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06 setembro 2013

O meu passado voltou (e foi tudo uma mentira)






Procuro até agora a baleia

Pensei duas, três vezes, se valia a pena contar uma história que me fez muito mal hoje. Mas talvez não seja mais importante pra mim, mas possa valer de alguma coisa pra alguém. E se isso acontecesse eu daria esse capítulo por fechado com um final feliz, porque a única coisa que justifica falar de uma dor é evitar que ela seja sentida por outra pessoa.

Fiz uma peça de teatro há quase vinte anos e hoje um dos atores me achou no Facebook. Depois de conversar ele me mandou uma foto minha que a mãe dele tinha tirado durante a apresentação. Desde o momento que abri o arquivo e vi a foto, minha vida deu um giro invisível, alguma coisa aconteceu.

Eu estava estudando e essa peça era para fechar um semestre. A peça era sobre uma prostituta que está em um boteco do bairro no qual trabalha, lamentando sua vida, quando um homem milionário entra e se apaixona por ela. A peça inteira a prostituta começa a sonhar com sua futura nova vida, mas no fim da peça o milionário morre. Ela começa a peça dizendo que é ''uma mulher azarada'', o nome da peça inclusive, e termina a peça dizendo ''mas eu não disse que sou azarada? ''.

Os diretores da peça tinham que escolher entre eu e outra atriz, que era magra. Eles tiveram um grande dilema, gostavam mais do meu trabalho do que da outra atriz, mas a outra era mais bonita e era magra. Eles acreditavam que ninguém seria capaz de entrar em um boteco e se apaixonar por uma gorda.

Isso era dito todos os dias e como eu sempre fui pé de boi  chegava cedo aos ensaios e ficava na sala, fechada com os diretores durante horas escutando sobre meu peso. Fui torturada durante horas, durante semanas. Me pediram para emagrecer, me deram oportunidade de dobrar meu tempo nas aulas de ballet. Mas nada disso era gentil, era quase na ameaça e sempre no grito.

Um dia a professora que dava aulas de voz disse na frente de todos, olhando pra mim: 


-Você pensa fazer o que em relação ao seu peso?

Fiquei muda. E gelada. Como sempre que era agredida pelo meu peso.
Uma diretora gordinha fez o que deu pra que me sentisse melhor. Um dia me explicou que se eu não emagrecesse meu trabalho teria que ser muito bom, caso contrário como eu convenceria o público de que um milionário se apaixona por uma gorda?

As provas de figurino eram sempre sobre como disfarçar a gordura, só isso.Tanto que o figurino era apenas um vestido preto e sapatos, mas a figurinista decidiu jogar um monte de coisas, colares, cinto, brincos, tudo isso segundo ela 

''pra desviar o olhar e ninguém reparar que você é imensa''. Na época a grande modelo do momento era Kate Moss, então imagino que comparada com ela eu era mesmo enorme.

Finalmente a peça abriu a temporada e deu tudo certo, por uns dias.Eu não tinha conseguido emagrecer um quilo, coisa que descobri depois, debaixo de pressão não consigo nem me mexer. Eu estava exausta de tantas ameaças e de tanta pressão, todos os dias quando a peça acabava o diretor me dizia:


-Se você voltar amanhã gorda coloco fulana no teu lugar.

Ninguém perde peso em uma noite e eventualmente um dia ele disse isso em um momento que não aguentei e mandei ele colocar a fulana onde quisesse. Fui expulsa da peça e da escola, em um momento que lamento, mas não tive escolha. O diretor perdeu o controle e jogou toda a culpa no meu peso, eu era indisciplinada segundo ele e a conversa ficou nesse nível.

Encontrei com esse diretor umas duas vezes depois disso e ele sempre me disse a mesma coisa:


-Eu podia ter te ajudado na carreira, mas você nunca se ajudou, nunca perdeu peso, acha graça ser uma baleia né?

A frase foi dita dessa maneira, o que me levou a sempre ter um profundo asco dele.

E essa é a história que eu lembro. Na memória estão esses meses de dúvida e tortura, de humilhações, de coisas que aconteceram lá dentro que eu nem quero lembrar. Tudo isso era porque ninguém se apaixona por uma gorda e até o produtor se recusou a convidar o autor da peça para a estréia, porque tinha medo que ele ficasse ofendido, achasse uma bobagem terem colocado uma gorda para fazer uma prostituta gostosona.

