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05 fevereiro 2014

A noite que tuas pernas se enroscaram nas minhas...

Codi, minhas pernas ainda estão enroscadas nas tuas..

Hoje pensei em te ligar. O dia era quente, abafado e quis te escutar.
Mas lembrei da nossa última conversa, quando você me contou que tua filha caçula tinha se jogado na piscina usando os óculos da mãe. Usei toda minha hipocrisia para dar risada e dizer que aquilo era uma graça, quando por dentro eu pensava que nada disso me interessava e nunca mais falei com você.

E no calor de hoje lembrei de você na porta me dizendo que eu ia demorar para encontrar alguém como você. Tinha razão. Já se passaram doze invernos e meus pés ainda caminham em um direção que não me levou a ninguém como você.


Pensei em vários motivos para te ligar, mas não achei nenhum. Talvez te interesse escutar sobre a camiseta da tua banda favorita. Não fiz de propósito, teu banheiro era sempre um nojo e eu jogava água sanitária antes de qualquer coisa, aquele dia não vi a camiseta no chão e ela se manchou. Foi a única vez que te vi bravo, puto da vida comigo, dizendo que ia me jogar de volta ao Rio Solimões. Sem você saber rodei a cidade inteira procurando outra igual, mas até hoje nunca achei, ainda lembro dela e penso que um dia vou comprar e te mandar.


E talvez nunca te agradeci depois daquele velório, quando você se aproximou e me disse que a única coisa que poderia me oferecer era tua mão para que eu apertasse quando precisasse. Foi a coisa mais linda que alguém já me disse, tive vontade de chorar de alegria, pensei naquele instante que você era todos meus sonhos feitos realidade.


Mas achava tua família um porre. Teu irmão e sua namorada, os moderninhos. O dia que a gente levou eles para irem a um cruzeiro pensei que seria ótimo se o barco virasse. Tua mãe não gostava de mim, você sabe, escutou quando ela me perguntou se casando eu ''largaria essa vida no teatro''. Teu pai, aquele que você não suporta sempre foi gentil e generoso comigo, até quando meu carro quebrou foi ele que me ajudou.


Aquela tua mania de jogar chantili em todas as sobremesas me dava enjoos. Tua sala foi o lugar mais bagunçado que já conheci. Sonhei milhões de vezes em jogar tua coleção de videogame no lixo ou colocar fogo. Eu morria de tédio com tuas intermináveis explicações sobre todas as funções do computador. Aquele poster do Steven Jobs na tua casa me fazia pensar que você era meio babaca. Você falava o tempo inteiro de gênios do computador e eu fingia que estava dormindo. Me desculpe.


Tua ingenuidade me tirava do sério, cansei de te avisar que iam puxar o teu tapete na empresa. E quando aconteceu te escutei em silêncio, mas depois chorei muito de raiva, até hoje  me pergunto porque eu não insisti mais ao te dizer que aqueles ''teus colegas'' estavam armando. Mas você tem que entender meu lado, eu queria que você gostasse de mim, não queria ser aquela namorada chata que insiste em avisar que teus colegas de trabalho não prestam.


Eu não entendia tua resistência em ler um pouco. Cansei de te comprar livros, até que descobri que você na maior cara de pau voltava na livraria e trocava por livros de informática. Lembro do dia que eu fiquei sabendo disso e você sentando na mesa da cozinha ficou rindo do meu drama. Eu tinha te dado um livro de Oscar Wilde e você trocou pela biografia do Steven Jobs! E com a maior cara lavada ainda me disse - Mas Iara, você quer me transformar em um intelectual? Não tá bom pra você que eu te amo? Quer mais ainda? Quer um intelectual te amando?

Não pude responder, aquela parede laranja da cozinha fazia um reflexo no teu rosto e nunca te vi tão lindo, era impossível dizer mais alguma coisa. Sempre me parabenizo por ter te beijado loucamente essa noite.

