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15 outubro 2013

Por que é tão difícil falar?


Desde que eu me entendo por gente pergunto tudo. Não sei da onde vem essa mania, coisa que minha mãe odeia, mas eu não resisto, preciso de explicações o tempo inteiro.
Uma pergunta que viaja pela minha mente quase todos os dias é se as pessoas sabem de um jeito ou de outro o que sentimos ou achamos delas. Fico pensando se o coração diz alguma coisa ou não.

Recentemente eu encontrei na rua um ator que trabalhou comigo. Ficamos conversando um pouco e acabamos em um assunto meio chato, fazíamos parte de um grupo de teatro que tinha muitos conflitos internos, tudo culpa de uma produtora que causava os problemas. Me cansei de tudo aquilo ali e quando acabou a minha parte, decidi sair. Fui com o diretor e expliquei minha posição. Ele me disse que entendia e que tudo estava bem, eu era livre de fazer o que quisesse. Naquela época ele era meu amigo, não era apenas um diretor, por isso fiquei chocada com a frieza dele naquele momento e nunca mais falei com ele.
E ao conversar com o ator ele me contou que entrou na sala do diretor depois que eu tinha ido embora e ele estava arrasado, dizendo que sentiria falta da atriz, mas morreria de saudades da amiga.

Eu nunca soube disso, ele não disse nada e eu não posso adivinhar. Não imaginei que ele me considerava da mesma maneira que eu considerava ele e a coisa ficou parada no tempo.
Não tenho bronca dele porque hoje entendo que todos recebemos a mesma educação, todos somos educados para engolir em seco elogios e não elogiar nem dizer as pessoas o que sentimos por elas.
Pelo menos no mundo que eu cresci elogios não existiam nem na minha casa, eu poderia tirar todas as notas mais altas do colégio, meus pais sempre achavam que eu
''fazia apenas minha obrigação''. Foi tão dito isso que eu virei uma aluna medíocre, sempre passando de raspão, para mim não tinha diferença ter uma boa nota ou uma péssima, porque jamais receberia um elogio dos meus pais.

Quando escrevi uma peça de teatro uma das atrizes foi conversar com meu pai e elogiou meu texto e meu pai respondeu:
- Essa menina cresceu cercada de livros, tem obrigação de saber escrever pelo menos uma frase.
Mas não jogo toda a culpa nos meus pais, passei por grupos de teatro, tive muitos amigos e não lembro de elogios, porque as pessoas não estão acostumadas a elogiar ninguém, aprendem isso em casa, elogio deixa a pessoa metida, ou pior ainda, tem segundas intenções.

Fui educada para entender isso, principalmente se eu recebesse elogio de um homem, então era claro o que ele queria. E ficou perigoso elogiar, hoje todo mundo desconfia de todo mundo.
O problema é que o coração humano é um motor, depende de várias peças para funcionar e elogios são parte delas. Ninguém cresce sozinho, todo mundo precisa de apoio e estímulo, sempre é bom quando alguém reconhece as qualidades que tanto trabalhamos para ter.

De vez em quando  vou a um parque que está perto da minha casa para caminhar um pouco, dia desses tinha um menino em um canto, não deixaram ele jogar bola porque era pequeno demais e ele ficou ali olhando. Quando passei perto dele me disse ''oi'' e vi que ele tinha uns olhos lindos, meio verdes, meio cinzas, pareciam duas pedras preciosas e disse para ele que era bonito e ele me respondeu:
- Bonito quanto?
E eu disse- Você é um gatão!
Ele sorriu e me perguntou o que eu fazia no parque, disse que estava caminhando e ele respondeu:
- Vou te acompanhar porque você está sozinha.

E ficou lá comigo, dando voltas no parque e me contando toda a sua vida, difícil de entender, porque ele tinha apenas seis anos e não consegui entender tudo o que ele dizia.
Mas ele cismou com o que eu disse antes e me perguntou porque a mãe dele nunca tinha dito que ele era bonito. Eu não sabia o que dizer, mas falei que algumas pessoas são tão bonitas que a gente esquece de dizer a elas que são bonitas, porque ficamos bobos com sua beleza, talvez a mãe dele ainda está boba com a beleza dele e não disse nada. Ele pareceu conforme com a explicação.
Não temos a quem jogar a culpa, porque o mundo não é feito de alienígenas, vivemos na cultura do ''não se meta'' e ninguém diz nada para ninguém, só se for desaforo, mas elogios ou reconhecimentos ninguém fala nada.

E pior que o elogio tem mais efeito em uma sociedade do que a crítica e isso não está limitado apenas a rua, em casa ninguém fala nada, nunca vi famílias se elogiando.
Chegamos a um ponto que elogios parecem coisas ditas por pessoas falsas e perigosas, quem elogia quer alguma coisa em troca. E o único que se ressente com isso é o coração, sofre sozinho, fica congelado.

E penso em como deve ser o final, saindo desta vida com a sensação de não ter dito o que queria dizer a quem merecia escutar. Pensei nisso ontem, meu prédio está com um problema no lixo e o porteiro trocou os horários, eu fui lá e reclamei, depois fiquei com isso na cabeça, quando eu não estiver mais aqui não quero pensar que apenas reclamei, mas quero levar a certeza de que disse o que queria dizer, mas assim como não me senti intimidada para reclamar, não quero mais me sentir limitada na hora de dizer uma coisa boa a alguém. Elogiar ou reconhecer o que alguém fez não é uma questão de ser ''meiga'', é uma questão de justiça, porque todo mundo em algum momento de sua vida faz alguma coisa que merece ser elogiado.

Iara De Dupont





3 comentários:

Poeta da Colina disse...

A facilidade de pegar o telefone para apontar uma cagada é impressionante. Nunca ninguém em nenhum trabalho acha que o telefone toca para te parabenizar.

Gustavo Macedo disse...

Nossa... que texto lindo... disse tudo o que eu tenho entalado desde que mudei pra São Paulo, a comunicação aqui é horrível, que dirá elogios, conexões sentimentais...

G.R. Roots disse...

Iara, você já leu "Extraordinário" de R.J. Palacio?
Tem uma frase linda: "Todo mundo deveria ser aplaudido de pé uma vez na vida."

Ah, e o livro é de perder todas as pregas de tanto chorar... é lindo!

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