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18 março 2014

I.D.- Identidade Iara De Dupont


























Tenho uma prima que nunca apareceu aqui, não falei dela. De um certo modo sempre tive respeito por ela, não aparecia em nenhuma das minhas histórias familiares tensas.

Mas tenho lembrado dela nos últimos tempos, me pergunto se um dia entendeu meu ponto de vista, já que nunca escutou ele, apenas recebeu as gotas da fofoca.

Desde pequena ela era diferente, minha mãe dizia que era um bebê sério, levaram a diversos médicos e concluíram que era o jeito dela. Cresceu normalmente, mas é quieta, não fala muito e nunca se mete em nada, coisa heroica em uma família grande e briguenta. Quando era criança seus pais tinham a melhor condição econômica da familia e ela ganhava coleções inteiras de brinquedos no Natal e ficava ali, sentada ao lado deles olhando, não parecia emocionada nem feliz, enquanto todas as primas ficávamos babando com tanto brinquedo. Lembro dela ganhando a coleção inteira da Moraguinho e nem assim sorriu.

As primas gritavam, choravam, corriam, brigavam e ela nunca se meteu, jamais esteve no meio de alguma confusão.

No fim da adolescência ela tentou se aproximar um pouco de mim, mas tínhamos gostos diferentes e sempre achei ela meio fria, então não continuamos a amizade, mas pelo fato de sermos primas a gente se cumprimentava na maior boa vontade se nos encontrávamos pela vida, até porque aprendi a gostar do jeito dela e do fato de não se meter em rolos alheios.

A última vez que vi ela me senti bastante desconfortável, eu tinha quase dois anos sem ver e encontrei ela na casa da minha tia. Ela abriu a porta e sorriu, me puxou pela mão e disse:

-Você precisa conhecer minha filha..

Entramos na casa e de repente ela parou no meio do caminho e disse:

-Nossa, você nem conhece meu marido né? Estranho falar assim, meu marido, mas eu casei com o Jonas sabe?

Ela já tinha trinta anos e eu a conhecia desde bebê, temos a mesma idade e nunca vi aquele sorriso nem aquele tom de voz, ela parecia enfeitiçada, feliz, nas nuvens. Nem imaginei que ela fosse capaz de transmitir tanta alegria.

Conheci o marido, o típico pamonha e a filha, igual a milhões de bebês, mas estávamos sentados na sala quando ela começou a contar detalhes sobre a casa nova deles e eu escutava os suspiros na sala de todas as mulheres e a risada cínica dos homens. Aquele 'ahhhhhh'' cortava o ar.

Foi a primeira vez que vi a identidade da minha prima. Ela teve todos os recursos materiais na vida, estudou em colégios particulares, entrou na faculdade mais cara, na dúvida viajou para a Europa, voltou e terminou sua carreira. Ganhou um prêmio na sua área e parecia estar encaminhada nisso, vi ela em todas essas fases e jamais vi um sorriso no seu rosto nem os olhos brilhando.

Mas ela estava ali diante de mim com sua família e parecia dizer isso o olhar ''agora eu sou alguém''.

Eu lembro que me senti tão mal com tudo que acabei indo embora mais cedo. Naquele dia me senti um monstro, um alienígena, um ser fora de tudo e do planeta errado. Eu trabalhava em uma emissora de notícias na época e estava ficando com um colega dali, não tinha nenhum interesse sério nele e só pensava no trabalho e nos bastidores, esse trabalho me fascinava e esse mundo da minha prima me parecia o caminho mais curto para o suicídio, pensei que só um monstro não poderia entender porque uma mulher fica tão feliz com seu marido e filha.

Me senti uma leprosa na frente da minha prima, porque eu não queria estar no lugar dela, pensei que preferia me afogar na privada do que achar minha ''identidade'' no casamento. Eu queria me achar no mundo, construir minha identidade a partir do que eu sonhava e conquistava, não pelo marido nem pela filha.

