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31 janeiro 2014

Meu coração é gordo


Recentemente passei por uma situação engraçada. Estava na fila das Lojas Americanas quando comecei a conversar com a moça na minha frente e acabamos descobrindo que as duas temos blogs e uma segue a outra. Fiquei lá conversando e de repente ela disse- Achei que você era mais gorda!


Esse ''achei que você era mais gorda'' tem sido constante aqui, tanto que até fiz vídeos falando disso. Já me pediram para colocar fotos, falar meu peso e escrever meu IMC.

O ponto em relação ao meu peso e ao fato de eu não ter mencionado é que nunca foi estável, sempre esteve subindo e descendo, em um jogo misterioso que eu nunca entendi, jamais consegui decifrar o que me engorda ou emagrece. Já fiz milhões de exames e escutei todo o tipo de explicação, mas nunca foi além disso.

E deixei de me importar com o peso em alguns momentos pelo desgaste que me causa. Quem me conhece sabe disso, pode jogar qualquer assunto na mesa que eu levo na boa, mas se entrar alguma palavra sobre dietas, peso, emagrecimento, o tempo fecha na hora e começa a discussão.


Só depois de muito conversar com uma amiga eu entendi que meu peso ia ser um problema mais longo do que eu previa, porque o meu coração e minha mente são gordos, não importa o peso na balança.


Sem pensar olho a comida no prato e calculo as calorias, evito coisas e dou umas dribladas, é minha mente de gorda trabalhando sem parar.


Já me disseram para fazer algum tratamento psicológico para me livrar de todos os pensamentos gordos que tenho, até cogitei a ideia, mas percebi que não ia adiantar de nada, já que meu coração também é gordo.


Até os seis anos eu era cheinha e alta, mas depois fiquei gorda e começou um calvário, eu não entendia o que acontecia ao meu redor e algumas situações presentes me levam a perceber que a ferida é maior do que parece.


Costumo caminhar em um parque perto da minha casa  e um dia desses vi uma menina gordinha sentada no chão chorando. Eu não aguentei e fui lá conversar com ela, que me contou que queria brincar no balanço, mas as outras crianças não deixavam, dizendo que ela ia quebrar o brinquedo pelo peso. Peguei a menina pela mão e fui lá nos brinquedos, chamei todas as meninas e expliquei com  a maior paciência que esses brinquedos aguentam o peso até de um adulto, as meninas me olharam desconfiadas e uma delas cheia de marra me disse- Tia, ela é gorda e por sua culpa a gente vai ficar sem o balanço!


Então apareceu a mãe da gordinha, dizendo que era muito bem feito a situação da filha porque ela não queria emagrecer e isso tinha suas consequências, como ficar sem brincar no balanço. Respirei fundo e expliquei a mesma coisa, o balanço aguenta o peso da criança.


Me virei e vi os olhos da menina, não adiantava o que eu falasse, o estrago estava feito. Vi ali a dor, a impotência, o dia no parque perdido. Lembrei que quando eu tinha oito anos fui com minha classe ao Playcenter e alguém me disse a mesma coisa, eu ia quebrar os brinquedos. Então me afastei e fiquei o dia inteiro sentada no banco, esperando todos acabarem de brincar.


A menina marrenta se virou e me disse- Tia vai correr, você não entende nada de brinquedo de criança!


Tentei dar umas voltas no parque mas não consegui, o olhar da menina gordinha ficou na minha mente, puxando todas as coisas que vivi e de repente me vi lá chorando, sem motivo nenhum, não era minha filha, não era meu parque, não era meu balanço, mas a situação me machucou como se eu tivesse tido o acesso negado ao balanço. E isso só aconteceu porque meu coração é gordo, ficou parado nesses anos de humilhação, quem passa por isso na infância sabe o que eu quero dizer.


E não é mágoa da vida, nem ressentimento, é apenas dor.

Milhões de situações se repetiram na minha vida ao longo dos anos, depois eu cresci  e não achava roupa, virei adolescente e não tinha namorado, cada época vinha com um faca no pescoço apenas porque eu era gorda.

Por isso hoje não importa meu peso, se eu subo, se eu desço, se eu mantenho. Tenho plena consciência que nunca vou fechar as feridas, que em um incidente em um parque voltam a se abrir. E não é questão de carregar ódio ou desejos de vingança, é apenas o que ficou. Também fraturei a perna quando era criança e até hoje se encostarem na parte que quebrou meu corpo reage na hora, memória da dor que sentiu, imagina então uma alma que é rasgada apenas pela crueldade dos outros. Como se costura uma alma?


Não tenho o menor interesse em divulgar meu peso nem transformar meu blog em um diário de reeducação alimentar, a única coisa que sonho em relação a ele é que as pessoas possam ler e entender as consequências da gordofobia, a dor que se provoca apenas pelo preconceito. Queria que todas as pessoas que fazem piadas com os gordos pudessem ver minha alma e o estrago que foi feito à toa, apenas porque vivemos em uma sociedade que acha engraçado judiar dos outros.


Nunca quis mostrar meu corpo, nem meu peso, mas jogo na roda minha alma, de coração aberto, que vejam a minha luta interna ainda, depois de tantos anos, para não chorar mais à noite e todo meu trabalho duro para me convencer que não sou mais aquela menina de oito anos que todos humilhavam na escola. É um estrago de décadas e eu posso dizer o que aprendi, peso eu posso perder, eu posso ganhar, mas nestes anos todos, nesta jornada, ainda não encontrei nada que fechasse minhas feridas internas e isso é muito pior do que pesar cem quilos ou cinquenta. O corpo a gente vai empurrando, mas a alma te corroí e te leva junto.


Já rodei muito neste planeta e nunca achei alívio para minhas dores internas, receitas para emagrecer tenho todas, inclusive as que funcionam, mas nunca achei nenhum bálsamo que me fechasse as feridas na alma. É mais fácil perder peso do que se curar internamente depois de tantos anos de dor.


Quem estiver preocupado com meu peso recomendo milhões de blogs legais sobre garotas que mostram os números e as fotos. Me desculpem, mas isso não me interessa mais, nem perder, nem ganhar, a única coisa que eu posso oferecer é mostrar minha alma e lutar por dias melhores, para que nunca mais uma criança seja humilhada em um parque e nunca mais uma adulta chore por uma dor que já devia ter passado.



Iara De Dupont


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