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24 março 2014

Não existe sombra no patriarcado (nem sonhe em dormir nela)




Não tenho paciência para muitas coisas, uma delas é discutir feminismo com mulheres que alegam que isso já é ultrapassado. Eu deveria ser paciente e explicar, mas não entendo como uma mulher não sente o machismo na pele, como se isso fosse possível.

Uma conhecida minha adora essa discussão, quer  a todo custo me convencer que não existe tanto machismo no mundo e eu só vejo ele porque estou do lado errado, mas para muitas mulheres o patriarcado foi ''bom''. Então ela usa um argumento que me faz subir paredes, várias vezes já me disse:


-Você reclama do machismo porque não tirou nenhum benefício dele. Olha meu caso, eu me casei e esperei um tempo para começar a trabalhar na empresa da família para não atrapalhar meus irmãos, mas hoje mando mais do que eles. E olha seu caso, vai ficar a vida inteira escrevendo no blog? Sabe quantos livros já teria publicado se tivesse se casado com o dono de uma editora? Você usa o feminismo para esconder seus fracassos no mundo!

Ah, mas não é? Eu bato na tecla, sabendo que ela vem de uma família incrivelmente rica e só começou a trabalhar porque quis quando os filhos ficaram adolescentes, mas se revelou mais competente do que os irmãos farristas para administrar um império. Mesmo assim digo que é machismo e sua vida foi podada, ela acordou para o mundo depois de anos, antes disso era tratada como princesa retardada, tudo bem que aquilo ali funcionou para ela, mas negar o machismo é demais.


Existe uma falsa ideia de que as mulheres de classes altas não conhecem o machismo porque não trabalham em cargos menores, não usam transporte público e aparentemente podem se vestir como querem. Mas os números mostram que mais de 29% delas sofre agressões físicas dos seus maridos e namorados e são humilhadas verbalmente.


Machismo não é uma coisa que se possa evitar com dinheiro, é um fator cultural.


Fico irritada quando vejo uma mulher negando o machismo, porque todas sentimos ele na pele, de um jeito ou de outro. E eu já disse mil vezes a ela a mesma coisa, caso me cassasse com um dono de editora para publicar meus livros isso não seria casamento, seria prostituição, e isso não é liberdade nem igualdade de gêneros, pelo contrário, é a maior escravidão de todas.


O que me tira do sério é a pessoa estar ali acorrentada e achar que é livre, mal sabe ela que trabalha e trabalhou mais do que seus irmãos, apenas porque era mulher e tinha que provar sua competência e para que não fique a dúvida sempre conto para ela uma história que aconteceu com o amigo do meu tio. 

O rapaz foi se engraçar com a filha de um coronel, mas depois de um tempo não quis mais e terminou o namoro. Ela ficou inconformada e invadiu a casa dele com dois jagunços, que obrigaram o rapaz a ter relações com ela. Depois disso ela sumiu e apareceu uns meses dizendo estar grávida. O pai-coronel dela foi atrás do rapaz para que ele pudesse reparar o ''dano'' feito a moça, mas o rapaz era marrento e não quis.

Um dia saindo de um bar com meu tio os dois foram sequestrados, mas largaram meu tio no meio da estrada, já o seu amigo foi levado a uma casa isolada onde permaneceu por duas semanas preso. Apanhava todos os dias, ficou a água e pão e diziam que só soltariam ele o dia que ele ''cumprisse com a moça''. Um dia depois de muito apanhar ele aceitou e na hora os jagunços vestiram ele e arrastaram para uma igreja, onde a moça e seu pai esperavam. Eles se casaram, mas o rapaz começou a descontar todo seu ódio na moça e tanto batia nela que ela perdeu o bebê.


Meses depois de tanto apanhar ela pediu ajuda ao pai-coronel, que negou ajuda dizendo que ''casamento é assim'', ''homem tem mesmo que botar cabresto na mulher'', ''não podia desmoralizar seu marido'',
''ela ia se acostumar e aprender a não provocar o marido'', ''no começo a mulher apanha um pouco'', ''ele é o marido e sabe o que está fazendo''.

