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28 junho 2013

O feminismo idealista e a realidade

Quem não quer vagões separados nunca entrou em um assim
Recebi hoje um link de uma matéria sobre a questão de dividir vagões de metrô em horários de pico.
A Comissão de Transportes e Comunicações da Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou um projeto de lei que cria vagões e espaços exclusivos para mulheres no transporte público,assunto discutido desde 2005. O objetivo é evitar a agressão sexual que as mulheres sofrem no transporte.
No texto que eu li a blogueira está correta em tudo que diz, não são as mulheres que têm que se cuidar, são os homens que têm que aprender a se controlar, é a sociedade que deve ser educada, modificada e evoluir, deixar de considerar a mulher um animal que o homem não pode resistir a estuprar.

Concordo com tudo, mas existe um abismo entre o que queremos e o que temos no momento. Feminismo não entrou  na pauta de nenhum projeto de educação, então não temos como pensar em um futuro se ele ainda não está sendo construído.

Pode ser que caso eu tenha uma neta ela veja minha luta como eu vi quem lutou contra a escravidão, uma coisa distante e  óbvia, coisa mais fácil alguém entender que nenhum ser humano nasce para ser escravo. Mas hoje nossa realidade é machista e misógina.

Ainda não conseguimos nem colocar em cima da mesa a discussão dos direitos da mulher, os básicos, os que matam milhões de mulheres como o aborto e a violência doméstica. A luta começou há anos, mas os frutos ainda não são suficientes para pensar que tudo está quase resolvido. E educar é um projeto de anos, não de meses.


A maioria dos comentários não apóia a ideia do vagão separado, porque então o transporte público viraria uma questão de segregar, teríamos que ter vagões para negros para que não fosse agredidos por racistas, vagões para gays para que não fossem mortos por homofóbicos e para mulheres para que não fossem estupradas.


A ideia de não ter vagões separados é bonita, humanista, mas não é a melhor coisa, fiquei com a impressão que a blogueira tem carro.

E digo com conhecimento de causa. Nos anos noventa eu me mudei para a Cidade do México. Uma cidade estranha, bonita, uma mistura interessante, mas esqueceram de me avisar uma coisa, é uma das cidades com os homens mais violentos que eu já conheci. Nunca, nunca, nunca vi nada igual. Não conheço a Índia e aqueles lados, então não sei como tratam a mulher, mas sei que os mexicanos ao contrário dos brasileiros não acham muita graça em dizer alguma besteira, o barato deles é enfiar a mão, ver uma mulher sem encostar para eles é uma ideia que não faz sentido. Eles são machistas, mas um machismo muito pior do que o brasileiro, como se isso fosse possível, eles são agressivos fisicamente, se acham no direito de encoxar qualquer mulher na rua. É uma cidade pesadelo para qualquer uma, não recomendo jamais a uma mulher viajar pra lá sozinha, principalmente se for brasileira, porque as mexicanas já aprenderam a contornar o perigo, mas as brasileiras não tem a menor ideia de como fazer isso. Recentemente uma antropóloga mexicana apresentou um trabalho sobre a expressão corporal das mulheres mexicanas na rua e constatou isso, elas andam rápidas e assustadas, como animais fugindo, sabem que são alvos constantes de agressão sexual.

Passei por apertos terríveis, até que comecei a aprender a me mexer na cidade, mas não desejo a ninguém, nem a minha pior inimiga o que eu passei os primeiros meses ali.


E no meio de tudo isso alguém me disse para usar os vagões separados do metrô, tem uns que até fora do horário de pico funcionam. Pra mim aquilo foi uma das melhores coisas que poderiam ter me acontecido, porque é matematicamente impossível entrar no transporte público mexicano sem ninguém te encostar a mão. Às vezes até o cobrador do ônibus puxa tua mão, tenta te pegar. E graças a esses vagões separados pude viajar mais tranquila.


Não sou a única que pensa assim, até porque lembro de uma coisa terrível que aconteceu, os homens mexicanos não gostam dessa separação, eles reclamam, e eu estava usando uma linha nova, que apenas tinha aberto e o pessoal do metrô separava com umas grades de ferro a passagem, então ficamos na mesma plataforma os homens e as mulheres, separados apenas pelas grades. E não sei porque, nem como começou, mas os homens começaram a reclamar e dizer um monte. E todas as mulheres ali paradas escutando todos os tipos de baixaria. Eu fui na direção de um guarda e disse que aquelas ofensas ali não tinha sentido e ele respondeu: Tá bom, madame, se quiser eu abro a grade e você vai lá explicar que isso não se faz.

Uma mulher percebeu minha indignação e foi me puxar, dizendo '' fica quieta e jamais fale com alguém da polícia, senão eles te empurram em um canto e te bolinam''!
Outra moça começou a discutir com um rapaz pelas grades e ele disse:

-Grande merda separar aqui,  te pego na rua sua gostosa!

