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07 outubro 2012

O meu silêncio não existe




Alguém leu um post meu aqui no blog e disse em um e-mail ''Seu posicionamento é perigoso''.
Cada cabeça é um mundo. Para mim perigoso na vida é não se posicionar e muitos acreditam que isso é possível, mas não é. Até para escolher um pacote de pão nos guiamos pelo que pensamos, estamos nos posicionando, querendo ou não. E ao escolher uma marca ou outra, integral ou branco, tudo isso é uma escolha e ela depende de um posicionamento nosso.

Falar, escrever, descer lenha no twitter, no Facebook, estou de acordo, não muda nada. Mas fingir que não estou vendo não é natural pra mim.


Em 2006 fiz uma peça de teatro em uma casa abandonada, ao lado de uma ONG para moradores de rua. A dona da casa era uma ex-moradora de rua e permitiu ao grupo de teatro usar o lugar para a peça.

Um dia eu estava conversando com ela quando chegou um ator e passou reto por uns moradores de rua que estavam ao lado em uma fila de distribuição de comida. Muita educada a dona do lugar chamou ele a um canto e disse que ali não tinha ninguém invisível e que se ele ia trabalhar ali era obrigado a dizer bom dia, boa tarde e boa noite a todos que cruzassem seu caminho.

Poucas vezes eu tive tanta vergonha de um comportamento alheio. E como se fosse pouco ele deu as costas a moça e foi embora.

Sobrou pra mim me desculpar pelo comportamento do meu colega, mas ela foi muito gentil e me disse:

- Todos passam pelos moradores de rua como se eles fossem invisíveis, isso dói demais, dói mais do que a fome quando as pessoas fingem não te ver.

Com esse incidente ficou claro para mim que até o silêncio é um posicionamento, naquele momento entendi que o ator que tinha feito isso tinha deixado bem claro sua ideia a respeito dos moradores de rua e do lugar que usávamos para a peça.


Muitas coisas aconteceram durante a temporada, mas essa foi uma das mais marcante. Tive a sorte e o privilégio de estar em um grupo, com salvas exceções, de ótimos atores e grandes pessoas.


Como todo mundo também fui educada para não me posicionar, já que isso mete a todos em encrencas. Meus pais me ensinaram a ignorar muitas coisas, mesmo eles não ignorando e reagindo.


Cresci com bases católicas e de classe média, duas coisas que ensinam as pessoas a se posicionar caso isso seja do interesse delas, senão for é melhor esquecer a questão.


Ninguém me ensinou a dizer o que penso, nem sair falando sobre isso, pelo contrário. Tem assuntos que eu sei desde pequena que não podem ser mencionados nem de brincadeira.


Sei bem que falar ou escrever não muda nada, mas tudo muda para mim se eu finjo não ver. Não consigo viver dessa maneira, fingindo que não vi nada nem me interessa.


A quem me disse que meu posicionamento é perigoso, só posso fazer uma coisa, me sinto obrigada a acabar com a festa dessa pessoa e dizer que não é mais possível viver sem se posicionar, até o silêncio é uma posição.


Perigoso na vida é fechar os olhos, é ir pelo mundo fingindo não ver nada e achar que isso é saber ficar na sua, que isso não é se posicionar.


Meu posicionamento não é perigoso, o que é perigoso é a vida e suas curvas, o coração humano é mais perigoso que qualquer posicionamento, sempre se mexendo em trevas e momentos de luz.


Mas a liberdade é um direito de todos. Eu me posiciono falando, escrevendo, dizendo, berrando se for o caso e a pessoa que diz que isso é perigoso se posiciona em silêncio. Espero que ela volte aqui e leia o que escrevi, para então saber que tanto eu quanto ela deixamos clara nossa posição no mundo. Ninguém fica imune nem paralisado aqui, mesmo não querendo todos escolhemos nossos lados.


Aceito a ideia de que não posso mudar o mundo, mas não vou passar por aqui fingindo não ver nem saber de nada. Silêncio para mim não é uma opção. Lição aprendida com os moradores de rua, o silêncio destinado a eles doí mais do que a fome, segundo uma ex-moradora.


Posso errar na opinião, me arrepender, mudar de ideia, pensar de novo, trocar de discurso, mudar de lado, mas me recuso a viver no silêncio.


Iara De Dupont


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