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18 fevereiro 2013

Para todas as Júlias do mundo



Júlia Pestrana 1834-1860. Esperou 150 anos para ser enterrada como um ser humano


                                           
A fótografa Haley provando que todos os gordos são observados com preconceito
                                            
Por algum motivo que desconheço uma fotógrafa, Haley Mori, resolveu fazer umas fotos de si mesma e acabou provando uma teoria que só os gordos percebem, as pessoas reparam nos gordos de uma maneira negativa e não fazem a menor questão de disfarçar isso.
As pessoas não tem noção do peso de um olhar, até os psicanalistas dizem que o ser humano não teme nada tanto como o olhar alheio, principalmente se vem cheio de ódio, repulsa e reprovação.

A humanidade não deu grandes exemplos de como se comportar em relação ao outro, não consegue avançar na linha do respeito e as fotos de Haley mostram isso, é triste de ver e comprovar como as pessoas podem ser tão miseráveis e ela nem é tão gorda assim para chamar tanto a atenção. O olhar é uma arma e pode fazer um mal enorme a pessoa que é olhada de maneira diferente. E no meio de tantas coisas ruins em relação ao ser humano e ao fato de não respeitar ninguém, aconteceu uma coisa boa.


Esta semana voltou ao México, Sinaloa, o cadáver mumificado de uma mulher. Júlia Pestrana nasceu com uma doença que cobria seu rosto e modificou sua mandíbula, deixando-a com a aparência diferente, parecida a um macaco. Ela teve o azar de ter nascido em uma cidade pequena em 1834. O seu destino foi parecido ao do Homem elefante, os circos. Ela era como ele, culta, falava diversos idiomas, cantava ópera, mas era tratada como aberração. Foi sendo vendida e trocando de circo em circo até que chegou a Nova York, onde pensaram que ela era o elo perdido, a peça que ligava o ser humano aos macacos, a teoria da evolução confirmada. Foi estudada por diversos médicos e acabou se casando com um homem que a levou por toda a Europa para se apresentar como a ''mulher macaco''.  Engravidou, mas morreu no parto como a criança e seu corpo foi vendido ao um comerciante da Noruega.


Em 2003 uma artista plástica mexicana Laura Anderson viu uma peça de teatro que tratava sobre o caso e se perguntou onde estaria o corpo de Júlia. Ficou sabendo que estava nos porões da Universidade de Oslo, depois de ter sido muito estudado e analisado ele foi jogado em um canto. E durante dez anos Laura trabalhou para levar o corpo de Júlia de volta ao México, onde ela pudesse ser finalmente enterrada com a dignidade que não foi dada a ela em vida. Não fez isso por dinheiro, nem prestígio, pelo contrário, financiou suas viagens a Noruega, causou ao México um constrangimento diplomático com a Noruega, e só fez isso porque queria ''restaurar a dignidade humana'' de Júlia, queria que Júlia fosse finalmente reconhecida como um ser humano, não um animal.


E conseguiu o direito a enterrar Júlia, apesar dos pedidos de não fazer isso, já que ela ainda poderia ser estudada, mesmo com todas suas doenças decifradas e com cura, não haveria muito o que estudar.

Quem lê a história de Júlia se horroriza de pensar o que essa moça pode ter passado e sentido, sendo tão culta, tão inteligente, deve ter sofrido muito ao ser exposta como um animal em diversos circos pelo mundo.
Os circos que exibiam pessoas sumiram, mas os olhares continuam ali. Assim como Júlia muitas pessoas são olhadas todos os dias, com uma mistura de curiosidade com nojo.

Apesar de centenas de anos aqui os seres humanos não aprenderam a olhar para nada desconhecido com amor e aceitação, nem com medo, olham do jeito errado, diminuindo quem está sendo observado.

Diante de tantas coisas terríveis, apareceu essa artista, Laura, mostrando como uma pessoa pode fazer a diferença, muitos podem pensar, mas a Júlia já estava morta, pra que ir buscar ela? Porque ninguém fez isso durante a vida dela, ninguém a salvou e por que não salvar ela na sua morte? O que faria dela um ser tão diferente que não mereceria nem ser enterrada em sua cidade? Ela tinha uma doença, mas era um ser humano e não foi em vida tratado como um. Até o cadáver do seu filho que nasceu com a mesma doença foi roubado e perdido.

Entre o calvário de Julia e seu digno enterro,debaixo de um emocionado discurso de sua madrinha de viagem, Laura, se passaram 150 anos. Tempo este que Júlia ficou sendo analisada e depois abandonada em uma universidade, como se fosse um rato morto. Laura fez uma campanha para conseguir dinheiro e levar Júlia de volta, além das doações no dia do enterro em sua cidade natal chegaram mais de dez mil flores, enviadas por desconhecidos.

Júlia foi enterrada, mas sua memória não. Ela está em cada pessoa que é tratada diferente, desprezada, seja pela cor, pelo peso, por alguma deficiência. O sofrimento de Júlia infelizmente foi em vão, muitas Júlias circulam pelo mundo, sentindo o horror do olhar alheio.

Ninguém escolhe nascer com uma doença ou com excesso de peso. E não existem tantas Lauras no mundo que possam ajudar as pessoas a entender a importância de respeitar alguém, de devolver a essa pessoa a dignidade arrancada no olhar.


Júlia voltou ao México e teve o seu enterro, mas isso não ameniza o fato de ter sofrido tanto em vida. Mal sabia ela, mas hoje 150 anos depois as pessoas continuam as mesmas, incapazes de amar pelos olhos, de entender o outro com o olhar. Se ela voltasse agora ia se impressionar com o fato de enfrentar as mesmas situações de preconceito que um dia enfrentou.


Agora ela descansa em paz na sua terra, mas os olhares continuam neste mundo agredindo a todos que são diferentes. É uma guerra, cada vez que uma pessoa morre com o coração amarrado, como Júlia deve ter morrido, a humanidade mostra como é pequena e miserável. Cada ser humano que for magoado pelo olhar do outro confirma que a batalha foi perdida. Enterrar um ser humano que sofreu pelo preconceito é como enterrar um anjo, depois de cortar suas asas.



Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

O que eu poderia acrescentar a esse texto? Nada,so dizer o quento vale a pena visitar seu blog constantemente e ler esses textos esplendidos.

Anna Lara

Anônimo disse...

Também sou uma Júlia. Sei os olhares e pensamentos pra mim. Não me sinto livre, nunca me sinto livre na verdade. Parece que o ar sempre tá me sufocando, as pessoas olham, os olharem são crueis. Os seres humanos são crueis no seu mais profundo intimo e depois pagam de bonzinhos, de santinhos. São hipocritas que não conseguem arrumar as proprias vidas, mas querem arrumar a vida dos outros para se sentirem mais perto dos "santos". Adoraria morar numa ilha bem longe dessas pessoas.

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