E foi assim. Os homens mexicanos não sei hoje,mas nos anos noventa chamavam isso de sexismo, de medida populista para proteger a mulher e tal. Mas a realidade é essa, os homens não são educados e partem para o ataque, então alguma coisa tem que ser feita.


Acredito em mudanças de atitudes pela educação, mas não vejo que ela possa mudar as coisas em alguns meses, então acho necessário sim essa divisão no metrô e volto a dizer o mesmo, só é contra quem anda de carro e nunca foi molestada em transporte público. Quem já foi acha pouco o horário de pico, deveria ser 24 horas a separação.


Ah, mas isso reforça a violência, reforça o machismo. Mas nada disso vai ser combatido com uma medida dessas, separar ou não o vagão ainda não concretiza a educação, para acabar com o machismo apenas a educação e essa é a longo prazo. Hoje acredito que homens de menos de trinta anos entendam um pouco mais sobre o assunto, mas acho que um homem de trinta e cinco não entenderia tudo que envolve o machismo e sua violência.


É melhor mesmo lutar para mudar tudo, mas até lá por que não se proteger? Ah, mas é machismo isso, a mulher tem seus direitos e não pode ser educada para se proteger, também acho e como mulher digo, é uma merda essa vida de estar sempre olhando, se cuidando, se protegendo como se fôssemos seres humanos de segunda categoria sempre fugindo do predador. Também odeio ver meu útero no centro de discussões religiosas e ignorantes, também queria mais do que qualquer coisa ser livre. E luto por isso, mas estou consciente que talvez não chegue a ver todo meu esforço concretizado, mesmo assim penso que minhas netas verão, boto fé nisso. Mas e até lá?O que eu posso fazer? Continuar lutando, mas sem perder a noção da realidade, das coisas e principalmente, não perder a noção do perigo, entender bem como os homens são agem nos dias de hoje, amanhã eu não sei como vai ser, mas hoje sei bem o que eles pensam e isso me faz gelar a espinha.


Saber meus direitos é o primeiro passo para mudar, mas ainda falta que o mundo saiba disso.

Do que adianta saber dos meus direitos se os homens não sabem e quem sabe passa em cima? Isso só o tempo e a educação vão mudar, até lá apoio qualquer medida que deixe a vida da mulher mais segura, porque todos sabemos da violência que a mulher sofre e não quero ser injusta, o México é um dos países que mais investem em propagandas de incentivo para a mulher denunciar os abusos que sofre, existem milhões de cartazes por todo o país com o número para pedir ajuda e propagandas constantes. Há vinte anos eles já tinham propagandas onde explicavam as crianças como se proteger de abusos, em termos de informação os mexicanos não são omissos.

E digo mais, quem é contra divisão de vagões não usa transporte público. Porque quem usa é a favor. Ninguém quer ser estuprada enquanto a sociedade ainda discute como educar os homens. Falta tempo demais pra isso e quem pensa o contrário está no ar-condicionado de seu carro blindado.


Iara De Dupont

4 comentários:

Claudia disse...

A mais pura verdade, vivemos em uma sociedade que se nos defendemos e sempre andamos em alerta somos neuróticas e exageradas, se tentamos viver como se essas coisas não existissem vão nos dizer que damos mole pro pior acontecer...

Homens em locais assim acham que usam a máscara do anonimato para exercer o lado monstro que tem em si...

Anônimo disse...

Sociedade machista, acho que não. Como uma mulher foi eleita democraticamente para ser Presidente da República? Como uma sociedade machista dá tanto dinheiro para prostitutas puras e santas como a Nicole Bahls? Por que será que a mulherada se veste vulgarmente para lucrar com a imagem e não aceita as consequências? Será que o instinto animal é só masculino? Será que a mulher não sabe a diferença em ser sensual e ser vulgar? Não sabem a diferença de um homem iraniano e um brasileiro? Vocês têm uma aura mística? Vocês são algo de divino? Não erram?

Anônimo disse...

Concordo, inclusive juridicamente em uma separação a mulher sempre leva vantagem. Isto é conhecido por todos. Nem vou levantar a questão das mulheres que usam seus dotes físicos para conseguir vantagens financeiras e no trabalho, tenho visto muito isso ultimamente. Mas sou a favor do vagao separado, que dificulta a violência física.

Anônimo disse...

A sociedade nem discute como educar os homens e isso tão pouco passa pela cabeça das novas mamães.
Tentamos contornar e amenizar o problema lá na frente quando tudo está um caos.
Já repararam que nem sequer um programa, um projeto, uma ideia que abrangesse o papel e o respeito dos meninos para com as meninas é discutido nas escolas?
O que temos são professores trabalhando um conceito individual e próprio com os alunos. Não existem esses programas/ideias como a tolerância LGBT, racismo, não existe.
E hoje vemos mulheres de 20 anos tendo que lidar com ameaças recebidas pelo whatsapp, facebook e e-mails de meninos de 13 anos falando que vão estuprá-las.

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