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16 março 2014

"Eu não sou bonita'' .. mas não é mesmo, precisa judiar de um animal?


O cavalo usado na peça: Eu não sou bonita

Algumas coisas na vida nem escuto mais, prefiro passar reto e uma delas é o uso de animais em espetáculos. Não me interessa o argumento, a teoria, a explicação, nem que Jesus viesse a Terra para me convencer disso eu mudaria de ponto de vista, lugar de animal é na natureza, jamais em um palco.


Nos últimos tempos isso ficou bem limitado, porque animais exigem cuidados e isso custa dinheiro. O ano passado lembro apenas de duas peças, ''O mágico de Oz'' que usava um cachorro em cena e outra do Eduardo Sterblitch, que usava uma porca, não lembro de mais, mas foram dois trabalhos profundamente infelizes e ocos, é bem isso que fica, usar animais como recurso ''teatral'' parece ser o último gesto de desespero para conseguir um pouco de atenção.


Toda a vez que alguém coloca um animal no palco fica no mesmo nível dos circos e zoológicos. Para mim o teatro é um espaço tão sagrado que jamais deveria ser usado como lugar de dor e sacrifício para um animal.


Já sai de peça por isso, trabalhei duro nos ensaios por quatro meses e um mês antes da estréia o pessoal da cenografia chegou a conclusão que seriam colocadas umas galinhas em um canto do palco. A ideia era boa, o barulho delas seria interessante e estava ligado ao que a peça queria dizer, mas eu pensei que isso ia ser resolvido com galinhas de plástico e o uso de sons. Apoiei a ideia porque jamais pensei que alguém seria capaz de pensar em galinhas vivas. O dia que vi elas chegando eu quase tive um treco. Bati o pé, argumentei, falei e falei e no fim eu fui dispensada, as galinhas ficaram.


Mas não  fiquei com raiva, é uma questão pessoal, eu me recuso a estar no mesmo lugar de um animal que está sofrendo, isso pra mim cruza todos meus limites éticos. Tentei várias vezes com o diretor falar sobre isso, mas ele insistiu e as galinhas ficaram ali, sofrendo horrores.


E li sobre uma PEÇA que veio ao Brasil  e usa um cavalo branco em cena. Pra mim o argumento acaba ali, não me interessa a peça nem o que  a atriz tem a dizer, isso fica claro, quem sobe no palco as custas do sofrimento de um animal não tem nada a dizer.


Falei com um amigo sobre isso, ele garante que o animal fica em um canto, comendo, só dá uns pulos de susto quando a atriz grita. Mas meu amigo insistiu, o texto é forte, conta a história do abuso sexual que a atriz escreveu. Essa parte eu não entendi, a pessoa escreve uma peça sobre abuso sexual e coloca um animal em cena? Ou seja, ela sabe o que é ser abusada e coloca um ser vivo que não pode se defender? Ah, mas  foi colocado pela estética gótica e tal. Volto ao mesmo ponto, quem coloca um animal em cena não tem nada o que dizer, não importa que tão forte seja o texto ou importante, ele se perde, porque o ator que faz isso, o diretor que faz isso, já mostraram que não tem nada de importante a dizer, quem judia de um animal em nome de uma ''estética'' já deixa isso claro, essas pessoas estão sobrando no mundo, não deveriam jamais pisar em um lugar sagrado como um palco, porque sujam com sua energia um lugar de criação, não é lugar de tortura.


Quem já entrou em um teatro sabe que não é lugar para animal, às vezes nem para nós atores. Os teatros são escuros, não pode entrar luz natural, abafados para preservar o acústica, alguns são apertados e o ar ali não circula. Sou do grupo de atrizes que não gosta nem de ver criança fazendo peças, porque os ensaios são chatos, longos e muitas vezes dependendo do diretor, coisas pessoais vem à tona e não é ambiente para uma criança.


A minha tolerância em relação a tortura de animais é abaixo de zero, nem escuto os argumentos. Toda aquela coisa de que o cavalo está sendo bem tratado é bobagem, quem disser isso desafio a ficar em um teatro fechado sem sol durante dias, só pra ver se é tão bom assim.


Um amigo me garantiu que foi apenas uma jogada básica para divulgar a peça, a atriz sabe que no mundo inteiro as pessoas estão reagindo contra os abusos com animais e colocar um cavalo em cena garante pelo menos um barulho na imprensa. Para mim é a mesma moeda, usar um animal em nome de uma estética é a mesma coisa que usar para promover a peça, o animal está sendo judiado do mesmo jeito.

Mas coisas boas ainda acontecem e um grupo de ativistas entrou na estréia e deixou seu RECADO, parabéns a todos eles. Eu como atriz fiquei profundamente envergonhada que uma colega de profissão usasse um animal em cena. Defendo todas as expressões artísticas e teatro para mim é a base da vida, ver isso acontecendo me enche de nojo e vergonha, porque sempre que vemos animais sendo judiados a questão parece ligada a ignorância e o teatro é o oposto disso, o teatro deveria ser o conhecimento, jamais a perpetuação do sofrimento de um animal.


Me atrevo a dizer que mesmo o texto sendo bom e com certeza falar de abuso sexual é válido sempre, mesmo assim colocar o cavalo vai em contra de todos os valores humanistas do teatro. Isso não é teatro, pode ser no máximo um espetáculo infeliz.


Se algum ator precisa de um animal sofrendo para passar uma mensagem, está no lugar errado. Teatro é proposta, pensamento e diálogo, é uma arte tão grande que pode ter mil jeitos de contar a mesma história, mil recursos podem ser usados, mas um animal sofrendo jamais vai fazer parte de uma das artes mais nobres que o ser humano já inventou.



Iara De Dupont




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