisas ao meu redor estão mudando rápido demais e eu não me vejo nessas mudanças. Isto não é bom.

Anônimo disse...

Acho que você estás endo extremista. Vale a brincadeira. Você está querendo fazer polêmica sobre uma coisa que é simples humor.
Eu estudei quase minha vida inteira em escolas públicas. Mas sempre fui esforçada, falo mais de 3 idiomas (muitos deles tendo aprendido inicialmente sozinha). Sou professora de inglês e português. E acho que, de fato, temos problemas muito grandes quando o assunto é "ensino" (e não "educação", que é outra coisa). Temos preconceitos linguísticos dos mais variados e cruéis. Principalmente com os povos nordestinos e sua forma de falar. E com a hegemonia dos sotaques do sul/sudeste como os mais corretos.
Mas enfim... são coisas diferentes. O Facebook ajuda muito em muitos assuntos, divulga ideias e ações muito importantes. Mas também há o espaço para o humor. E não reconhecer isso como humor, como algo idiota, risível, e que vai ter um prazo de validade curto é uma verdadeira ignorância.
Não vejo a atitude como exclusivista. Não confunda educação com ensino. A primeira é cultural. Já o segundo é didático.
Não te acho cri-cri (já antecipando o que você escreveu no seu post), você tem direito de falar e pensar o que quiser (desde que não ofenda ou provoque danos morais a alguém), mas está fazendo tempestade em copo d'água, pegando o ponto errado da discussão. É muito superficial a sua avaliação. E completando, mesmo não sendo o mote da sua postagem: eu sofri violência sexual, e não recebi com "horror" a brincadeira. É uma questão de autoesclarecimento.

Iara De Dupont disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Iara De Dupont disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Iara De Dupont disse...

Eu entendo perfeitamente teu ponto de vista, mas lamento profundamente saber que você é mulher e educadora e consegue ver ''humor'' em uma referência a violência sexual. Mas cada uma é cada uma.

Quanto a diferença entre educação ou ensino, uso a palavra ''educação '' constantemente por tudo que abrange, não só a questão do ensino, mas todos os fatores incluídos nela.

E sempre digo que a beleza do mundo virtual é seu tamanho gigantesco, existem todos os tipos de blogs e pontos de vistas,nenhum blog é definitivo nem bate o martelo, são apenas opiniões e todos temos direito de nos identificar ou não com o que está escrito.

E quanto a minha ''verdadeira ignorância'' é um ponto bem questionável, por que então a sua pessoa teria que me explicar o que é ''falsa ignorância''. Ou existe um ''falso incêndio''? Não sei, nunca vi, mas enfim, comentário anônimo sempre é complicado de responder....É bem fácil aparecer por aqui e dizer que sou isso ou aquilo, quero ver mostrar a cara....

sexta-feira, 04 abril, 2014 Excluir

Anônimo disse...

Eu não sei se você já viu esse vídeo, mas quando li o seu texto lembrei dele.

http://www.videosdodia.com/quem-descobriu-o-brasil-adao-e-eva/

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