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21 abril 2014

Abuelita, é por isso que eu escrevo.....


Minha avó era meio estranha, rara vez falava as coisas abertamente e de maneira clara, sempre dava voltas e abaixava o tom quando era alguma coisa importante.

A história dela é confusa e representa o horror que o México vive até hoje. Terra de indígenas, de pele morena e cabelo preto, foi invadido pelos espanhóis em 1519, alguns de olhos claros e a maioria de pele branca. Isso marcou uma coisa no inconsciente mexicano que é parecido ao brasileiro, os indígenas começaram a ter vergonha de sua pele, era sinal de que tinham perdido a luta e se tinham se tornado escravos dos ''brancos''.

Séculos já se passaram, mas no fundo e não tão fundo continua essa vergonha no ar, tanto que não existem pessoas com aparência ''indígena'' na televisão, no México sinônimo de sucesso é a cor da pele, quanto mais branca, mais amada é a pessoa.

Minha avó nasceu no campo, herdeira natural dos Mazahuas, uma tribo forte que enfrentou os astecas durante anos e foi a última a se entregar. Em teoria minha avó recebeu toda essa cultura, até que sua história começa a ser distorcida, quando é levada aos doze anos para uma ''fazenda'' de espanhóis para trabalhar de babá e começa a odiar sua pele morena. Se afastou do sol e começou a limpar o rosto com limão, depois de anos fazendo isso sua pele era mais branca que de uma boneca. E parece que suas histórias se misturam, eu escutei muitas, mas tento hoje separar quais eram as da sua origem Mazahua e quais eram as dos espanhóis que ela escutava e parecia querer desesperadamente ser um deles.

Quando chegou a vida adulta minha avó fugiu do campo e pegou ódio pelos animais e pela vida rural, ficou ''civilizada'', tinha passado por um processo de refinamento e virou uma dama.

Conversando com ela sobre comidas e viagens ela poderia enganar qualquer um, parecia ter o discurso na ponta da língua, mas se o assunto entrava em histórias sem explicação parece que o seu sangue mazahua falava mais alto e ela sabia muitas, cresceu no meio de lendas e contos que ninguém sabia a origem.

Um deles sua mãe que contou, dizia que assim como aprendemos a ver a natureza e entender que existem diversos tipos de peixes devemos perceber que nem todos que estão no mundo ''são humanos''. Minha avó dizia que contavam para ela desde pequena que alguns demônios usam a pele humana, essa era a explicação para o desaparecimento das pessoas, elas morriam por algum motivo e chegavam os demônios, arrancavam suas peles, vestiam e saiam por aí parecendo humanos.

E minha avó dizia que lá onde ela nasceu quando chegava alguém eles testavam a pessoa, pediam que pisasse em uma parte de terra meio molhada, para deixar suas pegadas. Minha avó dizia que a ''pele de outra pessoa sempre fica curta nos demônios'', então eles não podem tocar o chão, se eles não deixassem marcas de pés no barro era sinal de que não eram humanos.

Uma vez fui com ela visitar sua irmã, que nunca abandonou o lugar que nasceu, morava em uma casa de palha, sem luz, nem água. Ela não me conhecia e lembro que me pediu para pisar no barro e deixar minha marca ali, como eu conhecia a história fiz isso e disse para ela:
-Mas eu sou da família!

E ela respondeu:
-Isso é você que está dizendo, eu preciso confirmar, porque ''eles'' estão em todas as partes.

Eu perguntei como eu poderia saber disso na cidade, sem o barro por perto e ela me disse para sempre olhar pra os pés das pessoas e insistiu:
-É uma coisa quase invisível, porque eles sabem esconder, mas não conseguem encostar os pés no chão.

Na época vi tudo como folclórico, não tive a dimensão do que elas falavam, mas hoje depois de topar com vários desses demônios entendo perfeitamente o que querem dizer e minha tia-avó estava coberta de razão, eles estão por todas as partes, parece que se multiplicam.

Mas essa explicação simples e aparentemente sem provas me trouxe muita paz a minha alma. Eu via coisas demais acontecendo neste mundo e me perguntava '' Por que as pessoas são tão cruéis?'' , mas hoje sei que não são todos pessoas existem bilhões de criaturas neste planeta que circulam fingindo que são seres humanos, quando na verdade só Deus deve saber de que inferno eles saem.

Cada vez que lembro de alguma coisa que minha avó dizia lamento não ter tido consciência na época e ter dito que onde ela se envergonhava, eu me orgulho. O cabelo preto que ela tanto escondeu, eu faço questão de mostrar. As histórias que ela contava ''baixinho'' para que ninguém percebesse que era ''índia'', eu faço questão de contar aos berros. A essência que ela tanto negou é a que me salva hoje. O passado que ela tanto escondeu é o que eu mais procuro neste mundo, são nas histórias dela que achei um pouco de consolo para minha vida de ''branca''. E se posso ter uma vida um pouco melhor, sem tantas coisas me atormentando é porque lembro de muitas coisas que ela me contou, como essa de não acreditar que todos neste mundo são humanos. É o passado, é ela que me mantém de pé no meio da tempestade que passo. É sua história que marca e guia a minha. E prometi a mim mesma que vou honrar as palavras que um dia ela foi obrigada a engolir para parecer ''branca''. É por isso que eu escrevo abuelita, porque o que você calou eu vou escrever em todos os muros deste mundo.

Iara De Dupont

Um comentário:

Paula Santos disse...

Lindo texto! Deveria ser um prazer enorme ouvir as histórias da sua avó! Me entristece muito essa história de "embranquecer". Eu também reparei isso lá no méxico: as pessoas da tv são totalmente diferente das pessoas nas ruas. Nos demais países também tem isso de os loiros, brancos, terem destaque, porém no México foi aonde notei essa diferença de maneira mais gritante. Ninguém na rua parecia personagem do Rebeldes, por exemplo. Isso me deprime, me angustia demais ver essa porcaria de mensagem sendo passada pra cabeça das crianças e jovens. Você é índio e é feio, é errado. Certo e bonito é ser branco, cara de europeu, americano... Ai, que raiva me da!

Iara, vai contando mais as histórias "de índia" da sua avó! É muita cultura! Não deixa isso se perder!

Beijos!

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