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06 julho 2010

Casquinha de chocolate







Quando meu irmão era pequeno ele ganhou um boneco. Era de plástico transparente e dentro você podia ver os ossos, órgãos internos e as veias, que apertando um botão elas corriam um líquido que parecia de verdade. Sempre fui muito parecida com esse boneco. Era fácil ver o que eu sentia, o que eu queria. Era no olhar, na expressão, em tudo, era fácil ver o sangue correndo. E ainda sabia aquela letra toda do Renato Russo ''Por que é mais forte quem sabe mentir?''.

Eu não mentia mesmo, não tinha nem como. E comecei a perceber que era fácil me provocar, porque a reação era fácil de ver. E pessoas que passavam imunes tinham sempre aquela expressão de pôquer face, você tinha que ser um profissional para decifrar o que eles estavam sentindo. Com o tempo e como se fosse o boneco comecei a usar esparadrapo, ia tampando o que eu sentia, escondia o que eu pensava. Parecia um bom negócio, a curto prazo dá lucro mesmo. As pessoas não sabem mais o quanto te aborreceram ou o quanto você se machucou. Fazer cara de paisagem te coloca em algum lugar do mundo que tudo parece certo. Ser inexpressivo te protege sim, não tem como negar. 


Mas a longo prazo me perdi no meio do esparadrapo, perdi uma parte essencial de quem eu era, a reação ao mundo externo, a vida. Com o tempo virei profissional, posso passar de uma expressão vazia a uma cara de tédio em segundos. Mas perdi. Às vezes na minha reação eu estava mais perto de quem eu realmente era, um ser humano com o sangue correndo e visível, que não se escondia de nada nem de ninguém. No espontâneo havia uma verdade, uma beleza. No esparadrapo você se perde, sufoca, vira aquela casquinha de chocolate insossa de um sorvete qualquer, aquela casquinha que esconde o sorvete de creme. E se esconder nem sempre é a melhor maneira de viver.


Iara De Dupont

3 comentários:

Escritor em treinamento disse...

E, no desencontro, idealizamos o que podemos ou deveríamos encontrar. O jogo fica perigoso. Imagine descobrir que tanto nos escondemos porque não temos o que encontrar? Ou até mesmo que o sangue que corre não é azul como se supunha!

Existe o medo do vazio, claro, ou também, como no meu caso, o de descobrir que o sangue é vermelho como o de todos os outros. Não saber é seguro, não frustra, protege.

Prefiro a ilusão.

Pervitin Filmes disse...

Ei! Muito bom seu blog e seus textos! Parabéns! Sou um ativista individual pelos direitos dos animais.
Um abraço.
Sandro Neiva
www.pervitinfilmes.blogspot.com

Indico a você essa matéria a respeito da morte de aves pelos vidros espelhados, mais uma que me deixa indignado aqui em Brasília.

http://adolphofuica.blogspot.com/2010/07/vidros-espelhados-continuam-matar-aves.html

Larissa Alves disse...

No espontâneo havia uma verdade, uma beleza . No esparadrapo você se perde, vira aquela casquinha de chocolate insossa de um sorvete qualquer .

concordo plenamente ! muito bom seu texto,me identifiquei muito !

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