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05 fevereiro 2012

Tem gente que sabe viver e tem gente que não..



Em um ensaio de uma peça de teatro reclamei do calor,logo alguém respondeu que com a roupa de inverno que eu estava, tinha mais é que morrer de calor. Então outro colega disse:
- A Iara está sempre no inverno.

Não gostei dessa frase e nunca esqueci. Mas é verdade. Nos tempos da faculdade o pessoal me chamava de ''viúva'' porque eu sempre estava de preto e com roupas pesadas.
Comecei a usar preto, uma cor que detesto, quando engordei e nunca mais larguei. Ela não emagrece, mas engana os olhos com o volume, fica difícil perceber o corpo. Como tenho estrias nos braços sempre me perguntavam o que era isso, tanto me cansou isso que resolvi usar mangas compridas. É difícil encontrar mangas compridas em blusas leves, sendo assim sempre uso roupa pesada.

Mesmo com o passar dos anos e com a língua afiada, acabei me acomodando. Me acostumei a minhas roupas de luto, escuras e pesadas, mesmo sabendo que são a materialização dos meus complexos e que ninguém lá fora é perfeito o suficiente para me dizer alguma coisa sobre meu peso ou minhas estrias. Mas a roupa se transformou em uma parte de mim, uma espécie de burca interior, que cobre tudo.
Em alguns momentos não me afeta, principalmente no inverno. Mas no verão eu sofro.

Ontem fui caminhar a um parque. Toda de preto. Estava morrendo de calor, quase passando mal, até porque o preto puxa o calor. E então entrou no parque um grupo de meninas. Uma delas usava um short jeans, que eu não uso desde os 6 anos de idade, já que tenho vergonha das minhas pernas grossas. Também usava uma camisa regata branca, coisa que nunca usei, pelas estrias. Estava de sandálias havaianas e parecia um milhão de vezes mais confortável do que eu, na minha roupa escura, de mangas compridas.

Quando ela entrou no parque todo mundo olhou e ela não pareceu se incomodar com isso, continuou conversando com suas amigas e dando risada. Se eu entrasse no parque com a roupa dela, ninguém ia reparar, mesmo assim amarrada aos meus complexos imbecis e lunáticos, eu não usaria essa roupa.

Fiquei por uns segundos congelada, como se tivesse levado um tapa na cara. Fiquei olhando e pensando no que estava acontecendo. Eu ali, de pé, presa a idéias estúpidas sobre meu corpo, morrendo de calor, como se não tivesse o direito de usar uma roupa mais adequada. Eu ali, amarrada a conceitos, a vergonhas, a comentários que algumas pessoas fizeram um dia e eu guardei, magoada. Eu ali me definindo com uma roupa, como se importasse a alguém se minhas pernas são grossas ou não. Me senti péssima, entendi cada palavra das frases que envolvem o amor próprio e o saber viver.

Tem coisa melhor do que no calor usar short? Não tem. Mas eu nunca usei. A garota estava usando e parecia feliz, ignorava os olhares e os sussurros.

Me senti no meio de um abismo, percebendo como deixamos os outros dizerem coisas que nos magoam e carregamos isso a vida inteira. Pessoas já me disseram do meu peso, das minhas estrias, mas hoje sei que eram pessoas que não valiam nada, ninguém que eu quisesse ter na minha vida agora. Eram lixo e me fizeram sentir lixo e eu permiti continuar me sentindo lixo.

A garota ficou um bom tempo no parque, comprou seu sorvete, se divertiu. Tive a impressão de que era alguém que sabia viver e conhecia seus direitos, principalmente o direito a ser ela mesma, a ser feliz e usar a roupa que quisesse.

Quando ela foi embora uma pessoa passou perto de mim e disse:
- Nossa, nunca tinha visto uma anã!

E mesmo? Eu não vi a anã, eu vi uma pessoa feliz, solta,e muito,mas muito mais livre do que eu.

Iara De Dupont

2 comentários:

Joice disse...

Post muito verdadeiro... Infelizmente, as coisas são assim, a gente acaba não se permitindo diversas coisas pelo preconceito dos outros, o que acaba nos tornando um pouco preconceituosas contra nós mesmas... Mas não podemos nos deixar viver assim, claro que como estamos acima do peso, não queremos colocar uma roupa que aumente ainda mais o nosso volume né, mas uma calça preta e uma blusinha colorida bem fresquinha dá, temos de nos permitir!!!! é um direito e um dever!!! eu acredito de verdade que há beleza na diversidade, procura isso em ti tbm, tu vai achar com certeza!!!
um beijão!

Asantix disse...

Olá Lara. Uma interno desabafo sentido, o aqui postado.Uma coisa é sentirmo-nos tal como somos,outra é a obrigatoriedade de sentirmo-nos como não desejamos. O que aqui acabei de ler foi precisamente este último sentimento; sentes-te contrariada face à tua imagem,ou seja por vergonha, do que ouves, impões uma radicalidade em ti mesma, sem precedentes.

Então o melhor seria deixares-te desses preconceitos e passares a estimular o teu verdadeiro eu; ser quem tu realmente és,ignorando a baixeza comentada e toda a angústia que te proclamaram.Liberta-te desse sentimento mesquinho,usa o que gostas,mesmo mostrando o teu verdadeiro corpo,não foi esse o corpo com que nasces-te?Então agradece só teres essas estrias ou pernas gordas,então e aqueles que com falta de membros ou outra dificuldade,não vivem?Claro que sim.....

Miúda vive e faz os outros viverem, se não gostas da tua imagem altera-a com o mesmo tom podes ficar mais leve basta mostrares tal como és.

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