No dia seguinte no meio de um almoço a namorada de um primo começou a falar sobre feminismo e me pediu uma definição do que seria uma ''ação feminista de um homem''.

Eu respondi brincando, mas na verdade pensava aquilo mesmo:

-Ação feminista seria se meu tio processasse minha prima. Ele pagou ótimos colégios, ela teve acesso a educação superior, começou a trabalhar e de repente larga tudo para se casar e ser mãe. Meu tio deveria processar ela e pedir todo o dinheiro de volta, porque foi investido à toa.

O tempo virou. Nossa, eu tive coragem de falar assim da minha prima, que nunca me fez nada? Tive. E não condeno quem é esposa e mãe, acho nobre, mas me pergunto quem são como indivíduos? A gente não pode se construir no outro, isso é impossível. E minha prima não tinha desculpas, não podia dizer que não estudou por falta de dinheiro, nem que casou porque estamos no século passado.

Não critico ela como mãe nem esposa, o que me assustou foi ver uma identidade construída na areia, porque maridos vão embora e filhos crescem, mas a mulher fica. O trabalho de uma mulher dentro de casa, criando filhos, tudo isso é uma das maiores coisas que um ser humano pode fazer, é um grande desafio ser mãe, mas eu sempre pergunto, quem era a mulher antes de ser a mãe e quem vai ser depois? Somos apenas destinadas a isso, ao casamento e a maternidade?

Esse episódio contribuiu horrores para a repulsa que a família da minha mãe sente por mim. Escutei que eu era ambiciosa e cheia de planos, mas apesar de ''fodona'' estava sozinha e nunca tinha levado um namorado para passar o natal na casa da minha avó. Minhas tias diziam que eu escolhia tanto homem que sempre ficava sem ninguém.

Tudo isso que foi dito depois ela ficou sabendo, foram contar a ela que eu tinha detonado seu casamento e sua filha, coisa que jamais fiz. Nunca mais falei com ela, mas tenho a certeza que um dia ela vai entender o que eu quis dizer.

Parte do meu sofrimento durante anos foi esse, eu não entendia porque precisava de um homem para ter identidade no mundo, eu só queria ser eu. Não tenho nada contra ter marido e filha, mas não quero que isso me defina nem seja responsável pela minha sensação de lugar no mundo. Sempre tive claro isso, prefiro me construir em cima dos meus erros do que em cima dos sonhos dos outros.

Minha prima é livre e fez sua escolha, tá certa ela. Tem mulher no mundo que vai se realizar se virar astronauta e tem mulher que vai se realizar se virar mãe, as duas estão corretas, nenhum sonho é errado. Mas eu não falo de sonhos, falo de identidades, assim como a astronauta não é apenas uma astronauta, a mãe não é apenas uma mãe, isso é apenas uma parte da identidade, não o total.

Talvez eu esteja errada em tudo que penso e faço, mas já se passaram muitas luas depois desse dia que encontrei minha prima e continuo pensando a mesma coisa, não quero me construir no casamento nem achar minha identidade como mãe, quero apenas minha identidade de Iara completa nas minhas mãos, na nas mãos dos outros e muito menos de uma convenção social.

É só isso que quero, minha identidade de Iara De Dupont.




Iara De Dupont

Um comentário:

Elisane disse...

Me identifiquei neste texto. Também não me vejo como uma esposa e mãe, estes títulos não me vestem de forma alguma. Sempre dizem que minha cabeça vai mudar, que um belo dia acordarei com vontade de ser mãe, acredito que este dia nunca chegará.Por que me vejo e quero, futuramente, ter uma carreira. Sou formada em direito e quero ter um emprego que me traga satisfação, e não acho que família te traz isto. Talvez seja, porque vim de uma família desestruturada que não me vejo entrando em outra. Porém, independente do que seja admiro a coragem destas mulheres. Tem que ter muito equilíbrio e esperança para ter família e especialmente filhos nos tempos atuais.
Abraços

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