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21 maio 2013

A história do australiano que bateu a minha porta (veio entregar água)

Não é ele, mas é o mais parecido que achei
Hoje pedi água de garrafão. Eu sempre fico desconfiada, não sei se tem garantia ou não, às vezes eu olho o garrafão e fico pensando se a água não vem de alguma torneira.


Ao contrário dos franceses que podem garantir a procedência de sua água Evian, os garrafões de São Paulo sempre me deixam com uma sensação estranha.
Também fico indignada com o preço, oito reais, como se eu não tivesse direito a essa água, que não é propriedade de ninguém, acho um absurdo de cara principalmente porque somos o país com mais água potável do mundo.

E nunca vem o mesmo rapaz entregar. Eu converso demais, minha mãe diz que parou de sair comigo quando eu tinha quatro anos, porque eu puxava papo com todo mundo, em qualquer lugar. Mas eu pergunto mesmo, fico curiosa e ao perceber que nunca era o mesmo rapaz que entregava a água perguntei o porquê. Fiquei sabendo que a empresa que contrata eles paga mal, um salário mínimo, de segunda a sexta, das oito da manhã as seis da tarde. Eles não tem equipamentos de segurança, uma espécie de pinças para segurar o garrafão sem ter que jogar nas costas, não tem faixas para usar na coluna e não tem carros nem motos, só bicicletas e são obrigados a entregar água em um bairro cheio de ladeiras, aqui eu sempre falo, tem que ser alpinista pra sair de casa, porque tem que subir ladeira e descer como profissional. Também é um lugar cheio de prédios velhos, sem elevador e eles têm que subir 4,5,andares carregando o garrafão, e a cada dez casas, uma dá gorjeta.

Teve um entregador que era atleta, na primeira semana chegou aqui cantando, feliz com o emprego de carteira assinada, mas pensava que carregar garrafões daria mais resistência para sua profissão de skatista. Duas semanas depois me avisou que já não voltaria, devido a falta de equipamento, ele estava cheio de lesões, então não trabalharia mais nisso.

E hoje ao abrir a porta levei um susto, um rapaz com dreads, abaixo do ombro e com uns colares. Perguntei da onde era e me disse que era da Austrália. Não acreditei, perguntei se não tinha escorregado de algum barco e chegou aqui. Me disse que não, que estava fazendo um doutorado em países de terceiro mundo sobre sub-empregos, então chegava nos lugares, ia morar em uma parte pobre e pegava os piores empregos.

Achei mesmo que ele estava brincando, então me contou que tinha estado na Guatemala há uns meses e agora ficaria no Brasil, perguntei por quanto tempo e veio a resposta mais inacreditável:

-Eu não volto mais, vou ficar aqui.

Trocar Austrália pelo Brasil? Pois é, são essas coisas que parecem impulsos de juventude, aquela idade que tudo parece leve e folclórico.

Diante do meu assombro, ele me contou o porquê de sua decisão. 

Ao chegar ao Brasil tinha um casal de amigos brasileiros que o hospedou em um apartamento em Perdizes (zona nobre da cidade de São Paulo). Ele ficou ali um mês e disse que não conheceu ninguém, além do porteiro. E como tinha que fazer seu trabalho se mudou a um barraco em Heliópolis (favela), sozinho, com uma mochila nas costas. No mesmo dia vizinhos vieram falar com ele e saber quem era. Quando ele contou que era estudante, os vizinhos logo se preocuparam em ajudar. Emprestaram um fogão, colchão e geladeira. Depois ele comprou a televisão. Recebeu o apelido de ''Alemão'' e em poucos dias todos os chamavam assim na rua. Também ofereciam carona, caso ele precisasse. Todos os fins de semana alguém batia na porta e o chamava para um pagode, uma farra por ali. Começou a participar de churrascos e dos mutirões de amigos para construir lajes ou o que estivessem precisando. Uma senhora lava sua roupa, mas ele diz que é comum ela levar um bolo, alguma coisa para comer se vê que ele não comeu nada.
A mulherada também gosta do exótico, pelo o que eu entendi.
Ele ficou intrigado e fascinado com a vida social da comunidade e resolveu não voltar mais para seu país.

Eu insisti que Austrália deve ser incrível, não conheço, mas deve ser um país melhor. Ele no auge do seu idealismo diz que Austrália não têm o que ele procura para viver: noção de comunidade. Na Austrália ele diz que os amigos se reúnem para fumar maconha e ficar na praia, aqui os amigos se reúnem para ajudar um ao outro, seja fazendo uma laje, algum serviço, alguma coisa a favor da comunidade e o depois, seja o churrasco, a pelada, a cerveja, vem de recompensa, mas o que move as pessoas é a ideia de um ajudar o outro.

A única coisa que o moço diz ter um pouco de medo é do serviço público de saúde. Teve um problema na mão e acabou em uma fila de hospital público. Mesmo assim diz que não é culpa de ninguém se o hospital não tinha médicos de plantão e até lá ficou surpreso, porque algum desconhecido ao ver ele na fila do hospital foi buscar um copo de água, já que pelo calor o rapaz estava passando mal. Não deu certo essa experiência e ele foi obrigado a procurar um hospital particular e mandar as contas para os pais.

Eu não resisti e avisei que apesar de parecer muito folclórico e cheio de amor uma favela é uma comunidade abandonada pelo Estado, um lugar onde as pessoas têm todos os seus direitos anulados e não é um lugar cheio de flores, as pessoas se viram para construir suas coisas porque estão abandonadas, não é uma sociedade alternativa, as pessoas não estão ali porque querem, mas sim porque o poder público empurrou e isolou essas pessoas e tirou um a um todos os seus direitos mais básicos, como o acesso a saneamento básico e luz. E se existem favelas no Brasil é porque somos um país desigual e sem vergonha na cara, capaz de mandar um ser humano morar em um lugar perigoso, afastado e sem o básico. Favelas representam o quanto somos um país atrasado.

