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19 dezembro 2010

Era do nada






O recente vazamento de documentos revela outra inversão de valores. Eu me considero uma filha da ditadura, nasci nos anos mais difíceis, por isso mesmo, segundo uma astróloga tenho uma tensão planetária na minha existência, uma espécie de rebeldia, herdei dos astros um espírito livre que não se ajusta a nenhum padrão.
E  talvez seja um problema da idade,  o tempo passa e temos que ver os horrores diante dos nossos olhos sem dizer nada. Cresci escutando músicas de fundo político, porque a arte então era transgressora. Eu cantava algumas músicas da Legião Urbana mesmo sem ainda saber o que significavam.

Hoje vejo pessoas da mesma idade que eu tinha quando cantava essas músicas cantando melodias de amor e usando calças coloridas. Nada contra. Apenas sofro com esse vazio que ficou, essa luta que se perdeu. Pulamos de uma ditadura para a era do nada.

E agora vazam uns documentos oficiais e o mundo fica indignado, como se não soubessem ou desconfiassem das coisas. Na verdade sabemos das coisas mas no momento é melhor não se posicionar. Não se posicionar tem a ver com viver a vida em paz, fechada na sua casa e longe de polêmicas. Trocamos a liberdade pelo silêncio. 

Tem assuntos  que eu não poderia chegar aqui e dizer o que penso. Já fiz isso em casa de amigos. Aprendi assim, não se fala e pronto, porque não tem nada a ver comigo. Não tem mesmo. Mas de tanto pensar assim, colocamos tudo no mesmo saco e de repente nada tem a ver com nós.

Li uma entrevista de uma americana que dizia que a melhor coisa da tragédia das torres gêmeas foi que o americano percebeu que não precisa cair alguma coisa no quintal dele para então ter alguma coisa a ver com ele. Reduzimos o quintal a nossa sala. Se não está aqui, não me interessa, não é meu problema.
E alguns diriam, mas pra que opinar? Opinião não muda nada. Não muda mesmo. Mas quando se perde o direito a opinar, se perde o direito a pensar e de repente não sabemos mais nada. E os documentos vazados revelam isso, o pavor de se posicionar, os comentários em cima do muro, os comentários feitos a bases de achismos, já que não é bom opinar. No momento em que você opina, você polariza, ou está de um lado ou de outro e as pessoas dizem que é ruim  estar só de um lado. Mas ninguém está mais de um lado ou de outro, está dançando na corda o tempo inteiro, ficando quieto, porque finalmente não se pode opinar sobre nada. Poucas coisas me causam mais repulsa que os militares, mas me vejo obrigada a dizer que se o objetivo da ditadura era criar uma geração sem voz, uma humanidade sem opinião onde todos tem medo de abrir a boca, bom, parece que conseguiram.

Iara De Dupont

2 comentários:

Aline disse...

Adorei sua postagem, e concordo o que vc disse. É muito cômodo quando a gente pode fingir que não sabe que um problema existe, quando as coisas não acontecem conosco, nós dá o direito de eximir da responsabilidade para com o outro, para com o mundo. Gostamos de bancar as vítimas, o marido traído, o último a saber. Adoramos que o próximo tenha piedade de nós. Todos nós conseguimos pensar, minha cara, mas são pouco os que efetivamente querem fazer bom uso desta faculdade mental e se sentem na obrigação de melhorar algo em si e nos outros. A grande maioria de nós preferem ficar na platéia da vida e, como diria o velho Raul Seixas,esperando a morte chegar. Não sei se o objetivo dos militares era nos transformar em um monte de vacas de presépio (sem ofender as vacas, claro), mas sei que os romanos tinham razão: o povo precisa de pão e circo. E é exatamente isso que quase todos nós queremos, desde que não tenhamos que ser chamados a opinar ou a reagir.
Ótima postagem, brilhante como sempre.

Poisdron disse...

Eles conseguiram, e dominam o mundo, mas não podem dominar as pessoas. Em um livro aprendi um dizer, que era não falar sobre o elefante na sala, algo grande acontece e você finge que não existe...

Na verdade isto acontece o tempo todo, se todos sabem, ninguém faz nada, mas preferem ficar iludidos e enganados, e algum barulho, e se enganam novamente que é o que você descreveu, então tudo volta ao normal, um estado de silêncio...

Abraços!

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