E essa história está na minha gaveta como outras. Ou estava, porque hoje deu um giro.
Eu nunca tinha visto a foto que a mãe desse ator tirou. Olhei a foto mil vezes e me pergunto, onde estava a baleia? Eu não era magra, mas não era uma baleia.

A baleia só existia nas pessoas que quiseram me torturar e eu permiti. Provavelmente se eu acordasse amanhã com o peso que eu tinha nessa foto, eu daria uma festa.

Sei que muitas meninas dão uma passada aqui no blog e leem algumas coisas e esse post é pra vocês, que entendam, vocês não são o que os outros dizem que são.

Ninguém é. Eu não era uma baleia, mas carreguei anos essa sensação, porque pessoas monstruosas me fizeram sentir assim. Eu não via minha imagem como ela  era realmente e posso garantir, a pior sensação do mundo é quando uma foto tua cai na tua mãe e você comprova que todos estavam errados.Tudo o que chorei nessa peça antes e depois foi uma mentira, um sentimento ruim. Alguma coisa deve ter acontecido ali e o diretor quis me tirar da peça, mas não me tirou por ser uma baleia, como ele sempre afirmou.

Mandei um email para o ator que enviou a foto, eu perguntei pra ele algumas coisas, porque comecei a achar que minha memória estava me passando a perna, será mesmo que eu fui tão torturada? Ele me disse que lembrava sempre de mim com uma mistura de dó e de raiva, tinha dó porque via todos os diretores na minha direção aos berros e tinha raiva porque eu era teimosa e não emagrecia.

É quase impossível descrever a sensação tão ruim que tive vontade de vomitar o dia inteiro. Tenho vontade de esfregar essa foto em milhões de meninas que se acham gordas apenas porque alguém disse isso.

E não é apenas dizer,o que as pessoas repetem podem mudar tua vida. No meu caso foram anos de dor para começar a entender que não sou o os outros vêem em mim.

Não consigo nem descrever. Senti em todo meu corpo a sensação de tempo perdido,de mentiras acumuladas. Fiquei congelada,com uma vontade enorme de subir na maior montanha do planeta e gritar - Não escutem nem acreditem em nenhum comentário negativo! Vocês não são o que os outros dizem que são.

Me convenceram durante uns anos que eu era um lixo, indisciplinada, incapaz de emagrecer, uma baleia sem futuro. Mas foi por pouco, mesmo que tarde descobri que tudo isso era mentira. O caminho da verdade ainda é novo para mim, mas desta vez não entra mais lixo dos outros. O que eu acreditar ou não,  vai ser baseado na minha vida e nas minhas opiniões,não na alheia.

Não percam o tempo que eu perdi acreditando em uma mentira que apenas me consumiu e quase me destruiu. Só a verdade salva e neste caso a verdade era muito mais real do que a mentira fabricada.



Iara De Dupont

6 comentários:

SUZANA disse...

Eu tb olho fotos mais antigas minhas e não vejo aonde a Free Wily estava ,eu tinha quadril e pernas grandes mas até hoje tenho antebraço e mãos pequenas eu perdi muito tempo da minha vida indo atrás de algo que eu não queria de verdade agora eu vejo mas antes não eu vivia numa nuvem cinza de eu preciso tenho que emagrecer tenho que emagrecer eu nem sei o que queria li uma matéria na super interessante que fizeram uma pesquisa que descobriram o que eu já imaginava que pessoa que não faz dieta mesmo sendo obesa e não sendo sedentária fica menos doente,e as pessoas que mudam muito de dieta podem ter mais disturbios pisicológicos, eu não acho que o espelho sejam tão mau com vc o quanto outras pessoas são e nesse ponto eu não vejo melhora na humanidade se vc ficar um tempo ser ter contato com tv por exemplo quando vc assistir vai ver o quanto aparência magra das atrizes parece com pessoas doentes, eu tenho duas conhecidas extremamente magrinhas mas que comem feito elefantinhos mas pessoas assim naturais não tem aspecto de doente o que explica o excesso de bronzeador desse povo deve ser para esconder o amarelão.

Jose Luis Oliveira disse...

