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17 outubro 2012

O último pedaço do bolo (lembro de você Lui)







Uma foto que ele tirou
Tempos atrás um amigo ficou doente, mas foi muito sério, um tumor no cérebro. Ele fez pelo menos umas duas cirurgias para tentar remover, mas não deu certo.
Então fez a terceira. Fui visitar ele ao hospital e a enfermeira me disse para pensar bem se eu queria entrar no quarto, já que a aparência dele era um pouco assustadora. É impossível descrever, mas essas cirurgias incham o rosto da pessoa e ela fica deformada.

Mas sou boa atriz e por ter sido avisada antes fingi não reparar. Conversamos um pouco, foi um desses momentos onde ele estava lúcido e falando perfeitamente. Me perguntou da cor do meu cabelo e eu disse que era pela minha dieta, só comia cenouras e isso dava um tom avermelhado ao meu cabelo preto.


-Só cenouras? ,ele perguntou.


Confirmei e ele me disse que era uma ideia boba, mas que eu sabia o que ele pensava a respeito.

Meses antes de toda essa tragédia acontecer nós tivemos uma discussão em um restaurante, por causa da comida. Eu não lembro o que pedi, mas mencionei minha dieta. Ele me chamou de superficial, de fútil e boba, disse que eu perdia tempo na vida fazendo coisas estúpidas. Fiquei magoada no dia e só depois de semanas descobri que na mesma semana que fomos ao restaurante ele tinha sido diagnosticado com esse tumor. Imaginei que esse ataque de raiva vinha daí, uma pessoa com menos de 25 anos recebe uma sentença de morte e fica ouvindo a amiga reclamar do peso.

Tínhamos uma amiga em comum que depois me contou que ele não se conformava em escutar sobre minhas dietas, achava o fim do mundo essa conversa.

Eu o conheci porque precisava de um fotógrafo e uma amiga me apresentou ele. Marcamos um dia para as fotos, fui com meu irmão, uma amiga e o namorado dela. Na hora decidimos que seria legal fazer as fotos em um cemitério, entramos e ficamos por lá, disfarçando e tirando fotos.

A vida é tão louca que só depois que ele morreu soube que tinha sido enterrado lá.
Nesse dia que visitei ele no hospital a enfermeira me deixou grudar adesivos na cama dele, eram do Mickey Mouse.

Conversamos pouco, já que ele seria sedado de novo. Era a terceira cirurgia e não tinham conseguido remover o tumor.

Ele me perguntou como estava o clima e eu disse que estava chovendo. E depois me perguntou se eu seria realmente uma boa amiga e quando ele saísse do hospital aceitaria comer uma fatia de bolo de chocolate com ele, aceitei na hora e disse que uma não, pelo menos umas quatros para sair do atraso.

Eu sabia que a dieta dele era restrita há meses, por isso evitei o assunto,mas ele ficou falando do bolo de chocolate, de um restaurante, que eu também conhecia, o restaurante é conhecido por esse bolo maravilhoso. Eu jurei para ele que ia deixar de lado essas bobagens de dieta e iríamos detonar no bolo.

Me despedi dele e ficamos nisso, o nosso próximo encontro seria com um bolo de chocolate. Naquela mesma noite ele morreu.

Não era ingênua, no fundo eu sabia que ele ia aguentar muito tempo, mas acreditava que pessoas jovens se recuperavam e ele podia se recuperar.


No dia do velório dele encontrei a amiga que tinha nos apresentado. Eles eram muito próximos e ela estava realmente muito mal. Acabamos saindo para comer e não tinha nada aberto, demos voltas e mais voltas e achamos uma lanchonete, que só tinha hambúrguer e batata frita.

Estávamos morrendo de fome e detonamos nas batatas. No meio da comida a minha amiga disse:
- Sabe?O Lui deve estar feliz, ele queria ver a gente assim, comendo batata, aproveitando a vida, sem besteiras.