Assumo que foi bobo da minha parte escrever no teu espelho com meu batom que você era ''viado''. Mas só fiz isso porque chegou aquela encomenda de um novo computador e você ficou como criança com brinquedo novo, me senti ignorada, rejeitada e resolvi escrever isso no espelho. E nem era o que eu queria fazer, minha vontade naquela hora era pegar o martelo e descer no computador.

No dia seguinte fingi que não li o que você escreveu no espelho, onde eu tinha colocado ''viado'', embaixo você colocou '' mas você adora''. Dei muita risada, mas fingi não ter lido nada, teu espírito de menino me irritava e eu sempre fui uma mal humorada.

Você me jurou amor eterno e eu acreditei. Eu via aquelas montanhas cobertas de neve e pensava que a tua cidade é a mais linda do mundo. Lembro daquela lenda que dizia que pessoas que nascem ali tem uma parte do sangue congelado. Te disse isso, você deu risada e respondeu- Então vem e descongela, faz virar água!


Não sei se você ficou com a lista dos nomes dos filhos que íamos ter. Não fiquei com nada quando tudo acabou, na verdade fiquei. Antes de sair eu sabia, de um jeito ou de outro, que você não voltaria e peguei uma camiseta tua, que guardo até hoje. Muitas noites dormi com ela em cima do meu travesseiro que secou minhas lágrimas.


Teu cabelo preto, liso, naquele dia onde as montanhas estavam na nossa frente é uma das lembranças mais lindas que eu tenho.


Mas tua mania de músico de cantarolar o dia inteiro me irritava. E tua risada foi a coisa mais doce que já escutei. O apelido besta que você me deu cansei de escutar no telefone, em uma mensagem que eu guardei. E até hoje me derrete ouvir tua voz. 


Mesmo assim sei que nunca teria dado certo. Você era um meninão no corpo de um homem, tentando dar certo com uma velha no corpo de uma mulher.


E para que ligar? Que saudades foi essa? Foi saudades sim, saudades de quando tuas coxas encostavam nas minhas e as pernas se enroscavam. Seria capaz de subir a Cordilheira dos Andes para sentir isso de novo, faria o gelo derreter e virar água só para te ter aqui mais um dia.


Li que pelas mudanças climáticas a neve da Cordilheira está derretendo cada vez mais rápido. Mas não são as mudanças no planeta que fazem isso, é minha saudade, que tenta derreter tudo e voltar para aquela noite, onde as montanhas viam a gente de longe. A noite que tuas coxas encostaram nas minhas. Saudade de tuas pernas. Saudades da cidade coberta de gelo que abandonei para caminhar no inferno do deserto.


Mas não me ligue, não me procure, não me chore. Não tenho saudades de você, tenho apenas das tuas coxas nas minhas. 

Codi, a  noite que minhas pernas se enroscaram nas tuas olhei aquela neve pela janela e pensei que nossos passos seriam os mesmos e o faríamos o caminho juntos. Soube que estaria presa ali nas tuas pernas por muito tempo. Ainda estou.

Iara De Dupont

5 comentários:

Suzana Neves disse...

Belo texto ,belas pernas rs

Elisane disse...

Iara, tenho que te parabenizar pelo belíssimo post de hoje. Tenho te achado bruta em alguns comentários, e isso não é uma critica, os anos nos embrutece mesmo. Mas hoje te percebi como uma mulher que já amou muito e o amor não trouxe nada de bom. Você não é a unica ...

Iara De Dupont disse...

Obrigado Elisane! É verdade a sua observação, nos últimos tempos eu tô que tô mesmo! Mas o que a saudade não faz né? Até amolece a gente, mais do que o calor...

Sú, valeu viu? E ainda te conto que existe gente no mundo que não gosta de um par de coxas grossas. E ainda reclama que eu uso o elevador, disse o seguinte- Se você deixar de ser preguiçosa pode subir as escadas e afinar a perna né?

Ah, tá que eu quero afinar a perna! Eu quero um namorado que adore coxas grossas........

Iara De Dupont disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marta SP disse...

Ai,chorei me lembrei da sensacao boa de enroscar as pernas nas da pessoa q gostamos saudade gostosa

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