Um dia ele bateu tanto que matou a moça. Foi preso e logo solto, tinha a ficha limpa e vários atenuantes, enfrentou o processo e não foi condenado a nada.


A moral da história é que não existe sombra no machismo, não existe lugar seguro no patriarcado, não importa o dinheiro, mulheres não são protegidas debaixo dessa rede de arame enfarpado. Não adianta achar que porque é de família rica e casou com um homem mais rico ainda vai ficar imune ao fato de ser mulher. Ninguém fica, e a grande maioria das mulheres casadas com milionários e que não trabalham são vistas por eles como objetos e a boneca da hora, sofrem muito mais preconceito do que gostariam de aceitar.


No machismo somos todas iguais, talvez uma milionária não conheça os abusos de um transporte público, mas nem por isso está isenta de ser estuprada em outra circunstância, pode até entrar em uma universidade americana das mais caras do planeta e ser estuprada na primeira noite ali. Pode ser herdeira de milhões e não precisar do dinheiro de ninguém, mas vai ralar para ser respeitada por todos, como o resto das mulheres. E poder pagar um aborto não é liberdade, é apenas a certeza que nem nisso ela pode mandar no corpo, precisa fazer de uma maneira clandestina, nem que seja na melhor clínica do país.


Dinheiro protege de muitas coisas, mas não imuniza o machismo que existe nem a maneira que as mulheres são vistas no mundo. O que se deve evitar é começar uma separação de classes, pensar no feminismo para a rica, classe média e pobre, como se todas não passassem pelo mesmo. Feminismo é a luta pela igualdade e vai muito além de poder ter ou não um carro blindado, que pode servir de pouco se o marido bater nela.


Quanto a questão de casar ou não com um dono de editora é bem simples para mim, ela teve a vida na bandeja, entrou na empresa da família, queria ver ela e seu machismo no mundo real distribuindo currículos e batendo pernas em outros lugares. 


É verdade que se eu fosse casada com um dono de editora minha vida seria mais simples, mas ao mesmo tempo minhas palavras se dissolveriam no açúcar e perderiam sua força. Sozinha no meu feminismo posso levar mais tempo para chegar onde quero, mas é um caminho para mim mais certo e seguro, longe dos horrores do patriarcado e consciente da importância das minhas pegadas. Cada pegada que eu deixar na areia será um caminho aberto para outras que vem atrás de mim. Prefiro um caminho mais lento, mas com minhas pegadas livres, do que um com um marido e presa a suas convicções. É apenas disso que estou falando, a diferença entre fazer ''seu'' caminho ou seguir o que  o patriarcado quer.



Iara De Dupont


3 comentários:

Alessandra Tofoli disse...

Eu acredito que o machismo vai sobreviver enquanto existirem MULHERES machistas.

C.Belo disse...

Falando por mim (pq é só o que se pode fazer né) eu sinto o machismo no meu dia-a-dia muito dissolvido, inclusive, entre as próprias mulheres, umas contra as outras; e como, para muitas, o machismo é aquela agressão física, verbal ou emocional que vem DO HOMEM, elas acabam não vendo. Além disso, a cultura machista sempre se disfarça por detrás de ideais moralistas. Mais ou menos assim: "Ah, mas aquela vadia é uma puta que gosta de usar roupa curta, não é questão de machismo, é uma questão de moral, saber se valorizar". Sacou? As próprias mulheres não enxergam o machismo pq ele vem com essa base moralista que está entranhada na nossa sociedade.

E o que vc escreveu no post anterior, das mulheres estarem umas contra as outras, se digladiando, competindo, isso é sempre incentivado em todos os veículos de comunicação, de uma forma ou de outra, e para bom entendedor, é isso que perpetua o machismo, mesmo com diversos avanços nas causas feministas.

tavares disse...

Espero por um mundo sem machismo. E sem feminismo.

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