Eu contei pra ela a história do bolo de chocolate. Ela deu risada, disse que ele era louco por aquele bolo.


E essa história nunca mais saiu da minha cabeça. Sempre penso nessa última fatia de bolo que ele não comeu e sonhava com ela. Quando eu faço dieta eu afasto essa fatia do meu prato e não como. E fico pensando e se for meu último minuto na Terra, vale a pena fazer isso? Afastar uma comida que nos dá prazer apenas porque dizem que engorda?

Nunca rejeitei uma sobremesa sem lembrar dele. Curiosamente não lembro bem dele no hospital, lembro mais nos dias de reuniões, de festas. Lembro dele magrinho detonando a comida.

Não tenho vontade de comer um bolo todos os dias, mas por mim eu comeria uma fatia todos os dias e isso me faria muito feliz. Mas talvez ele tinha razão, não tenho talento para ser leve e solta.

Não pensamos nos nossos últimos minutos nem segundos, vivemos como se tivéssemos toda a vida para fazer dieta e rejeitar as comidas que nos dão prazer. E o que fica além disso? Não fica nada.

Ele não podia comer o bolo de chocolate porque estava doente e eu não podia comer porque estava de dieta. A vontade era a mesma, mas a vida dividia a linha, ele morrendo e eu vivendo na minha caça a um corpo magro.


Às vezes sonho com ele. Fico pensando no que ele quer dizer, mas sempre que sonho com ele acordo e como uma fatia de bolo de chocolate, faço questão. Tenho a impressão que ele volta pra me tirar da minha estupidez, da minha ideia vazia de perseguir um peso absurdo, parece que ele quer me avisar do breve que esta vida é, e não vale a pena rejeitar um pedaço de bolo que te faz feliz. No fundo esse pedaço de bolo simboliza a escolha que todos temos, entre sermos felizes ou não, agora, não amanhã.


Iara De Dupont 


8 comentários:

Andrea disse...

Iara, aceite minhas lagrimas como forma de agradecimento por essas palavras que vc compartilhou comigo.. com todos.
Muitos não entendem pq doi tanto... vc sabe.

Iara Maria Carvalho disse...

belíssimo post!

Poeta da Colina disse...

Uma escolha que não se pode adiar.

Bela lembrança! =)

Fernanda disse...

Me emocionei muito! Um amigo muuuuito querido teve um tumor no estômago aos 29 anos... assim, do nada... e em 40 dias após a descoberta, faleceu. Na minha última conversa com ele (já em casa, acho que os médicos já sabiam que estava no fim e o mandaram para casa... mas tanto eu quanto ele só acreditávamos que ele superaria), ele me falou que toda vez que via uma imagem de um sanduíche do SUBWAY, ele quase morria de vontade de comer (mas além da boca toda ferida por conta da quimio e pela dieta restrita, isso era impossível). Uma semana depois ele morreu. Fazem 2 anos e 5 meses e o choque não passou. E até hoje não consigo entrar em um Subway. =(

Patricia disse...

Iara,querida,coma mesmo este bolo,e pense no amigo como um presente,o melhor presene,porque ele está presente:divida este pedaço de bolo com ele,coma junto dele!

Nunca subtraia coisas boas de sua vida,sua história não tem preço!

E nossa vida não é estanque,vivamos como pudermos!grata por compartilhar este aprendizado com a gente!

Patrícia disse...

Me emocionei muito...a gente abre mão de tantas coisas né, e não sabe o valor que isso teria em uma situação diferente. Meu lema é; sempre que possível, não passar vontade :)

GorDivah No Ar disse...

Que lindo texto! Me identifiquei muito pois penso como ele pensava. A vida é muito breve para nos privarmos de pequenos prazeres sabe? Em um piscar de olhos tudo pode acabar. Por isso devemos celebrar cada instante e viver o que temos vontade.
Bjins queen size ♡

Suzana Neves disse...

Lindo,quem sempre me dizia que eu deveria comer sem culpa era minha avó,porque dessa vida a gente não leva nada.

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