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08 fevereiro 2014

Não sou a moça do sindicato


Compro água de garrafão e sempre peço no mesmo lugar. Hoje liguei de manhã e já eram mais das quatro da tarde e não chegava, conclui que não deveria ter dado tempo de entregar, mas uns minutos depois de pensar isso o rapaz chegou.

Comentei com ele sobre o que pensei, achei que iam entregar na segunda-feira e ele me disse- Pra você? Imagina, você é cliente preferencial, nem que seja a última entrega, mas a gente chega, não vai deixar a moça do sindicato esperando né?

Tive que dizer que estava me confundindo, eu não sou de nenhum sindicato e ele me olhou com ares de espanto  e me perguntou- Sério?

Quis saber de onde tirou essa história e ele logo responde:
-Ah, a gente entrega água aqui na sua casa há três anos e você sempre está perguntando para todo mundo porque não usamos equipamentos de segurança para carregar o galão, porque não protegemos as costas com uma faixa especial, onde estão as pinças para carregar os galões....meu patrão achou que você era do sindicato, então sempre que você liga ele manda entregar dizendo- Vai logo senão aquela dona me joga os direitos humanos em cima!

Fiquei sem saber o que dizer. O que acontece e minha parte da história é que sempre me surpreende ver meninos tão novinhos entregando a água, sem pinças para carregar, nem proteção nas costas. Também não acredito que venham empurrando os galões em um carrinho de rodas, em vez de uma moto ou bicicleta.

Não vou ser hipócrita, amo o luxo de ter água em casa, mas não me sinto bem fazendo parte de um esquema de exploração, acho que ninguém ia morrer se esses meninos tivessem os equipamentos necessários para facilitar um trabalho tão pesado. E sempre pergunto se tem carteira assinada, falo para procurarem seus direitos, ir atrás de tudo.

Essa mentalidade de exploração me tira do sério, acho que podemos viver em uma sociedade melhor sem ninguém morrer para que isso aconteça. A água seria mais cara, mas é justo pagar  por isso, prefiro pagar mais do que saber que esses galões machucam as costas de meninos que ainda nem se desenvolveram.

E a cabeça do patrão deles é o retrato do Brasil, acham que mesmo que quem pergunta por um material de segurança é alguém do sindicato ou  dos direitos humanos, como se isso fosse tão extraordinário assim.

Fico verde quando vejo como essa mentalidade de escravidão ainda não foi superada. Moro perto de um supermercado onde as moças do caixa são obrigadas a pedir licença para ir ao banheiro meia hora antes. Uma vez uma delas estava me atendendo e percebi que era uma moça grávida, achei alguma coisa estranha ali e ela me disse que precisava ir ao banheiro, mas ainda faltavam vinte minutos para ter a autorização, chamei o gerente e fui informada que a autorização da moça para ir ao banheiro tinha sido negada, porque o supermercado estava lotado. Fiquei horrorizada, a moça começou a passar mal e uma senhora que era cliente e estava na mesma fila que eu, com certeza foi Deus que mandou, pegou a moça pelo braço e disse- Sou advogada, vou te levar no banheiro e depois vamos a uma delegacia, porque você vai prestar queixa e processar este lugar!
O gerente adorou a ideia, se via na cara dele que não estava de acordo com as regras do lugar, mas a moça foi para a delegacia, eu me ofereci de testemunha, mas não precisou.

Não dá para viver assim, em uma sociedade que os privilégios de uns poucos pisoteiam os direitos de todos. Não se pode negar o direito a alguém de ir ao banheiro e muito menos de uma funcionária grávida porque o supermercado está lotado e cheio de clientes ricos e nervosos.

Não é uma questão de deixar ninguém sem emprego, é apenas de respeitar os direitos de todos e dar os elementos necessários para que a pessoa possa trabalhar com dignidade e sem sem machucar.

Expliquei para o rapaz da água que não sou de nenhum sindicato, apenas chamei a atenção para uma coisa que não está certa. Ele me olhou e respondeu:
-Você tem razão, mas quem manda ali é o patrão.

É, quem manda ali e no país inteiro é o patrão mesmo, por isso estamos na merda, um país ainda se arrastando na escravidão e nas  suas consequências. Mas quem se importa com equipamentos de segurança? Faltam menos de duas semanas para o carnaval e a Copa vai ser aqui! Então tá bom! Me desculpem por existir.


Iara De Dupont

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