ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

01 setembro 2013

As feridas sociais que ainda sangram



Os desaparecidos: como ninguém vem de família rica a polícia faz corpo mole

Uma vez me disseram que o descontentamento morava nas feridas abertas. Em países essas feridas revelam tudo o que as pessoas vem sentindo há anos e às vezes aquilo vem a tona em uma situação absurda.

Há alguns meses doze jovens foram sequestrados ao sair de uma danceteria na Cidade do México. A polícia jogou a culpa em uma suposta guerra de traficantes, mas as famílias não aceitaram essa teoria,até agora a única coisa que a investigação comprovou é que os jovens não tinham vínculos com ninguém do narcotráfico e foi um sequestro aleatório, os carros pararam em frente ao lugar, alguém mandou todo mundo sair de lá e os primeiros em sair foram jogados no carro e sumiram no mundo.

O que chamou a atenção é que aconteceu em uma zona nobre e turística da Cidade do México, que a sua maneira também tem a mesma divisão mental que existe no Brasil, quando alguma coisa acontece na periferia ''é normal'', mas se aconteceu em zona nobre então é uma coisa  ''séria que merece investigação''.

A polícia não tem pistas nem ideia do que aconteceu. Mas uma ferida veio à tona. As pessoas que sumiram eram de uma classe econômica simples, estavam frequentando o lugar ali porque juntavam seu dinheiro e iam,mas não eram bem vistas. E todas eram de um bairro quase grudado a essa zona nobre, o bairro de Tepito, conhecido por ser um centro de camelôs, negócios sinistros e distribuidor de pirataria. Rapidamente a polícia concluiu que esses desaparecidos deveriam ser ''suspeitos'', porque não eram pessoas de ''bem'' e porque moravam em uma área de  ''gente que pratica atividades ilegais''. Tepito é uma área tensa e perigosa, mas tem mais pessoas corretas ali do que bandidos, é como se fosse uma favela vertical, a maioria dos que moram ali são trabalhadores.

As famílias desesperadas com os descaso das autoridades e das insinuações resolveram vir a público e provar que todos os desaparecidos eram pessoas idôneas, honestas e trabalhadoras, que em um momento resolveram frequentar um lugar melhor, mas isso não fazia deles delinquentes.

A história vem crescendo e o Presidente Enrique Penã Nieto está desesperado para se livrar disso. Traficantes em áreas nobres não é uma coisa que a classe dominante goste e ninguém gostou de saber que em lugares de pessoas de  ''bem''  outras sem dinheiro tiveram a ousadia de entrar.

Mortos pelo narcotráfico no México já passam de setenta mil. E nenhuma investigação fechou em nada, mas quando foram os filhos de alguém famoso, rico ou influente a família recebeu melhores tratos por parte do governo e da polícia.

E é isso que as famílias dos desaparecidos cobram, que o caso seja tratado como outro qualquer, não como um caso de crise social de pessoas pobres que se metem em lugares de ricos e levam com eles toda a confusão do mundo. As famílias estão exaustas de tentar provar que seus filhos merecem a mesma atenção da polícia, assim como a atenção que os filhos dos ricos recebem quando desaparecem.

E semana passada a polícia encontrou em uma fossa doze corpos e uma bolsa com roupas. Para acelerar os trâmites e pelo estado em decomposição dos cadáveres a polícia chamou as famílias para reconhecerem as roupas.

E o que dizem que aconteceu na sala da delegacia foi uma cena de filme surrealista. As famílias entraram para reconhecer as roupas e saíram indignadas, protestando,gritando que isso tinha sido  `outra putaria da polícia´. Cansaram de dizer que a polícia estava armando uma cena para acabar logo e encerrar o caso. E se alguém da polícia quis armar a cena se deixou levar pelo próprio preconceito, ao achar que só porque os desaparecidos são pessoas simples quer dizer que andam pelas ruas com roupas velhas e rasgadas.

As famílias disseram que as roupas eram de mendigos, moradores de rua e que eles eram pobres, mas eram gente que se vestia decentemente e nenhum dos desaparecidos teria ido com aquelas roupas em um lugar de gente de ''bem'', até porque não entrariam. Mas um policial fez questão de dizer a uma mãe que ela reclamava como se o filho usasse roupas originais e não as piratas que a mãe vende no seu posto de camelô. A imprensa a senhora fez questão de dizer que vende roupas piratas, mas as do seu filho desaparecido eram de marca e originais, porque ''rapazes dessa idade querem sempre o melhor''.

E virou essa discussão, que é apenas uma ferida aberta, porque a polícia faz questão de tratar os desaparecidos como peixes fora da água que estavam frequentando um lugar no qual não pertenciam. Não pensam neles como cidadãos, que estavam onde queriam e que tinham pago para estar ali e não existe nenhum motivo para que a polícia não se empenhe nesse caso.

Mas o México é como o Brasil, tem essa ferida social aberta, onde um rico não precisa se explicar para que a polícia procure seu filho, mas se for pobre tem que provar a polícia que seu filho não estava envolvido com nada ilegal e merece ser procurado.

Ainda não saiu o DNA dos cadáveres, mas as famílias desconfiam que o governo vai armar a cena para se livrar logo da situação.
A avó de um desaparecido disse a um jornal  ''No México se você não é gente importante é como se você não fosse gente''.
Infelizmente em muitos lugares, como aqui, é assim.

Iara De Dupont

Nenhum comentário:

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...