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06 março 2013

Quer ser feliz? Faça as contas



Fazer contas não mata ninguém, mas não fazer leva a uma vida de merda

Quando tinha doze anos uma amiga da escola me ensinou um gráfico que seu avô, professor de matemática tinha feito. Era simples e ela me explicou que ele dizia que era para toda a vida, tinha que ver  com tudo, relacionamentos, vida, trabalho, tudo como uma conta, caso não fechasse alguma coisa estava errada. De um lado ela escrevia o que estava dando para o que tivesse escolhido e do outro o que estava recebendo. Depois era só somar e ver se a conta estava certa, caso ficasse no vermelho, então alguma coisa estava errada.

Não entendi na época, mas depois de alguns anos ela me explicou novamente e fiquei chocada. Eu estava no auge da minha maneira de ver a vida emocionalmente, achava que existia o ''bem'' e damos o que queremos, sem ficar esperando nada em troca, tudo me parecia certo, já que existia o ''castigo divino'' e ''boas pessoas'' sempre são recompensadas, com minha lógica para que um gráfico frio, vazio e distante?


Perdi o contato com minha amiga e tenho lembrado muito dela nos últimos tempos, só hoje consigo entender a genialidade do seu avô, um visionário que percebeu que tudo na nossa vida é uma questão matemática. Já na época que eu era criança ele era muito bem sucedido, apesar de ser professor em um país que isso não faz a menor diferença, principalmente economicamente.


Hoje conhecendo a natureza exploradora do ser humano entendo a importância de fazer as contas. Quando eu gostava de alguém, eu gostava, me jogava mesmo e nunca fiz contas nem gráficos, pelo contrário, na minha ingenuidade eu ia pela vida caminhando achando que o amor supera tudo e emoções são para serem vividas, não calculadas. Imagina, eu dou amor porque eu quero, pra que fazer contas?


Não fiz e agora consigo ver como minhas contas viviam em vermelho. Eu entrava no relacionamento, dava o possível e impossível e o outro não investia nada além do mínimo, eu ficava no vermelho. 


Comecei a fazer as contas de várias mulheres da minha família, todas exploradas pelos seus maridos. Elas deram tempo, energia, amor, dedicação para construir uma família e ainda trabalharam fora e o que receberam? Homens encostados, folgados, infiéis e irresponsáveis. E tudo isso aconteceu simplesmente porque ninguém fez uma simples conta de matemática, que até uma criança de sete anos pode fazer, se eu dou dez e recebo um, então quem fica no prejuízo? E o que é importante para mim, estou recebendo do outro lado o  que eu quero ou estou me contentando com migalhas?

E não foi só no amor que errei nas contas, foi em tudo. Não calculei prejuízos em trabalho, amizades, saúde, em nada, nunca fiz a porra de um gráfico, porque achava que o que nós dávamos as pessoas fazíamos isso por vontade própria não pensando em receber. Mas em um mundo que se construiu e gira ao redor da exploração não fazer contas é pedir pra morrer na merda. Investi tempo, dedicação em trabalhos que fui explorada, investi em amizades que fizeram a mesma coisa. Já vivemos em um país onde vemos o governo levar 78% do que ganhamos e ainda vamos ser explorados por amigos, amores e chefes? É muita coisa, mas pelo menos podemos evitar uma parte.


Ah, fazer contas parece tão frio, tão desumano. Mas não é? Também acho, mas alguém saiu ganhando nas contas que eu não fiz.

Não é difícil de fazer, é só pegar um caderno e separar por temas. Começa com o nome de uma amiga, o que eu dou nessa amizade e o que recebo? Tá valendo a troca? Tô no azul ou no vermelho com essa pessoa ou é ela que está me devendo? E assim vai com tudo, família, amigos, namorado, trabalho, relacionamentos na vida, é só ir escrevendo o que se coloca, se investe e o que se recebe.

E se a conta não fechar? Tchau e benção, não vale mais a pena continuar, dali pra frente conta que não fecha é como cartão de crédito com o pagamento atrasado, só vai piorar até estourar da pior maneira possível.


Mas quem não quer viver assim, calculando tudo? Que faça como eu, nunca calculei, mas fui explorada por muitos, já que não queria calcular. A vida não é tão meiga como parece, deixa bem claro o que acontece se a pessoa não aprender a reagir. E fazer contas não ajuda a pessoa apenas a se livrar de ser explorada, mas de ser justa, às vezes o papel mostra que estamos dando de menos e recebendo demais.


Foi a falta de gráficos, de contas fechadas, que acabou com a vida de muitas mulheres da minha família, porque investiram tudo e não receberam nada.


E coitado de quem fizer isso na frente dos outros, vai passar por uma pessoa calculista, fria e perigosa, onde já se viu medir relacionamentos e trabalhos por gráficos?


Mas é para isso que todos temos a capacidade de fingir, dá muito bem para fazer as contas sem ninguém ver e os números não mentem, isso dizia o avô da minha amiga, os números estão ali, mostrando nosso prejuízo ou nosso lucro. E neste mundo prejuízo é mais do que dever ao banco, pode ser perder tua vida com a pessoa errada, alguém que está ganhando em cima de você. É melhor mesmo começar uns gráficos.


Iara De Dupont


2 comentários:

Lakrizia Hamlet disse...

Caramba!!!! Ja li muita coisa boa nesse blog,mas por esse post eu deveria pagar . Quanto prejuizo ja tive por nao gostar de matematica. Uma grande verdade,os numeros nao mentem jamais... Comecando a calcular ja.

Bjs

Carolina disse...

Amei!!! Já quebrei a cabeça algumas vezes e por causa disso comecei a pensar nesse assunto. Mas nem de longe a minha reflexão alcançou tanta clareza! Tb vou começar a calcular! rs...

Beijos,
Carol

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