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04 fevereiro 2014

Gordofobia: é disso que estou falando!

As lindas fotos de Fabiana Karla
Tenho um professor que sempre me dizia para pensar tudo na vida em termos de matemática. Nunca gostei da matéria, então não dei bola, mas hoje entendo que matemática é uma filosofia de vida, os números não enganam ninguém e são a base de um bom argumento.

Quem me conhece sempre me pergunta porque não trabalho em televisão e sempre digo que não trabalho porque não conheço ninguém lá dentro e meu tipo físico é condenável e rejeitado.


Então as pessoas dizem:


- Tem certeza Iara? Você já tentou? Porque conheço atrizes gordinhas, ontem mesmo vi uma na televisão!

Explico que as poucas que existem começam como comediantes (não é meu caso) e sendo alvo de burlas de todos, demoram para se estabelecer, quando conseguem entrar.


E tem gente que me diz:


-Acho que você não se esforça, se quisesse poderia fazer televisão!

Fico lá pensando se a pessoa é médium, se conhece meu esforço, se sabe o que são anos e décadas ''tentando''. Ninguém está na minha pele para saber o que eu ''tentei'' ou não. Ninguém sabe o que já passei ou deixei de passar.


E hoje umas fotos publicadas  pela atriz Fabiana Karla confirmaram minha matemática. Ela  aparece de biquíni ao lado de Cacau  Prótasio, Mariana Xavier e Simone Gutierrez. As fotos são lindas e foram usadas por elas como protesto, lutando pelo direito de exibir seu corpo sem serem criticadas.

Vi as fotos em quatro portais e a maioria dos comentários é de péssimo gosto e de muita agressividade.

Mas o que me interessa na questão é a parte matemática, especialmente me dirijo as pessoas que sempre me dizem que sou uma conformada e nunca tentei entrar em televisão.


Nas fotos aparecem quatro atrizes da Globo, nenhuma delas foi protagonista, sempre são personagens secundários e em todos eles o peso sempre é  mencionado. É só lembrar dos personagens e reparar que sempre eram tratados com burla.


E elas são quatro funcionárias de uma empresa que tem mais de duas mil atrizes cadastradas, inclusive eu. E são mais cinco mil atrizes registradas no Sindicato de Atores apenas em São Paulo, não tenho o número do Rio de Janeiro, mas deve ser um número aproximado, umas três mil atrizes, então se somamos duas mil cadastradas, mais umas nove mil dos dois sindicatos e talvez outras regiões do país temos doze mil atrizes no Brasil desempregadas ou pelo menos fora da televisão, porque teatro não é emprego nem paga salário, é uma questão de amor. Talvez dessas doze mil atrizes, duas mil sejam gordinhas, é um chute, podem ser mais ou menos e apenas quatro tem emprego.

Apenas quatro! Apenas quatro atrizes gordinhas têm emprego em televisão! Isso não é gordofobia? Isso não mostra como o mercado é fechado e preconceituoso?

Se isso não mostra o que tenho anos dizendo, eu não sei de mais nada. Conheço pessoas que se matam para entrar em um vestibular, de 120 vagas e mil candidatos imagine então um vestibular com quatro vagas para  duas mil pessoas. É mais difícil entrar na Globo sendo gordinha do que passar em primeiro lugar no vestibular de Medicina da Usp. 


Quem diz que eu não tento ou não me esforço, jogo os números na cara da pessoa e digo mais, se quatro atrizes se sentiram na necessidade de tirar essas fotos e fazer um protesto é porque sabem do que estão falando. Devem conhecer muito bem o que eu conheci rapidamente, diretores olhando de baixo pra cima, figurinistas reclamando de atrizes gordas e textos humilhantes.


Não é teoria, nem suposição, muito menos achismo. É um número que mostra a realidade, quatro atrizes gordas empregadas em uma emissora de centenas de atrizes, quase o mesmo número de negros em uma novela, às vezes nem isso, como ''Amor à vida '' que não tinha nenhum ator negro no elenco e depois de tantas reclamações deu participações pequenas para três, mas isso só para sossegar os protestos e não dizer que não fez nada.


Quem me perguntar de novo porque eu não trabalho em televisão se pergunte a si mesmo porque  não passou no vestibular de medicina em primeiro lugar.


Ah, mas elas conseguiram, você também pode! Nunca disse que não, mas em números tão apertados a sorte conta mais do que parece e em um país preconceituoso como o Brasil, sorte conta muito, já que o esforço pessoal de cada um não vale muito.


São quatro atrizes com emprego, isso só prova o que venho dizendo, a televisão odeia os gordos e só quem assiste pode mudar isso, os diretores e roteiristas não vão se mexer por isso.


Quem assiste de um jeito ou outro está apoiando o racismo, sexismo e gordofobia. E pode não fazer diferença, mas se um dia a filha quiser ser médica e não conseguir passar em um vestibular por um número apertado de lugares, vai entender o que eu digo. 


O sistema deve ser aberto a quem estuda e trabalha, se a pessoa quer medicina e estuda, então tem que ter vaga disponível, não pode ser um sistema abortivo, que aceita apenas um por vez e também não se deve dar ou não um emprego de atriz conforme o ''peso e cor '' , isso é um fator de terceiro mundo, onde não se valoriza o esforço da pessoa, em qualquer país mais avançado as pessoas conseguem as coisas porque trabalham por elas, não porque são brancas e magras. 

Quando um país se comporta como o Brasil, separando as pessoas por cor, peso e ''sorte''  a porta do preconceito se abre e chegam todas as coisas ruins do mundo, ficamos vivendo em uma sociedade que não tolera o negro, o gordo, o gay, quer filtrar todos eles e faz o que pode para os manter longe da televisão. Por isso somos uma sociedade atrasada e medieval, porque ainda não valorizamos as pessoas pelo o que elas são e pelo o que trabalham, ainda dividimos tudo por cor, peso e condição sexual, como se fosse uma feira livre. E ainda tem gente que não entende porque este país não sai do lugar.


Iara De Dupont


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