Uma grande amiga sempre que falava de sua infância, contava que sempre foi gordinha. A mãe mesmo sempre confirmou isso, atéque um dia mostrou-me as tais fotos que documentavam isso.

Não havia gordinha nenhuma ali. Ela cresceu passando a imagem que era algo que não era.

Essa perversidade social é inacreditavelmente comum.

Como sempre, Dona Iara rasga o coração por aqui...



Anônimo disse...

Eu sempre fui magra,
Tive uma fase gordinha na época de adolescente naquela mudança de altura, peso, e fiquei com 50 kg e 162. Depois sem dietas nem nada eu sempre comi horrores eu estiquei e emagreci. Aos 17 eu tinha 1,69 e 45 kg eu simplesmente fiquei muito feliz
só que depois o meu corpo mudou: ensino médio, trabalho que tive de arrumar para ajudar minha mãe, curso e acabei como dizem aqui no RJ: Pegando corpo, pernão, quadril, depois de mil dietas e no máximo perco 2 quilos, quando vejo minhas tias todas com quadril largo e ombros estreitos vejo que esse é meu biotipo, pena que eu demorei anos pra aceitar. Fiquei dos 19 até os 23 passando fome pra voltar a pesar 49/50 quilos, ledo engano adquiri gastrite e depressão.
Hoje sou o que chama de falsa magra, tenho 1,69 e 62 quilos, mas por ter pescoço e braços longos disfarça, tenho barriguinha e quadril largo, mas cansei de me privar, eu gosto de comer sempre gostei, e honestamente não vou entrar em uma academia, me privar de comer o que eu gosto, pra tentar ficar com um corpo que minha própria genética diz que não é meu. Eu tive uma fase corpinho de modelo, amém mas não é por isso que tenho que odiar o corpo que tenho hoje.
E meu corpo hoje é bem parecido com o teu nessa foto, isso não é ser goda, é ter corpo, curvas, mais gorda ou mais magra vc deve se amar e cagar pra essas coisas eu sei que não é fácil é um exercício diário.

Carolina, a outra disse...

Será que todos os gordos foram construídos da mesma forma?
Quando vejo minhas fotos também procuro a baleia que eu acreditava ser, mas sempre encontro uma menina com a estrutura maior que a das outras mas que estava perfeitamente em forma.
É difícil aceitar o seu biotipo, e parece mais difícil ainda para os outros.

Lau disse...

Dizer que eu sou gorda, seria eufemismo. Sou obesa, tal como define as medidas do meu i.m.c.
Ok! SEMPRE fui gorda, ou tive sobre peso ou estive obesa como agora. Fiz uma única dieta na vida, com acompanhamento de uma endocrinologista, isso foi há anos, na transição da adolescência para a vida adulta. Perdi 26 quilos em meio ano e surtei. Eu não reconhecia minha imagem no espelho, não conseguia usar minhas próprias roupas e era cantada por colegas que normalmente só falariam comigo pra pedir minhas anotações emprestadas se pegassem exame na faculdade. Depois disso parei de brigar com minha genética e só me preocupo com a saúde. Pratico atividades físicas regulares e fico de olho nos indicadores de risco.
Felizmente, mas também não sei precisar porque, não tenho nenhuma lembrança de ter sido execrada de uma maneira tão agressiva, minhas lembranças são mais de preconceito velado. Outro dia estava refletindo a esse respeito e percebi que ao contrário das meninas e mulheres que sofrem de disformia corporal (fenômeno generalizado atualmente, seja nos casos de bulimia, anorexia e todas as outras "manias" de transformar o corpo) que se olham no espelho e "se acham gordas" eu sempre me olhei no espelho e "me achei linda!" Eu me vejo gorda, pois sou gorda, mas esse fato nunca foi determinante para alimentar uma auto imagem negativa.
A maioria das pessoas olha para as outras mas não as vê. Simplesmente as avaliam se cabem ou não nos padrões. Pessoas como você Iara, são maiores que qualquer padrão!
Desculpa aí o comentário tão longo quanto um post :)( acho que me empolguei hehe)

não aguento mais tanto perfil disse...

Uma mentira repetida várias vezes vira verdade. Um cachorro ou uma vaca podem estar gordões mas não sentem, não se depreciam. Respeito também é algo que se compra, quem tem melhor posição social se submete a bem menos episódios de assédio.

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