E o rapaz me disse que essa é razão dele querer morar no Brasil e sonhar em ser brasileiro, porque o brasileiro apesar de abandonado pelo Estado não é revoltado, nem cheio de mágoas, pelo contrário, tenta se virar nos trinta.

Me contou de algumas comunidades em países piores que o Brasil, onde as pessoas estão tristes, morrendo de fome, de sede, de tudo. Ele disse que não teve essa impressão aqui, p
or isso mesmo acredita que se algum país pode dar exemplo e mostrar como sair da merda, é o Brasil, porque o povo se une naturalmente e consegue se mexer. Nisso ele tem razão, se essas pessoas fossem orientadas e apoiadas, o Brasil seria uma potência porque o brasileiro é de meter a mão na massa e não reclamar, ainda faz cantando.

O rapaz quer ser útil em uma comunidade onde as pessoas são úteis e ativas,então resolveu ficar aqui. Viu até no brasileiro um socialismo no DNA, segundo ele aqui as pessoas se preocupam pelo outro, querem que o outro também tenha sua casa, por isso se prontificam a ajudar a construir. Ao contrário do mundo onde as pessoas se isolam e são egoístas, brasileiro gosta de convidar os amigos e dividir o que têm.

Ele diz que na Austrália é comum as pessoas quererem construir um milhão de coisas na sua casa, lugar para malhar, lugar pra isso ou pra aquilo, mas aqui brasileiro sonha com casa grande e pátio para fazer churrasco para os amigos.

Por isso se apaixonou pelo país e quer ter filhos aqui.E me disse:

- Ricos eles podem aprender a ser em qualquer lugar, mas ''gente'' eles só vão aprender a ser aqui.


Iara De Dupont 

8 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo Iara,e um post pra refletir sob varios aspectos.Minha Irma mora na Australia ha quase 3 anos,faz enfermagem,ele colocam anuncios na tv e jornal em busca de profissionais porque os jovens australianos gostam de vida boa e como bem disse o rapaz,se reunem pra fumar,beber,e o estado ajuda quem nao trabalha,e muitos preferem nao trabalhar.Admiro sim o lado do brasileiro de se ajudar ,improviser,arregacar as mangas,e sim confortante viver em um pais assim,uma coisa compensa a outra,em alguns paises em que estive nao tem esse calor humano,mas os direitos basicos do cidadao sao respeitados,vai do gusto do fregues.Muitas vezes eu sinto falta do Brasil,mas tenho certeza que quando eu voltar,vou sentir falta daqui tambem.
Bjs
Anna Lara

Fernanda Somenauer disse...

A opinião de seu entregador australiano sobre o Brasil é tão bonita....
Faz pensar no quanto realmente não damos valor para o que temos.
O "espírito" do brasileiro explicado de uma maneira suscinta e bonita.
Bonito post!

Anônimo disse...

Eu não entendo é ter só coisas de ruim para falar do seu próprio país e precisar vir um estrangeiro para mostrar o que qualquer um pode ver se colocar o nariz na janela, se andar pelas estações, se se misturar ao povão nas ruas.

Anônimo disse...

NJao existe povo alegre como o brasileiro,nao existe povo mais acolhedor,criativo,sao artistas natos,mas esse mesmo povo burla o direito um do outro pra tirar vantagem,enfim nenhum lugar e perfeito,e temos sim muita coisa boa pra falar do Brasil mas nosso pais tambem e uma piada,leia fajutas,nao se pune com rigor,nao se respeita o mais fraco,nao critico meu pais por achar bonito,critico com dor no curacao,porque eu queria que fosse um pais mais justo.

Lia

Anônimo disse...

NJao existe povo alegre como o brasileiro,nao existe povo mais acolhedor,criativo,sao artistas natos,mas esse mesmo povo burla o direito um do outro pra tirar vantagem,enfim nenhum lugar e perfeito,e temos sim muita coisa boa pra falar do Brasil mas nosso pais tambem e uma piada,leia fajutas,nao se pune com rigor,nao se respeita o mais fraco,nao critico meu pais por achar bonito,critico com dor no curacao,porque eu queria que fosse um pais mais justo.

Lia

Anônimo disse...

Eu também queria um país mais justo, minha cara, mas a verdade é que o que se carece aqui é de educação para votar direito. Pode-se dizer que a culpa dos governantes sofríveis que temos é do povo, mas este povo faz o que pode, porque não dá para fazer o que não pode. O Brasil não é uma piada, é um país gigante com problemas normais e em comum com o resto do mundo e com a vantagem de ser um dos lugares mais acolhedores do planeta. Pergunte aos milhões de estrangeiros que se apaixonaram pelo Brasil - e eles tem seus motivos.

Inconfomado disse...

Pois é, vou no particular e mando a conta pros pais. Bala perdida, policia corrupta, saúde de merda e escola publica abandonada. Como quebrar o circulo do miserê?

HP disse...

Engraçado..

Quando ele morou "um mês no apartamento em Perdizes não conheceu ninguém além do porteiro".

Já na favela, no mesmo dia já teve contato com outras pessoas.

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Dois povos morando na mesma cidade?

Porque o pessoal de Perdizes é idêntico aos australianos que constroem uma academia dentro de casa?

Os de Perdizes não fazem parte do mesmo "povo brasileiro"?

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